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Texto sobre choro na Itália!Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: Eduardo Pimenta (epimafre_at_yahoo.com)
Date: qua 02 jan 2002 - 15:36:40 EDT
Moçada:
Em outra lista, passaram-me o link pra uma rádio
italiana que toca música negra. Tinha um texto sobre
choro, baseado principalmente num livro de Ary
Vasconselos, em italiano e em francês
(http://www.blackinradio.it/francese/Default.htm).
Como alguém dali pediu uma tradução e eu estava com um
tempinho (graças a ter vindo trabalhar 8 horas dia 31
-
viver em Campinas é isso, estou louco pra me mudar de
volta pro Rio), fi-la. Segue, com um abraço do
Pimenta.
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Choro
por Raffaele Bella
Eu acho normal a surpresa do melômano, do admirador,
do executante e do intérprete dos belíssimos choros de
Villa-Lobos que se vêm a propor uma outra idéia do
choro brasileiro, articulada diretamente por pelo
menos seis gerações de musicistas, por um longo
período. Há alguns anos, foi formulada a hipótese
entre a imagem difundida pela mídia de massa e a
autenticidade da cultura brasileira, que à primeira
vista se diria dicotômica. As informações seguintes
sobre o choro, estrutura verdadeira da MPB, tendem a
demonstrar esta divisão. Elas apresentam também um
capítulo importante da música afro-brasileira, que
permanecia sob sombra. Comparando as datas do
nascimento do jazz e da primeira gravação em suporte
mecânico da música manifestamente afro, que teve lugar
no Rio de Janeiro, o brasileiro chegou primeiro. Não
se trata de primogenitura nem de rivalidade; a
observação serve apenas para confirmar a tese de que a
música afro-brasileira é tão importante quanto o jazz.
Falar, mesmo que sumariamente, da corrente principal
da música popular brasileira, ou MPB, se torna
possível desde a chegada determinante do musicólogo
brasileiro Ary Vasconselos, que passou anos a redigir
seu livro: "Carinhoso, etc. - História e Inventário do
Choro". 1984, Rio de Janeiro, Gràfica Editoria do
Livro Ltda. Quero agradecer ao etnólogo e
musicólogo Carlo Ciasca, que pôs este livro à minha
disposição, e a meus amigos Angela Paparo, Ombretta
Mattetti e Pierluigi Panfili, que
me encorajaram em meu trabalho.
Em 1870, após a guerra entre o Paraguai e o Brasil,
Rio de Janeiro é a capital federal do país. Neste
época, a música é influenciada pelos gêneros lundu e
modinha, que já estão em contato pelos elementos afro,
sobretudo quanto à rítmica, e que confluem do fado.
Parece que a palavra choro vem das festas africanas e
que se transformou em "choro" ao contato citadino. Uma
modalidade do choro exprime uma atmosfera melancólica,
justificando a idéia do "tom plangente", a definição
dos "chorões" sendo a do choro. O caráter espontâneo,
sinceramente popular do choro relembra o mundo ibérico
e mediterrâneo, assim como a Itália meridional sob
dominação espanhola. Assim como no Brasil, na Sicília
o novo gênero acompanhava o trabalho feito nas
barbearias, dois violões e um cavaquinho (pequeno
violão de quatro cordas e som agudo) formando o trio
fundamental, ao qual se junta, cerca de 1870, a flauta
transversa. Este era o "quarteto ideal". Ary
Vasconselos, no trecho sobre o nascimento do choro,
cita o velho livro de Alexandre Gonçalves Pinto "O
choro", e, após ter destacado a influência da
habanera, escreve em sua obra citada que "a polca, o
'tango brasileiro', a valsa, a mazurca, o maxixe, o
xote, o choro o samba e a marchinha" faziam parte do
repertório do choro. Vasconselos acrescenta: "Toda a
música popular instrumental brasileira, desde que
contenha elementos de 'brasillidade' (puramente
brasileiros), pode ser considerada choro".
