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O resgate do choro como cultura e "marca" Brasil

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From: Alan Romero (alanromero@mail.telepac.pt)
Date: Qui 11 Out 2001 - 04:03:04 GMT


Deu no Jornal Movimento:
http://www.jornalmovimento.com/

"O resgate do choro como cultura e "marca" Brasil"

Antônio Corrêa de Lacerda
09/10/01

Dois fatos recentes me fizeram refletir sobre a importância de um gênero
musical que quando em vez tem algum destaque nos meios de comunicação, mas
em geral fica restrito ao público mais especializado. Trata-se do Choro,
esse sofisticado e criativo gênero que destaca a versatilidade o músico
brasileiro, que, a exemplo da "Bossa Nova" no Brasil e do Jazz nos Estados
Unidos poderia ser melhor explorado como "marca" e produto nacional.

É lamentável que esse potencial seja tão pouco explorado em termos de
cultura popular e valorização do que é nosso, em detrimento de tão baixa
qualidade média da programação de emissoras de rádio e TV, salvo honrosas e,
cada vez mais raras, exceções.

Outra oportunidade desperdiçada é divulga-lo mais intensamente no exterior
como "produto" de exportação que poderia gerar muito emprego para músicos e
gerar divisas para o País. Nos lugares em que o choro penetrou por interesse
e iniciativa de fãs do gênero, como o Japão, por exemplo, o sucesso mostra
que isso é plenamente viável, desde que hajam ações no sentido de promover
maior visibilidade da música brasileira em mercados potenciais.

Li recentemente o excelente livro "Choro: do quintal ao municipal" do
cavaquinista e pesquisador musical Henrique Cazes que, em pouco mais de
duzentas páginas nos traz um panorama ilustrado e bem documentado do
surgimento e evolução do gênero no Brasil. Cazes ressalta que, a partir da
inspiração de músicos do século XIX em interpretar com criatividade gêneros
importados como a polca, a schottish, a valsa e o tango, entre outras,
criou-se o choro como modo brasileiro, preconizado por pioneiros como
Joaquim Callado, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga e os geniais
Ernesto Nazareth e Pixinguinha.

O que se observou ao longo do tempo foi uma seqüência de virtuoses do
gênero, com destaque para Jacob do Bandolin, Waldir Azevedo e Radamés
Gnatalli, para destacar alguns, mas que felizmente não parou por aí. A cada
ano surgiram grandes músicos e hoje espalhados pelos poucos espaços de
execução e apresentação pelo país afora observa-se com relativa constância o
surgimento de novos talentos.

Nesse sentido é o resgate do (novo) Clube do Choro reinaugurado recentemente
em São Paulo é, sem dúvida uma notícia alvissareira. O espaço pode
representar a oportunidade de articulação e intercâmbio entre os músicos e
aficionados do gênero.

A idéia original do clubo é de 1977 quando alguns músicos se reuniram e
deram vida à iniciativa, posteriormente explorada comercialmente como bar
que funcionou nos anos oitenta na Rua João Moura, em Pinheiros, e conseguir
manter a tradição da boa música instrumental. Lá também funcionara a Rua do
Choro, iniciativa que organizava shows públicos aos domingos à tarde.

Me lembro de apresentações memoráveis de Paulinho da Viola, Conjunto Época
de Ouro, Nelson Cavaquinho e Roberto Silva, entre outros, além, é claro, de
músicos pouco conhecidos do grande público, mas nem porisso menos
talentosos, como Xixa (cavaquinho), Carioca (violão de sete cordas) e a
potente voz de Rubão, um cantor fantástico, todos eles infelizmente já
falecidos, e a revelação de jovens talentos como Miltinho Mori (bandolim),
em meio a tantos outros.

Era interessante observar a reação do público na rua, extasiado com as
apresentações. O que mostra que grande parte da pouca penetração do Choro
nas grandes massas certamente se deve muito mais ao desconhecimento do
gênero e seus artistas, do que uma questão de gosto.

Afinal será que só há mesmo espaço para o "funk" e o "axé" nos nossos meios
de comunicação de massa, em meio a tanto talento não aproveitado?
Infelizmente, os interesses imediatos das gravadoras e da mídia, assim como
a ausência de iniciativas de educação musical básica da população continuam
restringido a riqueza do choro a uma minoria privilegiada !

*Antônio Corrêa de Lacerda, economista, é professor da PUC-SP e autor de "O
Brasil na Contramão ?" (Editora Saraiva).
aclacerda@globo.com.br
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