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Re: A Cor do Samba É...[era: Sem Batucada]Esta lista de discussão é apenas sobre samba e choro, estilos musicais brasileiros. |
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From: Carlos Mauro (cmtiosamba_at_hotmail.com)
Date: qua 17 out 2001 - 01:12:49 EDT
Alex, após estreiar por aqui questionando a respeito da grana que cada um de
nós artistas recebemos prá dar nosso recado na Grande Festa (ô Alex, por
acaso você é Auditor Fiscal da Receita Federal?:-),pôs-se a duvidar da
"consistência sambística" dos pronunciamentos do nosso "Mestre-da-Teia";
depois do sacode que levou do Paulo, o novato tenta se explicar:
>Calma Paulo, calma.
> Acho que voce nao entendeu quando eu me referi aos elogios aos discos do
>Moacir e do Agriao, em relacao a batucada. Nao e um problema de gostar ou
>nao gostar de discos com ou sem batucada. Mas o que me refiro e a concepcao
>estetica. A concepcao branca europeia de beleza, refinamento e sofisticacao
>que traz o trabalho do Moacir Luz. Acho que esse tipo de concepcao batuque
>na cozinha sinha nao quer, na verdade e um embranquecimento do samba, como
>aconteceu com o chorinho. Como aprendo com voce. E o preto ou o branco.
Como assim, Alex, "é o preto ou o branco"? O samba não tem raça, não tem
cor. Fisicamente o samba é música, é som, é vibração do ar. Extrafisicamente
é ritmo, é amor, é encantamento. É a alma do brasileiro. E alma não tem cor,
nem raça, nem sexo. Tampouco o brasileiro, ou a estética brasileira, ou a
cultura brasileira é negra ou branca, européia ou africana. O brasileiro é
mestiço, mulato, filho de mucama com feitor; por isso, o samba tem o lamento
do oprimido colorido com as tintas da sem-vergonhice do opressor, são as
escalas diatônicas segundo o evangelho de Johann Sebastian Bach pervertidas
nas síncopes mais incríveis que os terreiros das "tias" puderam produzir.
Alex, o samba é malandro demais para ser branco ou preto, prá brancos ou prá
pretos. O samba é de todos para todos.
>Voce ja deve ter percebido que a maioria dos eventos de samba divulgados
>aqui o publico e em sua grande maioria formado por brancos de classe media.
>E ainda querem tirar a batucada. Foi so isso. Calma Paulo, calma.
Talvez você esteja querendo dizer que a maioria do público que tem acesso
aos meios de comunicação ou à internet aqui no Brasil é formado brancos de
classe média, independentemente de serem público de samba ou qualquer tipo
de música. Que pena que seja assim, mas pelo menos, através deste espaço,
este público fica sabendo de muito mais coisa a respeito de samba do que por
intermédio de qualquer outro meio de comunicação de massa.
Quanto ao pessoal daqui querer tirar a batucada do samba, meu caro, é com
pesar que lhe digo que essa afirmação é a coisa mais disparatada que eu já
li nesta Tribuna. Acho até que alguns tribuneiros são bastante radicais a
esse respeito.
>Sem querer ensinar, mas pra seu governo e para os que tem tempo de ficar
>cavando nos sebos, tanto Cartola como o Nelson tem em sua obra partido
>alto. Mas nao se irrite, nao e na verdade o que predomina na obra destes
>dois genios. Mas tambem, nao e ver!
>dade que eles sao mais valorizados do que os compositores que em sua obra
>predomina o partido alto? Por que sera, mestre? Por que Aniceto, Campolino,
>Xango, Baiano, Neoci, Geraldo Babao, nao sao colocados no mesmo pedestal
>que Cartola, Nelson e Noel?
Costumo dizer que artista não se coloca em pedestal, pedestal é lugar de
estátua; a estátua é estática e o artista é dinâmico(mesmo depois de sua
morte, através de sua obra). Não conheço Baiano, Neoci, Geraldo Babão.
Quanto ao restante de compositores que você citou, separo-os aqui e agora em
dois grupos: os improvisadores (Aniceto, Campolino, Xangô) e os
estilizadores(Cartola, Nelson, Noel). Representam duas faces da mesma moeda,
a cara e a coroa do samba. Os primeiros continuaram e continuam uma tradição
lá dos terreiros das "tias", são nossos "oráculos" , reveladores das "musas"
do samba, fontes inesgotáveis do inconsciente coletivo de nosso povo. Os
segundos deram prosseguimento ao processo iniciado por Sinhô de estilização
do samba; eis que aquelas frases improvisadas ao som dos batuques
cristalizaram-se em um gênero característico de canção brasileira, com
começo, meio e fim.
Com o advento da gravação fonográfica e do rádio, o público de samba deixou
de ser apenas aquele que presencia o samba ao vivo e passou a ser em sua
maioria quem ouve rádio e compra disco. A medida em que o tempo passou, a
programação das rádios se tornou cada vez mais fundamentada na música dos
discos e consequentemente o samba "estilizado" em canção tornou-se muito
mais popular e valorizado do que o samba "improvisado" no terreiro. Daí os
compositores do segundo grupo serem mais reconhecidos.
Um abraço,
Carlos Mauro.
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