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Re:A diferença entre o Big Mac e o "Capeletti a la Totô" era Pra que serve...Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: Carlos Mauro (cmtiosamba_at_hotmail.com)
Date: sex 26 out 2001 - 10:14:21 EDT
VV disse:
>(...)não tem diferença nenhuma entre uma coisa e outra, rigorosamente tudo
>o que CM citou como tentação sexual vendável na festa do Axé rola
>rigorosamente em igual medida no Carnaval carioca, aliás, com uma diferença
>sim, a festa do Axé não é transmitida pela Globo.
Concordo com você, VV, hoje há um grande esforço para que todo o trabalho
das Escolas de Samba, principalmente o desfile, consista num produto da
indústria cultural da mesma forma que a festa do Axé. E qual é a
característica principal que os "vendedores" dessa indústria querem a todo
custo incutir no seus "produtos"? O consumo sem reflexão, compulsivo, e
principalmente, "teleguiado", um consumo de um objeto que necessariamente
tem que ser comprado e não construído. Vou até repetir para enfatizar:
comprado e não construído. Isto é tudo aquilo que as ações de uma verdadeira
Escola de Samba jamais poderiam ser, pois o objetivo original de uma Escola
de Samba é o de aglutinar pessoas na comemoração alegre do samba e dos
valores culturais a ele tradicionalmente ligados. Veja bem, VV, com isso eu
não estou querendo dizer que "o samba é a mesma coisa que estes valores",
apenas afirmei que o samba é um instrumento, um veículo - na minha opinião,
muito poderoso - para a comemoração, expressão e afirmação destes valores. E
alegria e comemoração são duas coisas que não se compram, não se consomem;
ao invés, são construídas e compartilhadas entre seus participantes.
>O que é essa tal 'identidade' Sônia, a tal que diferencia o Axé baiano do
>Carnaval carioca? Povo nem liga para essa tal de 'parcela' que voce cita,
>povo quer corpo.
Sei que a pergunta foi feita para a Sônia e tenho também a curiosidade de
saber o que ela pensa sobre isso. No último Carnaval dei uma entrevista à
Rádio Carioca, quando reclamei de duas coisas. A primeira reclamação disse
respeito ao Carnaval em Niterói, que foi completamente aniquilado, sendo que
as verbas tradicionalmente destinadas à organização do carnaval de rua aqui
na cidade foram redirecionadas para apoio à Escola de Samba Unidos do
Viradouro, "a maior expressão de Niterói na maior festa do Planeta", nos
dizeres das nossas equivocadas autoridades municipais (tá vendo, VV, o samba
é, além de cultura, também política :-)).
A segunda reclamação foi sobre a "trioeletrização" do carnaval carioca.
Elemento fundamental e característico do carnaval baiano, o trio elétrico
funciona como um verdadeiro "comandante" dos foliões, e são tantos os trios
elétricos por lá que "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu".
Pois bem, o carnaval carioca está seriamente perigando passar a correr atrás
do trio elétrico também, numa descaracterização tremenda das coisas que são
fundamentais no carnaval do Rio. Porque, com o trio elétrico, quem comanda a
festa é o dono do trio, quem patrocinou o trio, a massa só corre atrás, não
participa do processo de organização, de seleção das músicas, enfim, não
constrói a festa, apenas a "consome" de forma "teleguiada". Na minha
opinião, esta é a grande diferença entre a Festa do Axé e o Carnaval
Carioca, a primeira é um Big Mac que a gente come no balcão sozinho, serve
para tapear a nossa fome e fica pronto rapidinho, a segunda é um "Capeletti
a la Totô" que só pode ser saboreado após uma espera ansiosa pela chegada de
todos os ilustres comensais, pois a participação de todos à mesa é, na
verdade, o prato principal.
Mas acho que você tem toda razão, VV, hoje em dia, grande parte do povo,
talvez a maioria como você diz, não dá a mínima para a "parcela" citada pela
Sônia, prefere comer logo um Big Mac na esquina do que ir até à casa do
Fernando Toledo comer um capeletti após esperar ansiosamente pela chegada da
Ione e da Roberta Valente. Estamos na era do "fast-food", na época de
atendermos rapidamente a fome incessante do nosso corpo. Estamos nos
tornando uma cambada de esfomeados, e pior, o caminho do Mc Donald's está se
revelando incapaz de saciar a nossa fome.
>No meu ponto de vista o Axé baiano serviu para retirar parte dos clientes
>do Carnaval carioca, só isso, vai ver que dai vem a cabreiragem, só pode
>ser isso.Ia me esquecendo, nunca vi mulher exibindo teta e piriquita
>purpurinada no Axé baiano, enquanto que no Carnaval carioca rola de
>montanha.
Mais uma vez você tem razão, VV, mas se reparar bem, verá que as escolas de
samba mais tradicionais e mais comprometidas em preservar seus objetivos e
aspirações iniciais, como por exemplo, a Portela da nossa querida Carmen, e
a Império Serrano do meu coração não se valem tanto desses artifícios que
você citou, tão apropriados para dar continuidade a programação "com os
olhos no Ibope" de nossas emissoras de TV.
Um grande abraço,
Carlos Mauro.
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