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Re: Re: Bronca na ProduçãoEsta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: nilbeleléu . (barraco2001_at_hotmail.com)
Date: qui 18 out 2001 - 22:53:35 EDT
Carlos Mauro: CM
CM: Na década de 80, tive a oportunidade de trabalhar como redator e
produtor nas Rádios Fluminense FM e AM, a primeira, uma rádio de
rock, "alternativa", responsável pelo lançamento, através de
"demo-tapes" de grupos como Paralamas do Sucesso e Kid Abelha;
- Alguns álbuns do Dire Straits que comprei na época vinham com o selo
vermelho como chancelado pela Fluminense, década de 80 foi o apíce da
emissora, nunca ouvi mas sabia de algumas informações da qualidade da
seleção vocacionada ao Rock.
CM: Essa turma que decide o que vai tocar nas rádios tem alguns "dogmas
indiscutíveis". Esses caras são muito conservadores em relação a
isso. Os principais dogmas do rádio são: 1)"não pode ter buraco no
ar"; 2)"o som tem que ser poderoso"; 3)"a música tem que tem um
pique só, do princípio ao fim; 4)"a música tem dez segundos para te
conquistar".
- Pensando bem são justamente estes dogmas que me afastam do dial, sou um
péssimo ouvinte, só ouço emissora de rádio no carro e só Canal Brasileiro de
Noticias, CBN, quando era estudante em Campinas ouvia a Radio Eldorado FM-SP
,que até hoje é única emissora que encaro, lá não tem muito destes dogmas
não, toca de tudo um pouco, voce está ouvindo um Samba e na sequência eles
disparam um Jazz.
CM: Ora, com a progressiva ascensão de tais dogmas ao patamar de
verdades referenciais para as regras do mercado musical cujos
produtos são preparados para serem vendidos através do rádio,
colocam-se cada vez mais em processo de extinção alguns dos
fundamentos básicos da linguagem musical, para desespero total de
nossos carentes ouvidos.
-Voce tem absoluta razão, produto direcionado para rádio. E rádio vende bem
Samba? Quero dizer, se toca no rádio vende na loja? o público do rádio vai
lá e compra? Sempre pensei o contrário, vejo muita moçadinha que ouve rádio
por que não tem ainda poder aquisitivo para comprar tudo o que gostariam de
ouvir. As pessoas que conheço não ouvem rádio, se entram no carro já ligam
logo uma fita ou um cd, se estão trabalhando durante o dia não ouvem nada, e
de noite optam por ouvir cd's, ler ou assistir tv.
CM: Se "não pode ter buraco no ar", a música deixa de ser a linguagem do som
e do silêncio para ser apenas a linguagem do som. A gravação
cujo "som tem que ser poderoso" e "a música tem que ter um pique só,
do começo ao fim" terá necessariamente que abdicar da "dinâmica do
arranjo" (que expressão fora de moda), recebendo em sua produção uma
compressão para que o nível da pressão sonora se mantenha o mesmo
durante toda a música, sem altos e baixos no volume, tudo "nos
úrtimu" como diria o VV; o arranjo tem que ser entupido de
barulhinhos, tecladinhos e percussões várias, para o som ficar bem
cheio, "poderoso".
-Pára, pára, não conta mais, revortei geral, rádia nunca mais. Para piorar a
'coisa' ainda o locutor também fica falando sem parar, não faz silêncio, e
fala por consequência um monte de abobrinha, geralmente secundado por música
para dar poder também ao som da palavra, os caras condicionam o ouvinte a
viver frenéticamente e o sujeito nem se toca por que fica ansioso nu urtimu,
bate nos meninos, chuta o cachorro, dá esporro no papagaio....
CM: Finalmente, se "a música tem que nos conquistar em dez segundos", os
produtores tem que exterminar sem dó nem piedade com uma das
principais características da mensagem musical que é a produção de
encantamento do expectador aos poucos, conforme o decurso do tempo,
cativando-o e envolvendo-o cada vez mais. Afinal de contas, música
popular não é jingle.
-Por que conquistar em 10 segundos? Por que o ouvinte destas emissoras são
infidélissimos, se em 10 segundos ele julga a qualidade de uma música é por
que é estressado nu urtimu. E são estressados por conta do formato
compulsivo da programação, os rádios não tem controle remoto mas tem
programação de emissora, neguinho não gostou da música em um simples toque
ele já está em outra, bau bau, viciados em ouvir sempre as mesmas músicas de
arranjos 'cheios', uma lástima
CM: Rildo Hora é um nome de sucesso a zelar no universo da produção
musical brasileira. Para ele, é muito mais difícil arriscar (vejam
só o caso do World Trade Center, quanto maior o monumento, maior a
destruição no momento da queda). Devemos esperar isso das produções
independentes, pois seus autores têm a felicidade de não estarem
comprometidos com esse esquema destruidor dos fundamentos do arranjo
musical que são esses "dogmas do padrão radiofônico".
- Minha decepção é que até a produção independente já começa a se contaminar
com estas bobagens, absorvendo defeitos.
VV
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