O choro era uma matriz de diferentes ritmos e
coreografias influenciadas tanto pela cultura afro
quanto pela música européia, o que lhe dá um caráter
próximo da música que vai nascer, o jazz. Não
obstante, um trato característico diferencia o choro,
como uma parte importante da MPB, do blues e do jazz;
é a variedade de ritmos da música afro-brasileira,
incluindo a religiosa, a carnavalesca, etc., que
produz esta pluralidade espetacular que a mostra, por
numerosos aspectos, semelhante à africana. Vasconselos
comenta que permanece a dificuldade de identificar os
critérios para definir qualquer das músicas do gênero
choro. O autor de "Carinhoso, etc.", teve que ouvir
cerca de três mil choros para clarificar suas idéias.
Ele enumera o baião, o maracatu, a marchinha e o
frevo. Define como choro composições que infelizmente
são desconhecidas do público italiano. Citemos porém
as imagens sonoras de "Tico Tico no Fubá", o mais
famoso coro gravado; há também "Brasileirinho" e
"Delicado", escolhido como vinheta pela RAI (televisão
italiana) nos anos 50. Carlos Mascarenhas escreve: "O
melhor da música popular brasileira", que é a
compilação em oito volumes de importantes obras
musicais brasileiras. Em Roma, o Centro di Studi
Brasiliani, na embaixada do Brasil, oferece a
oportunidade de se aproximar do choro. O termo
"chorinho" é muito empregado em lugar de "choro".
As raízes afro do choro se destacam em sua estrutura
pela oposição dos ritmos sincopados, freqüentemente
presentes nos baixos do violão, e que provêm das
danças africanas. O violão de sete cordas, é a mais
eloqüente demonstração da complexidade polifônica do
choro; a sétima corda, o baixo, amplifica as
potencialidades do instrumento. Rico, o choro tem
vocação instrumental harmonias e arranjos complexos;
pode escolhê-los tanto no jazz quanto no gênero
sinfônico. Vasconselos escreve que o choro nao nasceu
para se limitar à flauta, ao cavaquinho, ao violão e
ao bandolim. Segundo ele, não é o samba a música que
identifica o Brasil, mas o choro. Ele o define: "Nossa
personalidade nacional". Nos E.U.A., seu equivalente
foi o ragtime. Os nomes de Chiquinha Gonzaga, pianista
e compositora, e o pianista e compositor Ernesto
Nazaré são ligados a esta época. A partir de 1889,
emerge "uma segunda e maravilhosa geração de chorões".
Alexandre Gonçalves Pinto cita o nome de Anacleto de
Medeiros, compositor inspirado e chefe da Banda do
Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Deve-se-lhe as
gravações, para a Casa Edison, "dos primeiros
cilindros e discos brasileiros". Depois, sucede-lhe
Albertino Pimentel, o "Carramona". Segundo certas
pessoas, esta foi a era de ouro do choro, de uma
atmosfera apenas escurecida, e que durará até 1919,
ano em que as "jazz bands" irrompem com seus saxofones
e baterias norte-americanas. Em seu livro, Gonçalves
Pinto recria a atmosfera dos chorões do Rio de
Janeiro, os míticos boêmios, os notívagos alegres que
tocavam menos pelo dinheiro que para fazerem festa e
beberem além de todos os limites. Convidava-se os
músicos das "noites cariocas" (paráfrase do título de
uma comosição de Jacob do Bandolim) para animar as
noitadas e festas. Eles iam ver na cozinha se o jantar
estava conveniente; caso contrário, iam-se. Ligados a
esta geração há os nomes de Mário Alvarez da
Conceiçao, o professor de Cavaquinho, do jovem Jacob
do Bandolim, pseudônimo de Jacob Pick Bittencourt, um
músico que, na qualidade de pesquisador, encheu as
caixas do Museu da Imagem e do Som (MIS - equivalente
a uma discoteca de estado) e se tornou, assim, o maior
arquivista de choro e da MPB. É interessante falar de
Ernesto Nazaré inspirado por uma harmonia moderna e
sofisticada, onde está presente a influência de
Chopin. Neste sentido, o paralelo com o ragtime se
impõe; é uma época próxima dos anos em que Scott
Joplin e outros grandes escrevem um novo capítulo da
música afro-americana.
