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Mito quase desconhecido

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From: Antônio Augusto (bocaiuva@bocaiuva.com.br)
Date: Sex 05 Out 2001 - 18:44:49 GMT


Mito quase desconhecido

Biografia de Jackson do Pandeiro revela pela primeira vez a vida do
artista que sintetizou na música a cultura do Nordeste

 ANA CECILIA MARTINS

Hugo

 Morto em 1982, o paraibano Jackson do Pandeiro ganha três de dias de
shows em sua terra este mês, além do lançamento do livro 'O rei do
ritmo', resultado de oito anos de pesquisas

Com a pele curtida de sol, franzino, pobre e analfabeto, o danado do
homem, nascido José Gomes Filho, fez o ritmo regional nordestino ecoar
pelos quatro cantos do país. Jackson foi o apelido, inspirado em
filmes de faroeste, que substituiu o nome de batismo, e o ''do
Pandeiro'' foi incorporado a ele como carimbo de quem fazia misérias
com o instrumento na mão. Egresso do universo pobre de Alagoa Grande,
interior da Paraíba, Jackson do Pandeiro absorveu todos os ritmos
nacionais com habilidade desconcertante. O coco, baião, samba, xote,
xaxado, maracatu e até a bossa nova cantada e tocada pelo cabra
influenciaram gerações de artistas e serviram como síntese da cultura
brasileira espontânea e popular.
Ritmista, cantor e compositor, Jackson é ainda hoje um mito
desconhecido. ''Todo mundo conhece seu nome e suas músicas, mas poucos
conhecem sua história'', afirma o jornalista Fernando Moura, que
assina com o pesquisador Antônio Vicente o livro Jackson do Pandeiro -
O rei do ritmo (Editora 34) a primeira biografia do mestre, resultado
de oito anos de pesquisas. ''O trabalho começou com um mapeamento da
música da Paraíba. Aos poucos, fomos vendo que todas as referências se
reportavam a Jackson, começamos então a seguir seu rastro, passeando
pelo Brasil atrás de informações dispersas sobre sua vasta obra, que
conjuga mais de 400 composições, a maior parte inédita, e sua
trajetória'', acrescenta Fernando.

Chefe da casa - A missão assumida pela dupla exigiu disposição
arqueológica. Fernando e Antônio se embrenharam em arquivos de
jornais, em entrevistas com a família do músico, artistas nordestinos
e críticos, e foram traçando o perfil do artista, filho primogênito da
cantora de coco Flora Mourão que, aos 13 anos, trabalhava para
sustentar a casa e seus três irmãos. ''Papai se mandou para o mundo e
Jackson virou o chefe da casa. Trabalhava em obras e coisa assim.
Quando fomos para Campina Grande, ele conseguiu um serviço na padaria
e as coisas melhoraram'', conta Cícero Gomes, 69, o irmão caçula e uma
das principais fontes dos autores.

Foi com espanto que a família e os amigos mais próximos viram a voz do
paraibano estourar nas rádios do país com o coco Sebastiana, no início
dos anos 50. O sucesso veio junto com outro, Forró em Limoeiro.
Jackson começava a conhecer a fama. A essa altura já contabilizava uma
longa estrada de apresentações em cabarés e na Rádio Tabajara, em João
Pessoa, e acabara de chegar ao Recife para inaugurar a Rádio Jornal do
Comércio.

Conquista suada - Foi nas coxias do lugar que o artista conheceu e se
encantou por Almira, rumbeira que cantava mambo e dançava. A conquista
foi suada. ''Ele me levava de noite ao ponto de ônibus e ficava me
galanteando, depois me convidou para fazer coro em Sebastiana'',
lembra Almira, com quem Jackson formou uma dupla de sucesso por mais
de dez anos, gravando diversos discos e fazendo participações no
cinema. Ficaram casados 12 anos. ''Foram anos de glória, mas Jackson
pisou na bola comigo e me divorciei'', conta Almira, que deixou a
dupla em meados da década de 60, quando Jackson já estava instalado no
Rio.

Os anos seguintes trouxeram para o centro da cena musical o iê-iê-iê
da Jovem Guarda e afastaram Jackson das paradas de sucesso. ''Ele
passou por momentos difíceis, catando moeda em casa para pegar ônibus
e tentar ver se arranjava algum trabalho'', narra Fernando. Com o
surgimento da Tropicália em fins de 60, a música nordestina ganhava
novamente destaque e Jackson pôde experimentar um certo renascimento
com as gravações de Canto da Ema e Chiclete com banana, de seu
repertório, feitas por Gilberto Gil.

Depois do baiano, outros artistas regravaram as músicas que Jackson
consagrou, como Chico Buarque (Lágrima), Paralamas do Sucesso (1x1) e
Zé Ramalho (Casaca de couro). Hoje, as novas gerações continuam
redescobrindo Jackson. ''Não tem como ser nordestino e não beber na
fonte de Jackson do Pandeiro, no seu jogo cênico e naturalidade.
Jackson é, ao lado de Luiz Gonzaga, a maior referência cultural do
Nordeste'', afirma Helder Vasconcelos, percussionista do grupo
pernambucano Mestre Ambrósio.

Memorial - A partir do próximo dia 11, João Pessoa vai ser palco de
três dias de festa em homenagem a Jackson, reunindo grupos nordestinos
como o Cascabulho. O livro sobre o músico será lançado na ocasião.
''Programamos ainda a abertura de um memorial em Alagoa Grande com o
material que reunimos durante a pesquisa'', comenta Fernando, que pode
agora contar ao país a história de um artista, que como tantos da
nossa música popular experimentaram o sucesso, popularidade, declínio,
reconhecimento, esquecimento.

Os momentos de aperto jamais frearam Jackson, que não parou de
trabalhar, nem mesmo depois de um grave acidente de carro que, em
1968, lhe quebrou os dois braços. Seu último álbum, Isso é que é
forró, foi lançado três anos depois. ''Existia algum recado ali. Na
última música do disco ele falava do Flamengo, sua grande paixão,
parecia uma despedida'', comenta o biógrafo, que emenda:
''Coincidentemente uma de suas últimas frases em vida foi sobre o
futebol.'' ''Zico fez gol?'', perguntou à esposa D. Neuza, saindo do
coma, em 1982, aos 63 anos. O craque não fizera. A seleção perdeu a
Copa e o Brasil, um de seus mais geniais criadores.

Jornal do Brasil: http://www.jbonline.com.br
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"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Geir Campos citado por Henfil no poema O Rio
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