![]() |
En: Moacyr Luz faz uma história pessoal do samba |
From: Antônio Augusto (bocaiuva@bocaiuva.com.br)
Date: Sex 21 Set 2001 - 11:38:48 GMT
O tempo é o senhor da verdade e da razão...
"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Henfil
-----Mensagem Original-----
De: "Antônio Augusto" <bocaiuva@bocaiuva.com.br>
Para: "Tribuna" <tribuna@samba-choro.com.br>
Enviada em: quinta-feira, 20 de setembro de 2001 11:15
Assunto: Moacyr Luz faz uma história pessoal do samba
Quinta-feira, 20 de setembro de 2001
Moacyr Luz faz uma história pessoal do samba
O compositor lança novo disco, 'Na Galeria', em que atua unicamente
como intérprete, na intenção de resgatar um tipo de samba melódico e
refinado que anda esquecido
Delfim Vieira/AE
Moacyr Luz, em estúdio: opção por instrumentação mínima, seu violão
completado por um sete cordas e percussão
MAURO DIAS
Moacyr Luz é um dos maiores compositores brasileiros das últimas duas
décadas. Mas seu novo CD é trabalho de intérprete. Em Na Galeria (Lua
Discos), Moacyr resolveu prestar homenagem - fazer voltar à
lembrança - um tipo e uma levada de samba que andam um tanto
esquecidos. Aquele samba de melodia refinada, harmonia rica, letra
inteligente e bem construída que fez a glória de Cartola, Nelson
Cavaquinho, faz ainda a de Elton Medeiros ou Paulinho da Viola.
Mas que não se resume a esses nomes notórios. Pois não só o tipo de
samba, ou a maneira de tocá-lo, anda esquecido. Autores da mesma
magnitude deixaram obra vasta e belíssima da qual não se fala mais. Um
dos propósitos de Na Galeria é dar o merecido destaque a Padeirinho,
Candeia, Roberto Martins, Waldemar Gomes, Donga, Mestre Fuleiro. Sem
esquecer Noel Rosa, Cartola, Pixinguinha, Herivelto Martins.
Na Galeria, entretanto, não quer só isso. "Ter feito esse disco me
permite compreender melhor os caminhos que levaram minha voz a soar
como soa, e entender por que desenvolvo como desenvolvo minhas
composições", diz Moacyr.
"Porque quando componho, procuro me livrar logo da composição, acabar
logo o trabalho; por outro lado, quando canto, interiorizo o que estou
cantando; quando componho, mantenho a primeira visão harmônica, não
mudo a tonalidade; nesse disco, mexi em harmonias e andamentos, tomei
liberdades que, acho, posso, agora, tomar com minha própria música."
Violonista desde sempre, Moacyr começou vida na música como letrista.
Levou algum tempo para mostrar suas melodias - seus parceiros mais
constantes são Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. Gravou três
discos-solo e criou vários sucessos para vozes dos maiores de nossos
intérpretes - como Retrós (gravado por Nana Caymmi), Saudades da
Guanabara (por Beth Carvalho), Mico Preto (por Gilberto Gil), Medalha
de São Jorge (por Maria Bethânia).
No último ano, produziu três discos antológicos, para a mesma Lua
Discos que agora lança seu CD: os solos de Casquinha e Guilherme de
Brito e o volume em que Jards Macalé interpreta o samba de breque de
Moreira da Silva. "Na Galeria serve para falar do carinho que tenho
com os autores da velha-guarda e tem um pouco a ver com o fato de
haver produzido Casquinha, Guilherme, Macalé cantando Moreira", conta.
Mexendo em arquivos, fazendo pesquisas para aquelas produções, Moacyr
encontrou pérolas como um dueto de Moreira da Silva com Orlando Silva;
descobriu - ou lembrou de - belezas escondidas. Achou que dava para
fazer um disco à parte, um disco sem ser de carreira, trabalho
não-autoral, mas que tivesse a ver com o que compõe, ou cujo
repertório estivesse na raiz do que compõe. Sem que se tratasse de
"resgatar música antiga" - nada disso. Pelo contrário, colecionar o
atemporal.
Aldir Blanc chegou a observar: "Moacyr, cuidado com Lata d'Água na
Cabeça, que isso não existe mais, como não existe Barracão de Zinco."
Em outras palavras, cuidado para não datar o repertório - mas Moacyr
já sabia disso. O que gravou está vivo. "O que eu quis foi chamar de
volta a sutileza do samba, que anda muito apressado, muito batido, com
a percussão muito alta, muitos tambores, com arranjos que já são meio
frases feitas", conta.
Optou, por isso mesmo, em gravar com poucos instrumentos: apenas o seu
violão de seis cordas, o violão de sete de Carlinho Sete Cordas e a
percussão miúda (e suficiente) de Beto Cazes. São dois músicos
maravilhosos, rigorosamente geniais, a companhia exata para o gênio do
anfitrião. Gênio reconhecido por muita gente. No texto que apresenta o
disco, Luis Fernando Verissimo diz assim: "Tenho algumas boas
lembranças musicais. Vi o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie tocando
juntos no velho Birdland, vi o Miles Davis no tempo em que ele e a
banda usavam fatiotas da Brooks Brothers (...) vi o Von Karajan
regendo a Filarmônica de Berlim (...) e, uma noite, vi o Moacyr Luz e
o Aldir Blanc tocando e cantando."
Das regravações de Moacyr, diz Verissimo: "Aqui está todo o sortilégio
da Zona Norte do Rio, esse mundo de velhos e novos compositores de
boteco e escola de samba e suas obras-primas muitas vezes
desconhecidas ou esquecidas, esse respeito pela tradição que não
exclui a experimentação, esta aparente simplicidade que no fundo é
sofisticação despojada - enfim, esta maravilha."
Sambas de autores vivos, no repertório de Na Galeria, só dois: Retiro,
de Paulinho da Viola, e Três por Acaso, de Gereba e Capinam. O artista
plástico Elifas Andreato criou, para a capa do CD, a galeria
fotográfica dos autores (em alguns casos não havia iconografia dos
autores; entrou a foto do primeiro intérprete, como é o caso de Araci
de Almeida, que foi quem primeiro gravou Coberto de Ouro, de Waldemar
Gomes e Afonso Teixeira).
Moacyr Luz sempre relutou em se considerar cantor. É, é magnífico. E
Na Galeria, disco que nasce clássico e entra imediatamente para - vá
lá - a galeria dos melhores discos de samba de todos os tempos,
acentua mais um talento do grande artista.
Fonte: Caderno B. Estadão, 20.9.2001
http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2001/09/20/cad027.html
O tempo é o senhor da verdade e da razão...
"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Henfil
#Mensagem modificada, anexos e HTML removidos#
__________________________________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta
Este arquivo foi gerado por hypermail 2b29 : Sex 21 Set 2001 - 16:19:39 GMT