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A Voz do Morro |
From: wpavan (wpavan@uol.com.br)
Date: Dom 07 Out 2001 - 00:25:58 GMT
A voz do morro é Zé Kéti, sim senhor
Compositor, que completaria amanhã (6) 80 anos, legou clássicos do samba,
mas não é unanimidade
Paulo Sales - Folha da Bahia - Blogspot
Autor de "A voz do morro", Zé Kéti foi um dos pioneiros no encontro entre o
samba tradicional e a bossa nova
É curioso como algumas canções alçam vôo sozinhas e se tornam mais famosas
que seus donos. Com Zé Kéti, sambista dos bons, figura carismática
genuinamente carioca, isso aconteceu em pelo menos duas ocasiões. A voz do
morro, seu maior clássico, pertence hoje ao imaginário popular, sendo
entoado por todo canto. Quem nunca ouviu os versos "eu sou o samba, a voz do
morro sou eu mesmo, sim senhor"?
Pois o criador deles completaria amanhã 80 anos, caso uma parada cardíaca
não o tivesse varrido deste mundo em 14 de novembro de 1999. Ficaram os
sambas e a lembrança de gente que conviveu com ele e assistiu a seus shows.
Embora sem a envergadura de Cartola ou Nelson Cavaquinho, Zé Kéti pode ser
enquadrado dentro da comissão de frente do gênero.
Personagem emblemática, por ter sido um dos pioneiros no encontro entre os
sambas de morro e a bossa nova, ele participou, na década de 60, das
apresentações do espetáculo Opinião - junto com a cantora Nara Leão e o
compositor João do Vale - de onde foram escoadas, para o resto do Brasil,
canções como Diz que fui por aí (parceria com Hortênsio Rocha) e Mascarada
(com Elton Medeiros).
"Zé Kéti tinha uma noção musical de feitura de composição surpreendente.
Apesar de não tocar, suas melodias eram muito bem feitas, e tinham uma
modulação de quem dominava algum instrumento", opina o compositor Paulo
César Pinheiro. Segundo ele, o sambista foi um influenciador de gerações
posteriores, e mostrou preocupação política com os shows do Opinião.
"Músicas como Acenderam as velas e Malvadeza durão têm uma força poderosa.
Acredito que, abaixo de Nelson Cavaquinho, na minha opinião o mais genial
sambista brasileiro, estão Cartola e Zé Kéti", acre-dita. Outro nome
fundamental do gênero, Nelson Sargento - companheiro de Zé Kéti no lendário
grupo A Voz do Morro - tem opinião semelhante. "Ele é um pilar da música
popular brasileira. O material que compôs está aí, vivo, e eu o considero da
mesma estirpe de Cartola e Cavaquinho.
A Voz do Morro - que abrigava ainda integrantes do porte de Paulinho da
Viola e Elton Medeiros, entre outros - foi, junto com a época do Opinião, o
ápice da carreira de Zé Kéti. Ligado à escola de samba da Portela (fez
parte, nos anos 40, da sua ala de compositores), ele se tornou nacionalmente
conhecido através do filme Rio 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos, que
utilizou as canções A voz do morro e Leviana no longa (leia boxe).
Voz dissonante - O crítico José Ramos Tinhorão não nutre por Zé Kéti o mesmo
sentimento de admiração que move os depoimentos de Paulo César Pinheiro e
Nelson Sargento. Para ele, o sambista, apesar do talento pessoal e da imagem
do típico malandro carioca, não media esforços para fazer sucesso. E
dispara: Máscara negra, uma das mais conhecidas pérolas do repertório de Zé
Kéti, não é de sua autoria.
"Essa canção, na verdade, foi composta por um sambista chamado Deusdeth
Pereira Matos. Mas ele morreu cedo e seu irmão, Hildebrando, recolheu várias
músicas e as ofereceu a Zé Kéti, que se interessou por Máscara Negra. Quando
Hildebrando morreu, ele acabou apresentando a música como de sua autoria
apenas. Tenho depoimentos gravados e escritos aqui para provar isso, mas
quando tentei elucidar a questão, na década de 60, a facção de esquerda da
música brasileira fechou com Zé Kéti, me chamando de mentiroso e
precipitado. Chegaram a exibir, na Rede Globo, um musical em homenagem a
ele", revela.
Profissional sério e com credibilidade para embasar suas afirmações,
Tinhorão reconhece, contudo, que Zé Kéti era um bom melodista, espécie de
compositor profissional da época, dotado de criatividade e capaz de produzir
um objeto de caráter artístico. "Apesar de comum na primeira metade do
século, essa coisa de roubar canções é um negócio chato, e revela uma
esperteza besta. Ele tinha um senso de oportunismo muito forte, e a
participação nos shows do Opinião endossa isso".
Uma conclusão após toda essa celeuma é certa. Zé Kéti não enriqueceu com a
música, e lançou apenas três discos de carreira. Conheceu o ostracismo
durante a década de 80 - quando morou em São Paulo - e, pouco antes da
morte, voltou a ser reconhecido, tendo participado de apresentações com a
Velha Guarda da Portela. Nada muito diferente da sina que acompanha o grosso
dos sambistas de morro, igualmente assolados pela miséria e pelo
reconhecimento tardio.
O cineasta Nelson Pereira dos Santos tem parcela fundamental no decolar da
carreira de Zé Kéti. Lançou A voz do morro em Rio 40 graus (1955) e colocou
o sambista em um pequeno papel no longa. O trabalho seguinte de Nelson, Rio
zona norte (1957), estrelado por Grande Othelo, foi inspirado na vida do
compositor, que tem seu universo novamente visitado no documentário em
curta-metragem 35 mm (11 minutos) Compadre Zé Kéti, lançado no último
Festival Rio BR, com patrocínio das Petrobras.
"Esse filme é uma homenagem musical, onde eu procurei reproduzir o clima do
último aniversário do Zé. Convidei uma roda de amigos, como Nelson Sargento,
Monarco, Elton Medeiros, Walter Alfaiate, Délcio Carvalho, Guilherme de
Brito e Noca da Portela, entre outros, e deixamos vazia a cadeira em que ele
sentava. A partir daí, registrei uma tarde de casos e muita música", explica
o diretor.
Padrinho do filho do sambista, Nelson acredita que ele tem lugar cativo na
música brasileira, além da importância histórica. "Ele lutou pela
profissionalização na arrecadação dos direitos autorais e teve forte atuação
política. Foi também um elemento de ligação entre a música de morro e a
MPB", opina. O cineasta gostaria - e tem material para isso - de transformar
Compadre Zé Kéti em um longa-metragem, mas depende de captação de recursos.
"Seria o ideal. Tenho como conseguir muitas imagens de arquivo,
principalmente dos shows do Opinião".
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