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CD Café Brasil

Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros.
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From: Alexandre Dias (afsdias_at_terra.com.br)
Date: seg 22 out 2001 - 22:22:53 EDT

Pessoal, há uns três meses foi lançado o CD Café Brasil. Na falta de
maiores comentários sobre ele, fiz os meus próprios.

Abraços,
Alexandre Dias- Brasilia

Café Brasil- Resenha

Parte Instrumental

Por que o mesmo repertório de clássicos? Porque esse CD foi produzido
inicialmente para o público estrangeiro pela Teldec, e nada melhor do que
mostrar algumas das músicas que fizeram mais sucesso no gênero. Um crítico
escreveu um tempo atrás reclamando que no CD falta originalidade de
repertório porque sempre os mesmos choros são gravados. Não concordo com
ele. Acho que os choros clássicos tem que ser gravados tantas vezes quanto
se achar necessário. Além disso, não são excludentes: pode-se ouvir choros
velhos e novos/inéditos, como vemos na Acari. Pelo menos não tiveram a
maldade de falar "café requentado Brasil"!

1.Jacob do Bandolim- Noites Cariocas

Neste clássico dos clássicos do criador do Época de Ouro, temos um solo
bastante refinado do Sivuca, que nessa gravação não usa os botões pretos
do acordeon, alternando com o bandolim do Ronaldo, tocando de maneira que
deixaria o Jacob orgulhoso. Destaque para o timbre escovado do Dino 7
cordas que se faz presente. Para faixa de abertura, o CD promete...

3.Ernesto Nazareth- Brejeiro

Com 108 anos de existência, o Brejeiro brejeiro do Nazareth já passou
pelos mais diferentes arranjos e é exatamente o que acontece nesta
gravação. A música ganhou novo aroma (como que se mudasse de café para
alecrim), nessa interpretação do seu Paulo Sérgio da Clarineta, e o Dr.
Pedro Amorim do Bandolim. Fugindo do habitual (e primordial) "mi, lá, mi,
lá", o arranjo sai voando por novas modulações, fraseados inusitados, e
brincadeiras entre o sopro e as cordas. Para um mais conservador, pode
haver algo que o incomode: os improvisos fugidios. Não são contrapontos
consistentes, mas sim "efêmeros" que escapam aos dedos, como acontece no
Jazz. Na mesmo linha, o baixo elétrico do Bororó é espaço que poderia ser
aproveitado pelo 7 cordas.

5.Pixinguinha- 1 x 0

Altamiro e Carlos Malta.... Fico imaginando as incontáveis vezes que o
Altamiro já tocou essa música em sua vasta carreira, e as incontáveis
horas que o Carlos passou ouvindo a gravação de 1946 que o Pixinga e o
Benedito fizeram, para reproduzir com perfeição os contrapontos do
saxofone tenor. A interpretação é inovadora. Não porque ela foge ao
habitual, mas sim porque volta ao original. Depois que Radamés Gnattali
deu o passo inicial inventando aquele arranjo batuta pro 1 x 0, o que não
faltou foi inovação nesta música de lá para cá, vide gravações do Henrique
Cazes. A interpretação aqui não está muito rápida, a flauta está cheia de
"bossa" (diferente do que o Altamiro faz quando quer demonstrar
virtuosismo e não musicalidade), e o Carlos Malta incorpora o Bexiguinha
de uma maneira que chega a ser saudosa. Não há competição, mas um perfeito
diálogo entre os dois, como naquela gravação da distante década de 40. O
acompanhamento é quase orquestral: Ronaldo do Bandolim faz suas pinceladas
com o que parece fragmentos da música "Biruta" do Jacob, Dino nas suas
baixarias ao longe, Toni e César Faria estão lá em algum lugar, Luciana no
cavaquinho faz um acompanhamento respeitável sem querer se sobressair,
Jorge filho faz a batida base no pandeiro, e o Jorginho se alterna entre
outro pandeiro, prato, faca e caixeta!

7.Waldyr Azevedo- Brasileirinho

Como solistas constam Henrique Cazes e Joel Nascimento, mas na verdade, o
Joel só tem uma pequena participação na última repetição, fazendo o tema
em terças, e no meio da música faz umas notas pingadas. Lamentável
desperdício de Joel. Abrindo com um solo de percussão empolgado do irmão
do Henrique, o Beto Cazes, começa uma interpretação, como a anterior, mais
para o convencional. Henrique, que já gravou um CD dedicado ao Waldyr,
conseguiu em seu cavaquinho algo raríssimo: criar um timbre exclusivamente
seu. Para quem não atentou a isso ainda, é interessante notar. O timbre do
Cazes é quase "crocante". João Lyra acompanha muito bem a dupla. Obs. Onde
é que está o piano do Cristóvão Bastos que está escrito na ficha? Acho que
foi erro de digitação...

