Voltar para a página principal do site

Bons tempos, ótimo disco

Nova Mensagem Responder Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

From: Antônio Augusto (bocaiuva@bocaiuva.com.br)
Date: Ter 11 Set 2001 - 18:49:34 GMT


Estado de Minas, 11/9/2001

 Bons tempos, ótimo disco
(João Paulo)

O choro é nosso gênero musical que melhor transita entre as tradições
popular e erudita. É uma música que exige grande virtuosismo dos
intérpretes e, ao mesmo tempo, consegue imediata comunicação com o
público. Estes elementos despertaram o interesse na gravadora Teldec,
que encomendou a Rildo Hora a produção de Café Brasil, uma antologia
belíssima de clássicos do choro, tendo ao centro o grupo Época de Ouro
e uma constelação de nomes do primeiro time da música brasileira. O
tom do disco não é de comemoração ou homenagem, mas de pura
criatividade, com arranjos modernos e improvisos sofisticados e
deliciosos. Lançado no mercado europeu, na esteira do sucesso de Bach
in Brasil, de Henrique Cazes (um dos melhores discos instrumentais da
história da nossa música), ele chega agora ao Brasil.

O grupo Época de Ouro, criado em 1966 para acompanhar Jacob do
Bandolim, se apresenta na maioria das canções. É sempre um prazer
ouvir Dino 7 Cordas, César Faria (pai de Paulinho da Viola) e Jorginho
do Pandeiro criando os desenhos harmônicos e rítmicos para músicas
como Noites Cariocas (com Sivuca), Treme-Treme e Mariana. Um dos
destaques do disco é o resgate do choro cantado, com as participações
de Leila Pinheiro, João Bosco, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e
Ademilde Fonseca. Sem deixar de lado a força instrumental e criativa
das composições, os arranjos reservam à voz um papel de destaque em
diálogo com os instumentos. No caso de Títulos de Nobreza, a canção
praticamente se desdobra entre o balanço do Época de Ouro e os scats
de João Bosco.

Além do Época de Ouro, Rildo Hora convocou grandes músicos que deram
sua contribuição na renovação de obras primas. É o caso de 1x0, que
tem um dueto fantástico de Carlos Malta no saxofone e Altamiro
Carrilho na flauta (que lembra os contrapontos de Pixinguinha e
Benedito Lacerda) e que abre ainda espaço para o trabalho do regional.
Altamiro apresenta ainda a valsa-choro Meu Primeiro Amor, com Maria
Teresa Madeira ao piano. Uma das faixas mais interessantes do disco,
propõe um falso duelo entre o bandolim e o cavaquinho. Geralmente, na
tradição dos chorões, em festa de um instrumento o outro não entra.
Joel Nascimento e Henrique Cazes mostram a capacidade expressiva e de
timbre de cada um deles, desmanchando a briga em pura festa.

As melhores faixas de um disco todo ele excelente são Brejeiro, de
Ernesto Nazareth, que ganha um arranjo moderníssimo para bandolim
(Pedro Amorim) e clarinete (Paulo Sérgio Santos) e André de Sapato
Novo, com a mesma formação, com o cavaquinho de Luciana Rabello e o
violão de Maurício Carrilho. Em Sarau para Radamés, um encontro para
fechar o disco integrando várias gerações de chorões, instrumentistas
e arranjadores, com Paulinho da Viola e Cristóvão Bastos (piano)
convidando o produtor Rildo Hora para tocar sua harmônica. Um cuidado
do coração a mais em um disco cheio de gentilezas com o Brasil.

Elegância e suingue
(Kiko Ferreira)

A Carolina, que já foi musa de Chico Buarque, faz companhia a Bebete e
Yves Brussel como mais nova musa do samba-rock. Carolina é a primeira
música do esfuziante Samba Esporte Fino, vôo solo inaugural da
carreira do carioca Seu Jorge. Mais conhecido como líder do grupo
Farofa Carioca, do indispensável Moro no Brasil, de 1998, ele faz um
passeio amplo, geral e irrestrito pelas variações do samba e outros
suingues que habitam as praias e morros cariocas. Além da Carolina,
outra inspiração de Chico Buarqe marca presença. No Samba que nem Rita
a Dora, aquela que levou embora o disco de Noel divide as citações com
a Dora de Luiz Carlos da Vila.

Apadrinhado por Benjor e João Nogueira, a quem o disco é dedicado, Seu
Jorge, apelido de Jorge Mário da Silva, compõe um quadro ao mesmo
tempo denso e variado de suas influências e preferências musicais.
Co-produzido por Mário Caldato Jr. , dos discos dos Beastie Boys e do
Planet Hemp, o CD reúne músicos que vão dos bateristas Paulinho Black
e Ivan Conti, o Mamão do Azymuth, às Pastoras da Velha Guarda da
Mangueira, Serginho Trombone, Arthur Maia, William Magalhães e até o
mineiro Tattá Spalla. Entre os convidados especiais estão Dudu Nobre,
com cavaquinho na homenagem ao padrinho Zeca Pagodinho (Pequinês e
Pitbull) e o ícone do samba-soul Carlos Dafé, dividindo os vocais na
sua De Alegre Raiou o Dia.

Lembrando seu ex-grupo e a Parede de Pedro Luiz em Te Queria, Seu
Jorge ataca de Gerson King Combo em Funk Baby, investiga a área mais
romântica do samba-soul em Madá e explicita a influência do funk em
Mangueira e Chega no Suingue. Dando um baile de autenticidade nos
oportunistas que andam pegando carona no ressurgimento do samba-rock,
ele mostra invejável intimidade com os vários setores do samba e da
soul music feita no Brasil, e ainda se dá o direito de arriscar. Chega
a Benjor pela estranha Em Nagoya Eu Vi Eriko, de surpreendentes
tonalidades orientais, e passa do Japão para Jamaica no reggae Hágua,
um corpo estranho mas bem integrado ao conjunto. Uma estréia que só
fica devendo na capa, com um tom acizentado que não traduz o colorido
musical do conteúdo.

O tempo é o senhor da verdade e da razão...

"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
 Henfil
__________________________________________________________________
Para CANCELAR sua assinatura:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela
Para ASSINAR esta lista:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina
Antes de escrever, leia as regras de ETIQUETA:
        http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta


Nova Mensagem Responder Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2b29 : Ter 11 Set 2001 - 19:31:55 GMT