Voltar para a página principal do site

Choro Novo

Nova Mensagem Responder Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

From: Daniel Brazil (dbrazil@ig.com.br)
Date: Qua 10 Out 2001 - 04:08:32 GMT


Bom esse papo sobre o choro, nessa tribuna onde o samba tem ampla maioria de
apreciadores (pelo menos os que escrevem regularmente).
Estou lendo as intervenções do VV, do Gangaz, da Sônia e do Carlos Mauro e
ouvindo, extasiado, o "Gargalhada", do Paulo Sérgio Santos. E o resultado é
muito maluco, pois concordo um pouquinho com cada um e também discordo um
pouquinho de cada um, à medida em que a clarineta endiabrada do PSS vai
derrubando todos os conceitos pré-conceituosos.
Pois não é que as músicas do Guinga soam como se fossem antigas e modernas,
ao mesmo tempo? E a própria Gargalhada, do Pixinguinha, com aquele arranjo
meio circense, soa estranhamente contemporânea, mas carrega também
semelhanças com as clarinetas de dixieland e, por que não, do Concerto de
Mozart?
O VV apostou suas fichas na modernidade (certo!), condenando o passado
(errado!). O Gangaz desconfia das invenções modernosas (certo e errado...
Cada caso deve ser analisado por suas qualidades intrínsecas,
e está citado no CD do Elton Medeiros: "A arte é a liberdade de perpetuar a
busca" (Stanilawsky).
Escreveu o Carlos Mauro:
"Ora, o que fazer quando a "mensagem" musical "falada" por determinado
gênero
não agrada aos ouvintes de uma determinada época? Pode-se seguir por dois
caminhos: 1)considerar o gênero como "datado" e abandoná-lo, apreciando-o de
vez em quando como uma peça de museu; 2)tentar fazer uma "atualização" do
gênero. É precisamente essa a discussão, música popular que se preza é
música viva, ouvida e vivida por um público vibrante, um gênero de música
popular jamais pode se contentar em ser somente artigo de museu."

Posta assim, a coisa fica meio maniqueista. Existem os cultivadores da
forma, e devem ser respeitados por isso. Vamos transpor para outro gênero:
Já pensou se a Clementina passasse a cantar bossa nova nos anos 60? Ou se
Monarco cantasse pagode nos anos 90? seria uma evolução?
Existem valores profundos, existenciais, na vida de quem exerce a arte
cotidianamente. Sentimos que ambos são mais íntegros por fazerem aquilo que
sabem, que conhecem e que amam, da mesma forma que o violonista,
bandolinista ou flautista que só toca "aqueles choros". O importante é fazer
bem e, se possível, melhor do que os que o antecederam. Este é outro
caminho.
Um outro tipo de artista é aquele que abre "novos caminhos", mas também "não
agrada aos ouvintes de uma determinada época". Este infeliz, geralmente
classificado como experimental, ou "de vanguarda", pode ser um gênio ou uma
besta, só o tempo determinará. Mas também estará trilhando um outro
percurso, à margem daquela bifurcação apontada pelo nosso amigo.
Enfim, creio que ocorre com o choro, como na maioria das formas
instrumentais da história da humanidade, uma apreciação extemporânea que
depende muito mais da habilidade do instrumentista (ou arranjador) do que da
data de sua criação. Só isso explica o sucesso permanente da música
medieval, renascentista, barroca, clássica, romântica, etc. Sempre haverá
novos públicos sequiosos (e velhos públicos viciados, naturalmente)
dispostos a aplaudir as mesmas velhas melodias.

Daniel Brazil
__________________________________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta


Nova Mensagem Responder Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2b29 : Qua 10 Out 2001 - 07:00:46 GMT