9.André Correia- André de Sapato Novo

Paulo Sérgio Santos e Pedro Amorim. Péssimas escolhas para os "breques"
neste arranjo do Maurício Carrilho. Me decepcionou profundamente. O pior é
a falta de preocupação com a forma. Musicalidade de ambos sub-utilizada.
Improvisos aleatórios que poderiam ter rumado para outro caminho. Quanto à
segunda e terceira partes, tudo corre bem: choro de verdade. Destaque para
a animação de todos na terceira parte.

Jacob do Bandolim- Treme- Treme

Interpretado exclusivamente pelo Época de Ouro, que estão mantendo bem a
responsabilidade que este título lhes confere! A começar por mestre
Jorginho do Pandeiro que não deixa a bola cair em nenhum momento, e faz
improvisos originais em espaços qu7e ele observa na música. Gravação
parecida com a original, que Jacob fez em seus primeiríssimos 78-rpms, só
que desta vez somos contemplados com os magníficos agudos do Hi-Fi :D

Patápio Silva- Meu Primeiro Amor

Quando se fala em Patápio Silva imediatamente se pensa em flauta, e depois
na música "Primeiro Amor". Talvez sua música de maior sucesso, ela tem sido
regravada por vários instrumentistas como:

Patápio Silva (1906) flauta e piano
Toninho Carrasqueira- flauta e piano
Altamiro Carrilho (mais de uma gravação)- flauta e piano
Baden Powell- violão solo

Edu da Gaita
Altamiro Carrilho e Maria Teresa Madeira- flauta e piano (Café Brasil)
Está última é, a meu ver, a melhor gravação já feita até hoje, pra não
dizer definitiva. Com essa valsa extremamente simples, M.T. Madeira e A.
Carrilho (que poderiam ser Chiquinha Gonzaga e Pedro de Alcântara :)
conseguiram criar um leque de humores realmente agradável. O CD café Brasil
custava o absurdo de 30 reais (até bem pouco tempo atrás), mas vale a pena
comprar, por vários motivos, e esta gravação é um deles. O Altamiro já
toca essa música há mais de 50 anos, e tem perfeito domínio sobre ela. A
Maria Teresa é das últimas pianeiras.
Digo isso porque com sua técnica, mantém uma musicalidade, um acabamento
em tudo que toca, com um espírito digno dos pianeiros dos cafés antigos.
Na interpretação, o duo cria uma espécie de introdução (que não existe no
original), modificando o tema, e depois partem para a valsa rápida. Entre
improvisos e alternâncias de solo, a música passa desde um andamento bem
devagar, tocado em quiálteras (tempo desencontrado) até um prestíssimo, no
final, como o Altamiro costumava tocar na sua juventude.

Paulinho da Viola- Sarau para Radamés

Aqui finalmente podemos ouvir o organizador do CD, o tocador de ReAlEjO
Rildo Hora.

Choro moderno, cujo arranjo do Cristóvão Bastos ficou muito bom.
Transcrevo aqui o que o Rildo comenta no encarte sobre esta música:

Com esta magnífica composição, Paulinho da Viola reverenciou o precioso
legado que herdamos do maestro-pianista Radamés Gnattali.(...) O Sarau
para Radamés tem sido peça obrigatória nos recitais de diversos solistas,
principalmente dos grupos jovens, que encontram na composição prazer de
tocar um choro de forma A, B, C e coda mais elaborado. (...) O maestro
Cristóvão Bastos escreveu o magnífico arranjo e tocou piano. Na letra C
assumiu o comando e fez relembrar Radamés. Depois, criou um contraponto
interessante para a letra A final. João Lyra (violão), Luciana Rabello
(cavaquinho), Bororó (contrabaixo) e Beto Cazes (percussão) organizaram a
cozinha esplendidamente. Obrigado Paulinho da Viola..."

Chiquinha Gonzaga- Bionne

Eu tive a felicidade de ouvir essa pianista tocar Bionne ao vivo aqui no
Clube do Choro no início do ano. Maria Teresa Madeira é das melhores
intérpretes hoje de choro no piano, e a melhor de Ernesto Nazareth. Sua
formação acadêmica, amor pela música antiga, e ótimo bom gosto formam uma
mistura rara, que pode ser ouvida nesta gravação, e nos seus CDs recentes
com obras da Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth. Bionne quer dizer
adeus, mas que adeus dançante! Acho que com uma despedida dessas qualquer
saudade fica amena. Como penúltima faixa, nos dá um sentimento de
satisfação. Repetindo o que falei sobre o Henrique Cazes, a MTM tem um
timbre único, e ela mesma me disse que realmente é muito cuidadosa com
esse aspecto do piano, procurando dar um acabamento superior a tudo que
toca.

Irineu de Almeida- Mariana

Interpretada pelo Época de Ouro, esta polca pouco conhecida daquele que
foi professor do Pixinguinha, recebe uma interpretação alla antiga, quase
que seresteira, não fosse o andamento mais vivo. O estilo de composição é
uma mistura entre os de Callado e Pixinguinha.

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