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Clube do Balanço - CliqueMusic

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From: Waldemar Pavan (wpavan@uol.com.br)
Date: Ter 04 Set 2001 - 15:24:14 GMT


Marco Mattoli e sua saga rumo ao suingue

À frente do grupo Clube do Balanço, compositor junta-se a estrelas do
samba-rock para fazer seu pop 100% brasileiro

Marco Antonio Barbosa , para a CliqueMusic

Para as centenas de jovens paulistanos de classe média que sacodem-se, todo
fim de semana, ao som do suingue providenciado por Jorge Ben (Jor), Bebeto,
Trio Mocotó e queijandos, o samba-rock pode não ser muito mais que uma moda
passageira. Mas para Marco Mattoli, guitarrista, cantor e líder do grupo
Clube do Balanço, o samba-rock é muito mais. É profissão de fé, meio de vida
e, mais do que tudo, o caminho ideal para uma (perseguida por tantos) música
pop legitimamente brasileira. O título do primeiro e recém-lançado álbum do
Clube, Swing & Samba-rock (Regata) , denuncia isso de cara. O disco coroa a
invulgar trajetória musical de Mattoli, que cruzou a década de 1990
procurando uma solução pessoal para este tal "pop brasileiro" - e foi
achá-la na suingante mistura entre batucada e rock inventada há pelo menos
três décadas pelos pioneiros já citados.

"O disco Swing & Samba-rock é um resumo da minha vida como músico, que na
verdade é uma grande história de amor pela cultura e pelos sons
brasileiros", conta Mattoli. "Não sou xenófobo, pelo contrário, mas depois
que descobri essa brasilidade não quero saber de outra coisa." O líder do
Clube do Balanço diz que persegue a gênese de uma música jovem
essencialmente brazuca. "O ponto chave é fazer um som pop que tenha uma raiz
brasileira, e não o contrário, como geralmente ocorre - neguinho tenta
misturar as duas coisas e acaba colocando um pouquinho de Brasil no rock que
vem de fora. O samba-rock não, ele é pura expressão da individualidade
cultural brasileira", arrisca Mattoli.

À frente do Clube, um literal combo - são pelo menos 11 membros fixos, mais
uma penca de convidados - o cantor desfia no CD uma enciclopédia do
samba-rock, com a colaboração de alguns dos principais artífices do estilo.
Gente como Marku Ribas, Bebeto, Luiz Vagner e até mesmo Erasmo Carlos (que
também tem toda uma história na senda do suingue, hoje um tanto esquecida)
dá as caras no álbum. "Novatos" do sacundin, como Paula Lima, Ivo Meirelles,
Seu Jorge e os irmãos Simoninha e Max de Castro comparecem igualmente. No
repertório do álbum, ênfase nos clássicos do samba-rock (Paz e Arroz, de
Jorge Ben; Só Vejo a Crioula, de Bebeto; Palladiun, de Orlanndivo & Ed
Lincoln), mas com espaço para canções próprias (como Aeroporto, Trilha
Guitarreira - esta composta por Mattoli e Luis Vagner - e Segura a Nega, de
Vagner e Bebeto). "O disco é um documento do que são os nossos shows. Toda
essa galera que participa do CD - tirando o Erasmo, que foi uma canja que
teve de ser agendada, programada - já se apresentou ao vivo com o Clube.
Nosso grupo é bem 'comunitário'. É como fosse um clube de verdade; os 11
membros fixos são a 'diretoria', o resto é tudo 'sócio'", explica Mattoli,
bem humorado. A "diretoria" conta com Edu Peixe (bateria), Tiquinho e
Reginaldo 16 (metais), Augusto Bocão, Fred Prince e Barba (percussão),
Gringo Silva (baixo), Marcelo Maita (teclados) e Tereza Gama (vocais), além
do DJ Cláudio Costa.

