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Se o caso é chorar (Tom Zé conta como foi)

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Sergio de Oliveira (sergio_at_signuseditora.com.br)
Date: qua 14 nov 2001 - 11:02:28 EDT

Show do Tom Zé e Gereba, gravado em fita cassete, em São Paulo, no Teatro
Caetano de Campos, para o projeto Adoniran Barbosa, em junho de 1990. À
época, foi lançado em LP. Em algumas galerias do centro de Sampa é possível
encontrar o genérico, já em CD.
Abaixo, a faixa onde o Tom Zé explica como nasceu "Se o Caso É Chorar".
Hilário, educativo e esclarecedor (as partes entre colchetes são minhas).

-- Aliás, essa música é toda plágio. É até bom aproveitar a oportunidade
para contar pra vocês o lado avesso da história. Essa música fez sucesso,
foi primeiro lugar na parada de sucesso no Brasil durante meia dúzia de
semanas, durante um ano quase inteiro, em 1973, e essa música é toda plágio.
A idéia de fazer uma canção toda plágio nasceu por causa de uma canção
anterior, de que as pessoas de minha idade também se lembram, que é aquela
valsinha que dizia assim:

(cantando)
Passo a passo, braço a braço
Um sorriso, um silêncio
Sete horas, oito dias
Dezenove, vim te ver

-- Essa música ganhou num festival da Hebe Camargo [?] o primeiro lugar. E
aí saiu no Estadinho [Jornal da Tarde, irmão mais novo do Estadão] na seção
"O Leitor Escreve", tava escrito lá: "A música de Tom Zé ´Silêncio de Nós
Dois´ é plágio do Garcia Lorca na página tal qual...". Eu disse, vala-me
Nossa Sinhora, corremo lá pra casa, pegamo o Garcia Lorca, fomos lá na
página e hum... tinha lá também a palavra moita. Então tudo bem. Mas eu
falei assim, puxa!, é uma ótima idéia fazer uma canção que seja toda plágio.
Comecei a pensar no assunto e me lembrei dessa harmonia [toca uma seqüência
harmônica ao violão], que é do Estudo número 2, do Chopin. Vocês já conhecem
ela em outra música brasileira, a mesma coisa também, só a batida é
diferente [toca a mesma seqüência, só que com uma levada de bossa nova, e
começa a cantar ´Insensatez´, do Tom Jobim. Gargalhadas no auditório ao
notar as semelhanças, até então despercebidas]. A harmonia é a mesma. Então,
peguei essa harmonia e botei... A forma, eu me lembrei que Antonio Carlos e
Jocafi, naquele tempo davam as regras do mercado nacional com aquele tipo de
coisa: a primeira parte menor [harmonicamente falando], com a sintaxe da
língua portuguesa mais ou menos estranha, prá ficar parecendo uma coisa tipo
luz de boate, assim simbolicamente, metaforicamente, num precisava dizer
nada, bastava ter uma dorzinha e tal, e amor por aqui, amor por acolá, então
eu comecei a construir essa estrutura, que não quer dizer absolutamente
nada, prestem atenção:

(cantando)
Se o caso é chorar, te faço chorar
Se o caso é sofrer, eu posso morrer de amor
Vestir toda minha dor, no seu traje mais azul
Restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar

-- No fim, eu tinha chegado a botar assim: "...Deixando meus olhos vazados
de tanto chorar". A minha mulher disse: "Assim, também não, assim é
esculhambação, ninguém vai te levar a sério. Olhos vazados de tanto chorar?
Que diabo, você é louco? Tenha paciência..."[gargalhadas]. Aí mudei a letra
e Perna, meu parceiro [Antonio Perna Fróes, pianista baiano que chegou a
acompanhar a constelação baiana inteira na época], tava aqui em São Paulo e
me deu a idéia da segunda parte; Ele disse: "Tem uma música dos Beatles -
dos Beatles, não, dos Rolling Stones, uma imitação dos Beatles daquele
tempo - que fala um negócio mais ou menos assim, deixa sangrar meu peito, um
negócio assim, aí ele deu a idéia:

(cantando)
Amor, deixei sangrar meu peito
Prá tanta dor, ninguém dá jeito
Amor, deixei sangrar meu jeito
Prá tanta dor, ninguém tem peito
Se o caso é chorar...

-- Agora, a segunda parte é uma colagem, não tem nenhuma palavra minha. Tudo
música dos outros, vejam se vocês descobrem, eu juntei músicas de sucessos
dos outros [gargalhadas]:

(cantando)
Hoje quem paga sou eu, o remorso talvez
As estrelas do céu também refletem na cama
De noite na lama, no fundo do copo
Rever os amigos, me acompanha o meu violão
Amor deixei (vamos lá, agora?) sangrar meu peito...

[E o auditório em peso acompanha o mago da criação, que faz todo mundo se
divertir como criança, rindo do nosso próprio ridículo e da nossa capacidade
de se entregar aos chavões, ao pré-pronto]
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