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Artigo sobre Gordurinha

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From: Márcio Almeida (marciobca@zipmail.com.br)
Date: Seg 24 Set 2001 - 20:24:33 GMT


Colegas de Tribuna,

     Transcrevo o oportuno artigo de Marcelo Janot
(site no.com.br) sobre o relançamento do disco "A
Bossa do Gordurinha". Um abraço,

                               Márcio

O filé-mignon do Gordurinha (Marcelo Janot)

Não é preciso pertencer a velhas gerações para conhecer a obra do genial compositor baiano
Gordurinha – embora seja raro achar, entre aqueles com menos de 30 anos, alguém que ao menos
tenha ouvido falar nele. É que Gordurinha, mesmo tendo sido um intérprete carismático, ficou
famoso mesmo na voz de Jackson do Pandeiro e Gilberto Gil, entre outros. “Chiclete com banana”
(“Só boto bebop no meu samba/ quando o Tio Sam pegar no tamborim/ quando ele entender que o
samba não é rumba”) e “Vendedor de caranguejo” (“Caranguejo-uçá, caranguejo-uçá/ Apanho ele na
lama/E boto no meu caçuá/Caranguejo bem gordo é gaiamum/Cada corda de 10 eu dou mais um”) são
alguns exemplos de músicas manjadas de seu repertório. Com o lançamento, dentro da coleção “100
Anos de Música” (BMG-Charles Gavin), de um de seus melhores discos, “A Bossa do Gordurinha”,
talvez seja possível amenizar um pouco essa injustiça.

Waldeck Artur de Macedo, nascido em Salvador em 1922, entrou para a Rádio Sociedade da Bahia
com 16 anos. Era magérrimo, o que lhe valeu a alcunha de Gordurinha, perfeita para quem já
mostrava intimidade com o microfone cantando e fazendo humor. Chegou a cursar medicina, mas
largou os estudos para cair na estrada com sua companhia teatral. Embora posteriormente
retornasse ao rádio e à música, a opção pelo humor foi prejudicial, na época, ao reconhecimento
de seu talento como compositor – quando deveria ter sido justamente ao contrário, uma vez que
Gordurinha foi um dos melhores cronistas musicais de seu tempo.

“A Bossa do Gordurinha”, lançado em 1962 e penúltimo dos cinco LPs que gravou, é farto em pérolas
bem-humoradas. “Sou filho da Bahia com muita alegria/ Não interessa se o relógio já deu meio-dia
”, são os primeiros versos da primeira faixa, “Baiano não é palhaço”, em que ele usa uma teoria
própria para explicar que Juscelino Kubitschek e Leonel Brizola não eram mineiros nem gaúchos,
e sim baianos! Por trás do humor, um discurso social engajado sobre o preconceito contra os
imigrantes nordestinos (“Até parece que estou noutro país/ Vê que piada infeliz inventaram agora/
‘Ajude a manter a casa limpa/ Matando um baiano por hora’”).

Gordurinha veio para o Rio no início da década de 50, depois de fazer sucesso em rádios do Recife
, onde conheceu Jackson do Pandeiro e Genival Lacerda. No Rio, era encarado com uma certa dose de
preconceito e deboche, mas venceu se tornando uma celebridade na poderosa Rádio Nacional. Foi
quando, paralelamente aos programas humorísticos, pôde exercitar a inata verve musical, gravando
excelentes discos. Suas elaboradas melodias misturavam com talento ritmos regionais, como o coco,
o samba e o rojão, com a latinidade da rumba e do cha cha cha, que funcionavam à perfeição com os
arranjos de orquestra.

A rumba “É um calo só” é um perfeito exemplar da face cronista do compositor (“O feijão subiu,
não posso comer feijão/ Condução subiu, não ando de condução/ Estou contando os postes e ninguém
tem dó/ De tanto andar a pé, estou com o pé que é um calo só”). Mas o disco “A Bossa de
Gordurinha” revela um outro lado seu: três belas e melancólicas letras de amor que caberiam
perfeitamente em sambas-canções, mas cujas melodias têm a alegre expressão rítmica do samba
tradicional. Só a letra de “Anestesia pra moral” já vale o disco inteiro: “O meu destino é
 amargo/ Sem ela minha vida é tristonha/ Mas eu prefiro viver de saudade/ Do que morrer de
vergonha/ Atualmente o problema é discernir o bem do mal/ Ou eles pensam/ Que existe anestesia
 pra moral?”.

É que Gordurinha, por trás da couraça de palhaço, era um sujeito de vida sentimental complicada.
 Curava as feridas do coração com poesia e morfina. A droga acabou levando-o à morte precoce,
por enfarte, em janeiro de 1969. A poesia sobreviveu.

                                     Márcio

                                      Márcio
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