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A Divina Matusquela |
From: wpavan (wpavan@uol.com.br)
Date: Qua 03 Out 2001 - 12:49:03 GMT
A divina 'matusquela'
Passional, suburbana e debochada, a cantora Aracy de Almeida inspira peça de
Eduardo Wotzik em tom de teatro de revista
JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS
Kaoru
Embora não tenha uma atriz no papel da cantora, 'No país da Araca' conta a
vida de Aracy de Almeida
O crítico Lúcio Rangel gostava de Aracy de Almeida porque, como Amália
Rodrigues e Edith Piaf, ela era do tipo de cantora que cantava como se
cuspisse vinho. Passional, despudorada, fanhosa também - e daí, vai encarar?
O diretor Eduardo Wotzik até concorda, mas não é por isso apenas que ele
aposta na Dama do Encantado como a personagem principal de sua peça No país
da Araca, que estréia amanhã, às 20h, no Teatro 1 do Centro Cultural do
Banco do Brasil.
Aracy era mulher, feia, antipática, gorda, suburbana, judia convertida,
mal-educada e - nem sapata como as cantoras ecléticas, nem segurando o tchan
do contra-regra como as do axé - profundamente assexuada. ''Ela reunia todas
as minorias e era autêntica, na contramão do politicamente correto'', diz
Eduardo. ''No momento em que o país é regido pelas leis do marketing, do
fake total, dos gens da desonestidade, Araca é o que temos de mais honesto
para nos espelhar. Um grande símbolo da autenticidade.''
Mal-humorada - As últimas gerações viram Aracy de Almeida como uma velhinha
mal-humorada enchendo o saco dos calouros no programa do Sílvio Santos.
Paulinho da Viola acha que ela foi mais. Foi a maior cantora brasileira de
todos os tempos. O pesquisador Sérgio Cabral tem o cuidado de juntar ao
posto a enluarada Elisete Cardoso e a pimentinha Elis Regina. De resto,
concorda. ''Aracy tinha uma voz extremamente agradável e humana, ao mesmo
tempo que era fora do padrão convencional'', diz. ''Também havia muita
sinceridade entre ela e o que cantava.''
Aracy nasceu em 1914 e morreu em 1988. Evangélica de primeira hora, cantava
num coro de igreja mas não era fundamentalista: um dia aceitou o convite de
Noel Rosa para tomar uma cerveja Cascatinha na Taberna da Glória e, não deu
outra, crau!, passou a lançar as músicas do Poeta da Vila. Era a queridona
também de Wilson Batista. De Ary Barroso. De Getúlio Vargas, que a aplaudia
na boate Vogue, templo dos bacanas até 1955. Em 1968, Caetano Veloso compôs
A voz do morto em sua homenagem. Daria para contar a história da música
brasileira naqueles 74 anos através dela. Mas Eduardo Wotzik evitou o
facilitário da biografia convencional, do conta-se uma historinha, dá-se uma
paradinha e canta-se uma musiquinha. ''Seria muito neurastênico de sua
parte'', como dizia Aracy.
No país da Araca fala de um governo de araque (você já deve ter ouvido falar
dele) que, entre outras mumunhas salafrárias, rouba na quantidade dos
produtos para manter o orgulho na estabilidade dos preços. Os valores morais
foram para a cucuia e os ministros do tal país escolhem Aracy de Almeida
como o Ícone de Autenticidade Nacional que o povo precisa para se espelhar.
O tom é de teatro de revista. Roça a chanchada quando, num programa de
auditório, um sujeito que fala meio de lado como Aracy (''o candidato é um
tipo de que não resta a menor dúvida''), usa aqueles coletinhos pândegos da
Aracy e conta aquelas histórias engraçadíssimas (quem a cumprimentava com um
''olá, Aracy'', recebia silêncio de volta: ''e eu sou mulher de olá''), esse
sujeito é eleito a nova Aracy.
Na contramão - É o primeiro texto de Eduardo, que nos últimos anos andou
muito longe de qualquer coisa que lembrasse subúrbios, Rádio Nacional,
noites de Copacabana ou botecos da Glória, cenários de No país da Araca. Ele
montou Albee, Tolstói e Lorca. Agora incorpora uma Aracy tão de frente que,
depois de ouvir as 400 canções que ela deixou gravadas acha, na contramão de
todos os críticos, que sua fase melhor foi justo a última, considerada pelos
especialistas a da decadência. ''No início Aracy tinha uma vozinha meio
Carmen Miranda, eu não curto muito'', analisa. ''A partir dos anos 50, ela
ganha mais personalidade e potência. Fica com um canto falado bem
expressivo.''
Quem for ao Teatro 1 do Centro Cultural do Banco do Brasil vai ouvir duas
dezenas de músicas de Aracy, uma cantora que sambava sem requebrar,
dramatizava sem descabelar e cantava carnaval sem espetar o céu com os
dedinhos. A gravadora Revivendo tem duas coletâneas com seus sucessos em
catálogo. Recentemente Olivia Byington homenageou a diva e lançou o CD A
dama do Encantado. Canta Camisa amarela, Palpite infeliz, Último desejo,
Cansei de pedir, Fez bobagem, Feitio de oração, X do problema e outros
clássicos do seu repertório. Aracy foi a maior intérprete de Noel Rosa, mas
não só isso: inventou um jeito de cantar tão sem salamaleques e sem
fajutices que não deixou cola para ninguém. Marisa Monte incorpora Carmen
nas mãozinhas, Bethânia vai de Dalva no arrebatamento. Por onde emular a
emoção escondida no gogó da Araca? Ela sabia ser malandra e dramática no
mesmo verso - e, grata apenas aos seis cachorros com que morava na casinha
do Encantado, não revelou o truque para ninguém.
A montagem de Wotzik conta também, embora não apareça qualquer atriz
personificando a cantora, a vida para lá de matusquela de Aracy. Ela adorava
esse linguajar fora do tom. Mandou pessoalmente, cara a cara, os presidentes
Getúlio Vargas e Fernando Collor para aquele lugar. Gostava de jogar mau
humor extravagante em cima dos candidatos dos programas de calouros de
Silvio Santos, do Mauro Montalvão, do Bolinha, do Chacrinha, Raul Gil,
Cidinha Campos e do Airton Rodrigues, por onde recolheu, depois que a voz
acabou, o dinheiro para comprar a pelanca de primeira para seus cachorros:
''Meu filho, vais ganhar dez mangos pela cara-de-pau.''
''Minha filha, você não é cantora, parece mais uma árvore de Natal.''
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