Voltar para a página principal do site

O riso triunfará sobre a escuridão

Nova Mensagem Responder Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

From: Helion Póvoa (hpovoa@uol.com.br)
Date: Seg 08 Out 2001 - 15:48:11 GMT


Esse é do site NON, português. O Agualusa é escritor angolano. Achei que
dava pra ser enquadrado como ontópiqui.

[]s,

Helion

O RISO TRIUNFARÁ SOBRE A ESCURIDÃO

[José Eduardo Agualusa]

Não há guerra que valha uma mulata a sambar. Nenhuma religião conforta a
alma tão completamente quanto uma simples manhã de sábado sob o sol de
Ipanema. Não conheço ideologia alguma com mais verdade e substância do que
as amêijoas à Bulhão Pato que a minha mãe cozinha. Osama Bin Laden, porém,
nunca deve ter visto uma mulata a sambar. George Bush certamente viu - mas
não compreendeu. Osama jamais esteve em Ipanema. George julga que Ipanema
fica no México e que o México é a capital da Patagónia. Nem Osama nem George
provaram as amêijoas à Bulhão Pato que a minha mãe cozinha- ah, a suave
fragrância dos coentros! - e agora parece-me pouco provável que ela os
convide para almoçar.

Em consequência, é a guerra!, essa forma superior de estupidez, através da
qual se procura ocultar um problema grande com outro muito maior. Dói-te a
cabeça? Corta um braço. Vais estar tão ocupado a cuidar da ferida que nunca
mais pensarás na dor de cabeça. A estupidez, infelizmente, pega-se. É mais
contagiosa do que a gripe. Parece-me pior, de certa maneira, do que a guerra
bacteriológica; ou talvez seja, pensando melhor, uma forma muito sofisticada
de guerra bacteriológica. 0 agressor contamina o agredido com a sua
estupidez. Agredido e agressor não se distinguem mais. Matam-se um ao outro.
Destroem tudo em redor. The end. Conheço bem o roteiro. Vi este filme muitas
vezes. Inclusive, no meu país.

Na verdade, se houvesse vida inteligente em Washington não teriam sido
enviados tropas, helicópteros, tanques, mísseis, navios de guerra, aviões,
porta-aviões, etc., para combater o terrorismo no Afeganistão. Os americanos
chegariam a um acordo com o Brasil e fariam desfilar a Portela pelas ruas
poeirentas de Cabul; a Beija Flor pelas ruínas de Kandahar, capital dos
Taliban; a Império Serrano pelas montanhas do Kyber Pass. Sim, eu sei que os
taliban não gostam de música. Também não gostam de mulheres. E não bebem
cerveja nem caipirinha. Mas quem resiste ao alegre grito ritmado de uma
cuíca? Quem, por muito soldado que seja, se atreveria a disparar contra uma
passista requebrando em pleno êxtase a anca generosa?

Não podendo enviar os taliban, todos os taliban, para Ipanema - lá, onde em
poucas horas qualquer pecador alcança a bem-aventurança e o mais feroz
fundamentalista esquece os fundamentos -, não sendo possível convencer a
minha mãe a cozinhar para tanta gente, e tão mal encarada, enviavam-se as
mulatas sambando para o Afeganistão.

O que pretendo dizer já o disseram antes de mim todos os grandes profetas,
embora recorrendo a mais graves parábolas (apenas porque nunca viram uma
mulata a sambar). O que quero relembrar é que o ódio só se vence com a
compaixão 'A ira não resiste à ironia. O riso, a inteligência, trïxnfa
sempre sobre a escuridão.

Há alguns anos atrás, numa outra guerra, viajei num avião pirata de Kinshasa
para o Andulo. Voávamos de noite, muito baixo, de forma a iludir os radares.
As luzes apagadas. Foi no início da estação das chuvas. A escuridão entrava
às golfadas pelas janelas - uma substância macia, profunda, misteriosa -, e
era como se viajássemos no dorso suave da própria noite. Já dormitava
quando, de súbito, um brutal clarão me bateu no rosto. Ouviu-se logo a
seguir um terrível estrondo e o aparelho saltou, empinou-se, torceu-se todo
num chiar de metais, ao mesmo tempo que as bagageiras se abriam e as malas
rolavam enfurecidas pelo corredor. Um novo clarão incendiou a cabina e pude
testemunhar o susto imóvel dos outros passageiros - a fotografia do horror.

"É isto o fim?"

A pergunta saltou-me dos lábios. Talvez nem fosse uma pergunta. Não pensei
que tivesse resposta. Ninguém gritou. Então um sujeito sentado à minha
esquerda segurou-me a mão com força. "Vamos, rir!", ordenou. "Uma boa
gargalhada é melhor que uma oração. Eu afasto as tempestades à gargalhada -
quer ver?" Riu alto e com gosto. O avião estremeceu, lançou-se para a frente
num ímpeto, venceu a tempestade e mergulhou de novo na paz. Não sei como
estará o mundo quando esta crónica for publicada. Na época perigosa em que
vivemos, onde nunca tantos estúpidos tiveram tanto poder, sete dias
parecem-me muito tempo. Mas lembro-me do sujeito que afastava as tempestades
à gargalhada e isso tranquiliza-me. Isso, o sol de Ipanema, uma mulata
sambando, as amêijoas à Bulhão Pato que a minha mãe cozinha. A muamba do meu
amigo Malé. Um verso de Sophia. Uma canção de Marisa Monte. Uma crónica de
Luís Fernando Veríssimo. As cores de Miró. As piscinas de David Hockney.
Tudo o que ri, o que ilumina, o que festeja a vida, serve para combater esta
guerra. Qualquer guerra. Até à vitória final.

Editado originalmente na Pública
__________________________________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta


Nova Mensagem Responder Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2b29 : Seg 08 Out 2001 - 16:01:28 GMT