Neste ponto, passado se mistura ao presente e criador junta-se à criatura. A
efervescente cena samba-rock atual - bola da vez da renovação da MPB, que
reúne artistas tão diversos quanto Seu Jorge e Simoninha - deve muito de sua
criação a Mattoli e seu grupo. "A coisa toda começou em 96, quando eu já
tinha formado o embrião do Clube e estava a fim de fazer um projeto
diferente: um baile de samba-rock com música ao vivo, porque havia e ainda
há muito o costume de só ter um DJ animando a casa", lembra Mattoli. "Fomos
então para a periferia de São Paulo, tocar na Cohab 1 (conjunto habitacional
de classe média baixa). Era uma coisa bem família, não ganhávamos quase
nada - vendíamos cerveja para arrumar um troco." Depois de três ou quatro
bailes no subúrbio, o grupo levou seu suingue para o lado mais abastado da
cidade, firmando uma residência aos domingos no restaurante Grazie Dio, no
bairro de Vila Madalena. "O primeiro show que fizemos foi para umas 30
pessoas. Depois de um ano tocando lá, já dava mais de 300 pessoas por noite,
casa completamente lotada." O samba-rock saía da periferia, onde nasceu e
permaneceu como um "segredo" dos bailões suburbanos, e ganhava capas de
cadernos culturais e espaço na TV.

O sucesso atual não poderia ser imaginado por Mattoli em 1989, quando -
integrando o duo Mattoli & Ivanovic - começou a flertar com o samba-rock.
"Comecei a ouvir e tocar Jorge Ben mais ou menos nessa época. Antes eu ouvia
basicamente rock mesmo", recorda o guitarrista. O próximo passo foi o grupo
Os Guanabaras, formado em 1990 (e que chegou a gravar um álbum homônimo, em
1993). "Os Guanabaras já eram bem samba-rock. Eu já queria chegar nesse
estilo brasileiro de música pop, só que eu não tinha o conhecimento
teórico", diz Mattoli. A inclusão de uma canção do grupo, Correndo ao
Encontro Dela, (sucesso nos shows da época) na coletânea de suingue Bailes
da Vida, em 1994, deu o click na cabeça do guitarrista.

"Eu nem sabia direito o que era samba-rock", fala Mattoli. "Mas sabia que
estava intuitivamente indo ao encontro daquele som." Daí, o músico passou a
fuçar sebos, atrás de discos dos anos 70 e 80, e a frequentar bailões na
periferia paulistana. "Então eu entendi que havia toda uma cultura paralela
da música negra, sons que não chegavam à mídia. Pirei forte naquilo tudo e
saí descobrindo um monte de coisas - samba-rock, samba-pop, samba-soul.
Também fui conhecendo todos os grandes nomes do movimento, uma galera que
estava até meio esquecida - na verdade, até hoje ainda estão. O Luís Vagner,
por exemplo eu já conheço há uns oito anos, somos muito amigos. Aí nasceu a
raiz do Clube do Balanço."

O grupo nasceu em 1995, a princípio formado por Mattoli com músicos
contratados. "Depois foi chegando mais gente e aí virou essa coisa de turma
que existe hoje. Temos muita gente agregada, pessoas que nem tocam de
verdade, como bailarinos e DJs", diz o músico. A vontade primeira era a de
organizar um baile para tocar os sons que agora faziam a cabeça do líder do
Clube. "Nós ouvíamos músicas sensacionais nos bailes e nos bares de
samba-rock. E dava a maior vontade de tocá-las", lembra Mattoli. Não por
acaso, Swing & Samba-rock, o disco, dá especial crédito a Renato Bergamo
pela pesquisa de repertório.

Da animado (por quanto tempo mais?) mato do samba-rock, Mattoli espera que
ainda saiam mais coelhos. "Sei que já existem bandas, formadas há dois ou
três anos, que começaram a tocar só por causa do Clube - gente que foi aos
nossos bailes, gostou e resolveu fazer igual. Tomara que consigamos abrir a
porta para pessoas diferentes chegarem e darem continuidade a essa
história", torce o guitarrista. "É um tipo de som que não depende de moda;
nós não tocamos samba-rock porque está na moda, mas somos a evolução do
estilo." A ajuda da gravadora Regata é fundamental neste processo, acredita
Mattoli. "O Bernardo Vilhena (diretor artístico do selo) é o diretor que eu
pedi a Deus", brinca o cantor do Clube do Balanço. "Vai ser difícil alguém
repetir em outra gravadora o que conseguimos com este disco do Clube. Poucas
pessoas teriam a coragem de dar o dinheiro e a liberdade que tivemos para
gravar este CD, que afinal de contas é um disco ousado - que traz o resgate
de um monte de artistas esquecidos, gente não-comercial. A Regata está
trazendo dignidade para a MPB, cumprindo o papel de valorizar o artista
negro. A música negra brasileira é um mercado rico e inexplorado", opina
Mattoli. Seu Jorge, Paula Lima, o grupo Classe e Ivo Meirelles - todos
contratados do selo de Vilhena - que o digam!
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