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Para rir e se emocionar |
From: Antônio Augusto (bocaiuva@bocaiuva.com.br)
Date: Ter 02 Out 2001 - 12:13:21 GMT
Para rir e se emocionar
(João Paulo)
O choro está em alta. Bom para o público. Depois do belo Café Brasil,
produzido por Rildo Hora, com clássicos do estilo, Paulo Sérgio Santos
aposta em outra vertente, destacando um repertório menos conhecido,
mas igualmente excelente, em seu Gargalhada. O formato trio - com
Paulo Sérgio na clarineta, o violonista (e filho) Caio Márcio e a
bateria e percussão de Bolão - se mostra capaz de dar todas as
inflexões necessárias às canções, do romantismo ao virtuosismo
individual, além de permitir a instalação de climas que trazem
nostalgias de tempos passados e lugares diversos, dos bailes, rodas de
choro e salas de concerto.
É tudo tão bonito como competente, das composições aos arranjos. Em
Homenagem ao Abel, do próprio Paulo Sérgio Santos, a clarineta chora e
improvisa acompanhada apenas por um violão singelo, que pontua acordes
para o desenho do instrumento de Abel Ferreira. Meio choro, meio
valsa, como era do estilo do homenageado. Também de Paulo Sérgio
Santos, Samba Chorado muda de clima e realiza uma fusão entre os
gêneros anunciados no título da canção, com o violão maroto de Caio
Márcio, com acordes sofisticados nas cordas graves, criando com o
pandeiro de Bolão uma cama para o desenvolvimento do tema e os
improvisos e variações da clarineta.
Bebê, de Hermeto Pascoal talvez seja a faixa mais conhecida do
repertório do disco. Com um sopro propositalmente opaco, Paulo Sérgio
e Caio Márcio dão um tratamento de baião-choro à canção, num arranjo
que destaca tanto a força rítmica da canção em ponteados do violão
como as variações de timbre pedidas pela melodia. No momento mais
nostálgico do CD, Três Estrelinhas, de Anacleto de Medeiros, uma
valsinha catita tocada apenas pela clarineta, e Angá, de Chiquinha
Gonzaga, que tem clima de bandinhas de interior, são uma delícia para
a memória musical da tradição do choro, canções feitas para alegrar a
alma, com uma simplicidade quase afetiva.
Três temas de Guinga, Nítido e Obscuro, Caiu do Céu e Canibaile,
deixam claro o lugar único ocupado pelo compositor carioca, que
mistura baião, samba e choro rasgado, sempre exigindo muito dos
músicos para deixar o prazer com o ouvinte. Em Caiu do Céu, o jovem
Caio Márcio consegue executar o solo de uma melodia dificílima, com a
leveza e expressividade que a peça pede.
As três faixas que fecham o disco são de um Pixinguinha menos
conhecido e, talvez por isso, soem tão impressionantes, bem-humoradas,
cinematográficas, visuais, cheias de mudanças rítmicas e brincadeiras
que abrem o flanco para o jeito maxixado de tocar sambas e choros. A
clarineta se mostra tão ágil como uma flauta, em picotados sensuais,
como uma orquestra de baile inteira formada pelas batidas do violão e
da percussão. Uma celebração da boa música.
O tempo é o senhor da verdade e da razão...
"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Henfil
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