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Re: Afinal de contas, quem é gênio?

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Paulo Sergio (pspsp_at_abordo.com.br)
Date: qui 03 jan 2002 - 19:51:13 EDT

Fernando,

para quem não conhece a poesia "séria" do Vinícius achei um link para
Operário em Construção, vale a pena a leitura, podem ter certeza:

http://spock.acomp.usf.edu/~campoe/mpb/Vinicius_de_Moraes/operario.html

e a entrevista do Ariano Suassuna está aqui:

http://www.muralpb.hpg.ig.com.br/wf/entrevistas/ariano.htm

FT:
O Tropicalismo, na maior parte do tempo, utilizou os aspectos mais
aberrantes e superficiais do Concretismo, e não os elementos que realmente
tinham uma significância como apontadora de uma nova estética. Aliás, o
Tropicalismo tinha muito da quebra pela quebra, da trangressão pela
transgressão, uma atitude muito dadaísta, em certos momentos, me lembrando
até mesmo o Tristan Tzara e certas fases do Breton (um exemplo claríssimo
disto é o "Araçá Azul", que possui certos trechos que reluto em classificar
como música). Acontece que a transgressão absoluta deve marcar um momento,
um "turning-point", a partir do qual se pode voltar a criar, assimilando as
inovações e elementos preexistentes (claro, Stravinski - esse é gênio,
também - não teria existido sem Mozart - gênio -, e este não teria existido
sem Bach, Corelli e Palestrina - os três, gênios). Usar a simples
transgressão como método contínuo e único é cair num vazio niilista do qual
não pode advir nada de artisticamente relevante. Mas tergiverso.
Quanto ao "um fim em si mesmo", digo porque você pega uma canção como "O
Barquinho" e não há, ali, muita coisa a ser dita. O ritmo da poesia
imitandfo um motor meio resfolegante, e tal, só quer dizer isto: um motor
resfolegante. Não consigo encontrar ali uma preocupação em dizer alguma
coisa além disso (por falar nisso, você deve conhecer a história do
barquinho, né? Que o pessoal "quase morreu" - hipérbole do Menescal - etc.).

>>>>>Para variar, concordamos em parte. Sua abordagem do Concretismo em
relação ao Tropicalismo me parece perfeita. A transgressão pela
transgressão, é proibido proibir (claro, estávamos vivendo os "anos de
chumbo") deveria ser a constante. Não foi por motivo diferente que o
principal arranjador, um dos principais artífices do "movimento" foi o
maestro Rogério Duprat, colega do Frank Zappa, do Damiano Cozzela, do Júlio
Medaglia e todos alunos do Stockhausen e Boulez, grandes transgressores. O
momento pedia transgressão, não gosto é da estética do movimento (Carmem
Mirandas estilizadas, "bananas ao vento" etc etc,) era justamente o que os
americanos queriam ouvir naquela época, música feita por gente que vivia na
República das Bananas. Não se pode, entretanto, negar a beleza de algumas
poesias de Caetano, Gil e principalmente do injustamente esquecido Torquato
Neto.
Quanto à Bossa Nova, não vejo porque o Concretismo haveria de ali se meter,
pelo menos não lembro algum exemplo para citar. A letra de Barquinho é
aquilo mesmo, a estética das letras eram aquelas mesmas, não precisavam
dizer nada. Lembra do comentário anterior em que falava que o povo estava
meio cansado de coisas tristes, dor de cotovelo? Então a bossa veio para
falar de amenidades, barquinhos, florezinhas, tristezinhas e outras
viadagenzinhas, mas que funcionavam perfeitamente quando acopladas à música.

FT:
Realmente acredito que o Chico tem um olhar bastante inovador sobre o samba,
por possuir informações (musicais, literárias, teatrais, estéticas enfim)
que a quase absoluta dos compositores de samba não possuía. "Olê Olá" não
lhe parece um samba diferente de tudo o que havia antes? O tipo de crescendo
desenvolvido não me parece muito típico do samba feito até então. E a
poética em "Sem açúcar", que beira uma crueldade psicológica? Isto sem falar
na temática do Chico e na complexidade de certas abordagens (vide "Geni",
por exemplo - aliás, você sabia que "Geni" é baseada num conto de Guy de
Maupassant, chamado "Bola de Sebo"? Por sinal Maupassant também era um
gênio, criou uma nova forma de conto, mas deixa pra lá).
Deve-se levar em conta que citações literárias anteriores eram hgeralmente
bastante falhas. Um exemplo clássico é o da "Mulher de Trinta Anos", que,
por sinal, é um dos piores romances do Balzac (mais um gênio).
Para mim, Chico tem uma forma de tratar a canção popular que me parece
inédita. Daí a sua originalidade.

>>>>>Eu acho que voce tem razão quando diz que o Chico tinha mais informação
que a média dos compositores. Bem nascido no seio de uma família burguesa e
com instrução informal muito acima da média, Chico naturalmente poderia ter
feito e fez uma obra incontestavelmente bela, mas não creio que possamos
chamá-lo de gênio. Pego carona no que escreveu o Daniel e a teoria do Ezra,
creio que Chico é um mestre. Na minha opinião gênio mesmo foi o Aleijadinho.
A minha opinião sobre gênio ser o João Gilberto tem um singelo fundamento:
até hoje, ninguém, por mais que a este respeito tenham escrito, conseguiu
decodificar como o João conseguiu sintetizar uma escola de samba (exageros à
parte) e fazê-la desfilar com apenas seis cordas. Quem foram seus mestres?
Discordo do Eduardo Pimenta que tenha sido Dorival Caymmi. Quem ele ouvia?
Em que momento o "estalo" aconteceu? Enfim perguntas que ficarão, pelo menos
por enquanto, sem resposta. Me entristece ouvir o Roberto Menescal dizer que
João "roubou" algumas camisas suas, na época em moraram juntos, e jamais
devolveu. É de se perguntar ao Roberto Menescal se ele devolveu ao João o
que ele lhe deixou? O próprio Roberto Menescal lhe deixou o João. Mas também
tergiverso. João quis ensinar, não deixaram, julgavam que já sabiam tudo;
João quis dialogar, não lhe deram eco; não lhe restou alternativa a não ser
a clausura. Gênio, Mito, tantos adjetivos, tantas histórias, tantas
invenções, João já não é há muito o músico que foi, mas merece o respeito da
mídia. Chega de verdades, como disse o Lobão :-) Para meditar: todo gênio é
superdotado, mas nem todo superdotado é gênio. Chico é superdotado :-)

FT:
Um grande abraço, e volto a dizer que é um prazer tê-lo como interlocutor,
Fernando Toledo
P.S.: Se quiser ler mais sobre minhas teorias malucas:-), visite o sítio
www.sentandoocacete.com . Tenho uma coluna semanal lá (desculpe o marketing,
Paulo Neves).

>>>>Caramba, material farto para uma boa discussão? Vamos lá, prepare-se :-)

Abração
Paulo Sá Pereira
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