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Mais radical que Cássia Eller |
From: wpavan (wpavan@uol.com.br)
Date: Qua 03 Out 2001 - 12:49:23 GMT
Divina Matusquela
Mais radical que Cássia Eller
O texto de Eduardo é baseado nas informações recolhidas pela pesquisadora
Samanta Abadia, que como mérito principal entrevistou Adelaide, a amiga
íntima, secretária, empresária e produtora de quase toda a vida. Aracy foi
apaixonada por um goleiro do Bangu, Rey. Teve um jogo rápido com um certo
coronel Eni. É tudo que se sabe sobre a vida da solteirona. ''A Adelaide me
garantiu que elas moraram juntas até a morte da Aracy mas não tiveram nada,
eram apenas amigas'', diz Samanta, que só conseguiu a raríssima entrevista
com Adelaide - a ''portuguesa da Araca'' como Pedro de Lara caçoava
malicioso nos bastidores - por ter o mesmo nome de um dos cachorros do
casal, quer dizer das amigas do Encantado.
O comportamental de Aracy, o jeito de corpo, apenas para as novas gerações
sentirem, era um pouco mais radical que o de Cassia Eller. Mas Samanta
assegura: ''Pelo que eu apurei a Aracy era assexuada.''
Por tudo isso - por Aracy achar que no Brasil tudo era feito à Bangu, por
chegar na festa dos Klabin e mandar o garçom fazer um embrulhinho de peito
de frango para os cachorros - por tudo isso, sempre que anunciava a algum
amigo que estava preparando uma peça sobre a cantora, Eduardo Wotzik ouvia
uma gargalhada de volta. Nada mais improvável do que o encontro da vanguarda
teatral com uma das maiores extravagâncias do ibope. ''Ela tinha uma imensa
teatralidade'', diz Eduardo. ''E me interessa também por representar esse
Brasil que ri de si mesmo, como o Brasil que a Dercy e a Consuelo Leandro
também representam muito bem. Um Brasil que não se leva a sério num momento
de tanta arrogância dos governantes.''
Coca-Cola - Um dia, quando soube que a Coca-Cola estava oferecendo US$ 500
para que os artistas tirassem fotos segurando uma garrafa do refrigerante, a
cantora Nora Ney perguntou a Aracy o que faria se recebesse a proposta.
''Minha filha'', respondeu Araca, ''por dinheiro eu tiro a foto até com a
Coca-Cola no lordo.''
Era uma figuraça. Cabelo black-power, pagando sanduíche para prostitutas,
levando lero com os malandros da Praça da Bandeira, brigando com a Linda
Batista porque essa lhe teria feito xixi no vestido numa festa no Palácio do
Catete, caindo bêbada dentro de um bueiro com o estilista Denner. Ou ainda,
num canto da Vogue, vaidosamente feminina, mostrando de graça, sem segundas
intenções, para Millôr Fernandes e Antônio Maria, a beleza surpreendente dos
peitinhos.
Tinha, como se diz hoje na fila do Festival BR de Cinema, atitude.
Avacalhada. Debochada. Não estava nem aí se o auditório vaiava. Tinha a
humanidade em baixa conta. Quando soube que fulana andava com um cara
chinfrim, afiou o mau humor mais bem humorado do subúrbio da Central e
mandou na lata: ''É uma maluca, qualquer espiga pra ela serve''.
Achava tudo um tremendo ralabucho - inclusive ela própria.
''Escuta Pitanga'', disse uma vez para o cirurgião plástico Ivo Pitanguy,
''você que já endireitou tanta gente por aí, ainda não reparou no meu nariz?
Tem mais carne que balcão de açougue?''
Devia ser esse o segredo, o canto fanho que deixava malandro e dramático o
mesmo verso. Pitanguy, sensível, não mexeu. E antes que as cantoras
ecléticas de hoje persigam o efeito entupindo as narinas de botox e
silicone, já se ouve do Além o vitupério
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