A terceira geração do choro é dominada pela
influência de um dos maiores personagens de toda a
MPB. Alfredo da Rocha Viana Jr., vulgo Pixinguinha, um
mulato que herda de seu pai chorão a paixão pela
música. Com 14 anos, escreve seu primeiro choro, "Lata
de Leite", e com 16 anos grava seu primeiro disco, uma
composição de seu professor de flauta Irineu de
Almeida, um tango, São João debaixo d'água". Entre
todas as composições qualificadas como obras-primas,
estão: Carinhoso, Lamentos, Ingênuo, Um a zero, Sofres
porque queres, Naquele tempo, Vou Vivendo. Com 20
anos, Pixinguinha, com a legendária formação "Oito
Batutas", empreendeu uma turnê na França, que tem sua
apoteose em Paris, em 1922. Tornando-se um tipo de
mito, e assim um modelo para toda a MPB, Pixinguinha e
a orquestra, que se tinha acrescido de clarinetes,
saxes e trompetes não pôde resistir à influência do
jazz que se acompanhava das novas danças, fox-trot e
shimmies. O samba e os maxixes explodiam também
durante estes "anos loucos", rapidamente seguidos por
numerosas outras formações modeladas pela onda
dominante das jazz-bands. Se conhecia pouco outras
músicas por causa da hegemonia midiática dos EUA, que
favoreceu sobretudo a música negra norte-americana.
Pensa-se, entre outros nomes, em João Pernambuco,
conhecido por alguns melômanos, e que é um virtuoso do
violão bem como um compositor cheio de inventividade.
Para Vasconselos, com Pixinguinha o choro chega a seu
apogeu. Em 1927, começa a época de ouro da MPB, na
época em que o choro se vê recusar sua difusão por
discos, não pode se exprimir em concertos, é
bloqueado. É relegado aos espaços das festas
populares, na periferia carioca. O longo período que
se estende de 1927 a 1946 é um de progressos e
invenções, entre outras a do toca-discos elétrico, o
eletrofone. Em 1927, nasce a primeira escola de samba
do Rio,a "Deixa Falar". É uma época cheia de canções,
mas em detrimento da música instrumental. vasconselos
escreve: "Dezenas e dezenas de composições, por
exemplo de Candinho Silva e Pixinguinha - serão
redescobertas 30 anos mais tarde. O choro, como toda a
música instrumental, viverá para um público restrito.
Para uma composição que emerge, quantas dezenas de
outras permanecem num eterno cone de sombra?" Artistas
como Carmen Miranda difundem a imagem do sucesso ainda
aumentada por estes meios, em contraste com o obscuro
e por vezes humilhante anonimato ao qual outros
artistas de grande talento era relegados.Em 1926, o
violonista Armandinho Neves e Larosa Sobrinho haviam
fundado o "Primeiro Conjunto Regional de São Paulo".
Em 1930, a orquestra Colbaz tornou-se uma referência.
Em São Paulo, a colônia mais importante do mundo é
italiana. Encontra-se muitos nomes italianos entre os
chorões paulistas. Eles têm uma influência sobre o
mundo musical brasileiro. Radamés Gnattali, que se
estabelece no Rio em 1933, é um importante compositor
de choros. Recria "Alma Brasileira", uma valsa da
orquestra Colbaz. Funda o "Trio Carioca", com Luis
Americano (clarinete) e Luciano Perrone (bateria).
Gustão Bueno Lobo introduz a guitarra havaiana e a
transmite a Garoto, que será chamado "o homem dos
dedos de ouro". Em 1945, a orquestra "Tabajara" de
Severino Araújo é uma das raras a serem conhecidas
fora do Brasil. É um bom exemplo de choro para big
band notadamente influenciado pelo jazz. Para
Vasconselos, deve-se da mesma forma esperar este ano,
1945, para que o choro saia de sua apatia; os sucessos
de Garoto, os da pianista Carolina Cardoso de Menezes,
ajudam-no a levantar-se de sua hibernação mais ou
menos forçada. A trilha sonora do filme de Walt Disney
"Você já foi à Bahia?" é um exemplo. Pixinguinha,
depois Abel Ferreira, e enfim Jacob do Bandolim gravam
excelentes choros, samba-chambas choros e outros
arrangos que Vasconselos qualifica de maravilhosos. Em
1959, o violonista Francisco Soraes de Araú chega ao
Rio. Os mestres o recebem com um "sarau" (jam session
de choro); havia Jacò do Bandolim, Pixinguinha, o
violonista Dilermando Reis, a cantora Tia Amelia, o
jovem Paulinho da Viola e o compositor Radames
Gnattali, que foram todos reveladores para uma nva
geração de músicos cuja lista de nomes é muito longa
para ser inserida aqui. Entre os personagens de valor,
encontramos Avena de Castro, que produzirá o álbum
"Tributo a Jacob do Bandolim".
