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Re: Afinal de contas, quem é gênio?Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: Fernando Toledo (fernandotoledo_at_hobeco.net)
Date: qui 03 jan 2002 - 18:24:36 EDT
Oi, Paulo, vamulá too:
> Fernando Toledo,
>
> não pense, por favor, que estou "pegando no seu pé", ooopa! mas, putz de
> novo, voce tem teorias sensacionais, vamulá:
>
> >>>>>O Concretismo me parece que teve como meio de divulgação (pavoroso
para
> o meu gosto) a Tropicália. Aliás, é imperdível a entrevista com o Ariano
> Suassuna sobre o Tropicalismo, vou achar o link e mandar (com a devida
vênia
> do mestre Paulo) para quem se interessar. Agora "funcionando mais como um
> fim em si mesmo do que tentando dizer alguma coisa" me remeteu ao mais
> profundo limbo da minha ignorância :-)
>
>
O Tropicalismo, na maior parte do tempo, utilizou os aspectos mais
aberrantes e superficiais do Concretismo, e não os elementos que realmente
tinham uma significância como apontadora de uma nova estética. Aliás, o
Tropicalismo tinha muito da quebra pela quebra, da trangressão pela
transgressão, uma atitude muito dadaísta, em certos momentos, me lembrando
até mesmo o Tristan Tzara e certas fases do Breton (um exemplo claríssimo
disto é o "Araçá Azul", que possui certos trechos que reluto em classificar
como música). Acontece que a transgressão absoluta deve marcar um momento,
um "turning-point", a partir do qual se pode voltar a criar, assimilando as
inovações e elementos preexistentes (claro, Stravinski - esse é gênio,
também - não teria existido sem Mozart - gênio -, e este não teria existido
sem Bach, Corelli e Palestrina - os três, gênios). Usar a simples
transgressão como método contínuo e único é cair num vazio niilista do qual
não pode advir nada de artisticamente relevante. Mas tergiverso.
Quanto ao "um fim em si mesmo", digo porque você pega uma canção como "O
Barquinho" e não há, ali, muita coisa a ser dita. O ritmo da poesia
imitandfo um motor meio resfolegante, e tal, só quer dizer isto: um motor
resfolegante. Não consigo encontrar ali uma preocupação em dizer alguma
coisa além disso (por falar nisso, você deve conhecer a história do
barquinho, né? Que o pessoal "quase morreu" - hipérbole do Menescal - etc.).
>
e a velha teoria de que o Chico era um Noel Rosa (piorado)? Será
> que criou mesmo uma nova estética no samba? Volto ao meu exemplo, João
> Gilberto conseguiu criar uma nova estética no samba, mas Chico? Sei não, e
> olha que sou fã do Chico.
>
Realmente acredito que o Chico tem um olhar bastante inovador sobre o samba,
por possuir informações (musicais, literárias, teatrais, estéticas enfim)
que a quase absoluta dos compositores de samba não possuía. "Olê Olá" não
lhe parece um samba diferente de tudo o que havia antes? O tipo de crescendo
desenvolvido não me parece muito típico do samba feito até então. E a
poética em "Sem açúcar", que beira uma crueldade psicológica? Isto sem falar
na temática do Chico e na complexidade de certas abordagens (vide "Geni",
por exemplo - aliás, você sabia que "Geni" é baseada num conto de Guy de
Maupassant, chamado "Bola de Sebo"? Por sinal Maupassant também era um
gênio, criou uma nova forma de conto, mas deixa pra lá).
Deve-se levar em conta que citações literárias anteriores eram hgeralmente
bastante falhas. Um exemplo clássico é o da "Mulher de Trinta Anos", que,
por sinal, é um dos piores romances do Balzac (mais um gênio).
Para mim, Chico tem uma forma de tratar a canção popular que me parece
inédita. Daí a sua originalidade.
Tres belíssimos exemplos, mas que não são suficientes para lhe
> conferir a condição de gênio, na minha opinião. Aliás, "O Operário em
> Construção", do Vinícius foi o mote para esta genial letra do Chico.
Palmas
> para o velho poeta.
>
Usei exemplos críticos, situações-limite, porque quis tornar meu pensamento
bem claro. Mas existem outras utilizações de estéticas externas ao samba, ao
longo de toda a obra do Chico.
Quanto ao Drummond, palmas chega a ser pouco para ele. O Chico também tem
outro samba meio que baseado no Drummond, "Ciranda", eu acho (aquele do
"fulano que amava beltrano que amava sicrano" etc.). Ponto para ambos.
> Abração
> Paulo Sá Pereira
Um grande abraço, e volto a dizer que é um prazer tê-lo como interlocutor,
Fernando Toledo
P.S.: Se quiser ler mais sobre minhas teorias malucas:-), visite o sítio
www.sentandoocacete.com . Tenho uma coluna semanal lá (desculpe o marketing,
Paulo Neves).
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