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Re: Choro Novo

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From: Ruizinho Kleiner (ruizinho@terra.com.br)
Date: Qua 10 Out 2001 - 14:43:14 GMT


Queridos Daniel e outros tribunfuns:

Essa coisa de fazer soar a música de um jeito depende muito da formação do
intérprete/compositor/arranjador. Você citou o caso do Guinga... Bem, esse
aprendeu violão na rua, teve suas primeiras aulas de violão com 27 anos de
idade (na minha opinião, o prof. dele não teve nenhuma culpa de ele ser o
maior compositor brasileiro hoje em dia...), e em sua casa sempre houve
muita seresta, daí vem aquela influência dos "bons tempos" fazendo uma
mescla na sua música mais "torta"... Vejamos também o grande Hamilton de
Holanda.... Esse pode fazer soar o que ele bem entender, do antigo ao
moderníssimo, e fica absurdamente lindo. E tocar rápido não dá camisa prá
ninguém... Como se explica um rapaz chamado Jacob, que tocava um choro nem
tão cotado assim, chamado "Flamengo" com um som que aprendeu sozinho, surgir
no meio artístico que já tinha dois monstros como Luperce e Garoto?

O que estou querendo dizer é que nem sempre se pode querer ouvir choro de
uma maneira contemporânea, com arranjos mais elaborados, mas também não
podemos ficar presos à maneira antiga... E não existe o termo correto ou
incorreto para as maneiras de se tocar qualquer tipo de música... Eu digo
isso porque eu já vi artistas grandes dizerem que o violão de não sei quem
"soa errado, deveria ter uma harmonia mais arrojada...".

Ontem eu ouvi pela primeira vez o segundo disco da Cristina Buarque com o
Henrique Cazes tocando Noel... uma maravilha! Se repararem, o Henrique cria
um clima no violão que nos faz meio que viajar até a década de 30 para
curtir o Rio malandro, o Rio mais romântico de Noel... E eu vi gente dizer
que o violão do Henrique é simples demais para se tocar Noel hoje em dia...
é mole?

Daniel, você ainda citou os concertos de Mozart (ótima lembrança...).
Aproveitando que acabou de chegar uma mensagem do Fabio Padilha... Pô,
Fábio, não é assim também. Você citou as caracterizações das músicas. Essas
caracterizações têm uma proximidade muito maior do que você imagina. Fica
aquela coisa: erudita de um lado, popular de outro... não é assim. O próprio
Paulo Sérgio Santos, vez em quando eu o vejo tocar um Bach no meio de uma
quebradeira e combina muito bem (meus ouvidos agradecem...). Os bons chorões
"novos" procuram sempre combinar elementos de Beethoven, Pixinguinha,
Radamés, Brahms, Jacob, Luperce, Dvorak e cia ilimitada em suas versões ou
músicas... Agora, eu não estou dizendo que todos devem gostar de Beethoven.
Assim como ninguém precisa gostar de Schoenberg, Stockhausen, Debussy,
Satie, Mozart, Vivaldi, Jackson do Pandeiro, Taiguara, Chico Buarque,
Toquinho...

Fica tranquilo, que sempre haverá gente tocando o choro da maneira antiga,
assim como sempre vai ter o "balaio de gato" (concurso internacional de quem
toca mais notas por fração de segundo), e sempre vai ter um monte de gente
querendo deturpar o choro, ou seja, sempre vai ter de tudo. A música
transcende muitas vezes o que achamos que ela deve representar...

abraços

Ruizinho
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