Vasconselos escreve que a quinta geração do choro que
vai dos anos 50 até 1975 foi um período de "vacas
magras". É porém nestes anos que foram gravados os
discos que se tornaram clássicos do choro, os
"históricos". Os anos sessenta vêem desaparecerem
alguns mestres do choro. Em 1973, Paulinho da Viola
surpreend todo o mundo relançando o "Época de Ouro" e
suscita entusiasmo com seu espetáculo no teatro da
Lagoa, no Rio. Na mesma época, a casa Marcus Pereira
edita numerosos discos que aumentam enfim o
conhecimento do choro em outros lugares além das casas
dos melômanos deste gênero musical. Deve-se agradecer
a J.C. Botezeli por ter produzido esta música. O
escritor carioca Herminio Bello de Carvalho, em sua
obra "O Conto do Pajé" aparenta a música de
Villa-Lobos à MPB. Desde logo, em todo o Brasil, a
juventude se encanta com o choro e forma "conjuntos".
Em 1975, o musicólogo José Mozart Araùjo funda o
"Clube do choro", que segue com interesse a flautista
Bete Ernest Dias que, além de seu talento, tem uma
presença de espírito que se encontra raramente na
Europa. Em 1976, o "Projeto Concerto do Choro"
organiza o "Primeiro Concurso de Conjuntos de Choro".
Paolo Magalhaes Alves, Celso Alves da Cruz, Rafael
Batista Rabello, Mauricio Lana Castilho, Celso José da
Silva, Mario Florencio Nunes, e Luciana Maria Batista
Rabello são alguns nomes destes anos do
"choro-revival". Os disco, os concertos, os festivais
e os concursos se seguem até 1980, ano do
desaparecimento de Abel Ferreira e de Valdir Azevedo.
Depois, a onda do sucesso vai começar a crescer.
Vasconselos credita isto às casas de edições que, por
razões parecidas, se interessam pouco, se tanto, aos
artistas de talento. Dito isto, em São Paulo, em 1983,
é inaugurada a Rua do Choro, que é o reconhecimento da
sociedade brasileira a esta música, prêsa da
consciência que ela contribui para criar a imagem
fascinante de seu país. Em 1983-84, Vasconselos faz
muito pelo choro. Dirigiu as "Atividades Culturais da
Associação Brasileira de Imprensa". São os anos em que
se escreve livros sobre este gênero musical. Citamos
"Garoto, Os Sinais dos Tempos", de Irati Antonio e
Regina Pereira. Vasconselos continuou seu imenso
trabalho. Terminons com os nomes de Antonio Carlos
Jobim e de Baden Powell, bem como os menos conhecidos
de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. En puisant chez
ceux-ci et chez d'autres, os grandes do jazz americano
lhes fizeram a mais elegante das homenagens.
"Pagode" e seguintes.
Não se pode negligenciar o fenômeno pagode. Seria uma
transformação do antigo samba de roda, nomeado também
samba baiano, e depois samba duro. Este estilo se
formalizou nos carnavais e festas. É uma dança
sincopada, com textos de duplo sentido. Há uma ligação
entre esta criação e o velho forró (do inglês for
all). Grandes artistas tornam este estilo conhecido
além de suas fronteiras de origem. Citemos apenas
Legião do Samba, Só Onda, et A Companhia do Pagode,
bem como Gera Samba que é mais conhecido sob o nome de
É-o-tchán. "A dança do striptease" faz entrever as
possibilidades e ambientes múltiplos aos quais este
gênero usufrui com prazer. Terminamos este rápido tour
do horizonte sonoro evocando a "Jamaica brasileira"
sem dúvida sugerida pela continuidade geográfica e
cultural com as Caraíbas.
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