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Re: Wilson Batista não é brega |
From: Helion Póvoa (hpovoa@uol.com.br)
Date: Seg 03 Set 2001 - 03:58:09 GMT
Fernando, vãofazer uma coisa pracarmar a moçada. Não é brega não, é
"kitsch". Tá bão assim?
Helion
----- Original Message -----
From: "Fernando Toledo" <fernandotoledo@hobeco.net>
> Meus amigos,
> Vou demonstrar porque "Mãe Solteira" não é brega.
> "Mãe solteira" remete ao Naturalismo de um Aluísio Azevedo (notadamente de
> "O Cortiço", pelo ambiente em que se desenvolve), retratando, de forma
> concisa (e só esse quesito já a desqualificaria como brega) um drama
> social, relativamente comum à época (e nem tão distante assim: quando eu
> tinha seis anos, uma vizinha tomou cianeto peloes mesmos motivos).
> Breguice implica numa necessidade de lugares-comuns e pieguismo
> exacerbado. Tais elementos não se encontram em 'Mãe Solteira": a imagem da
> Maria da Penha rolando pela ribanceira não é brega´, é apenas
> dolorosamente real e precisa. Vamos dar um exemplo da mesma imagem,
> narrada pelo Odair José: "as chamas eram vermelhas como o sangue que
> jorrara de seu corpo quando seu namorado, um insensível cruel e sem
> coração, tirou sua pureza virginal. Ó pobre alma ingênua! Teve sua pureza
> maculada e em meio a sua dor, sabendo que não encontraria acolhida nos
> braços de Deus, nosso senhor, por seu nefando pecado, não teve outra saída
> a não ser tocar fogo a seu próprio corpo".Deu para sacar a dieferença?
> Wilson diz simplesmente, em oito versos: "Seu desespero/ Foi por causa de
> um véu/ Dizem que estas Marias/ Não tem entrada no céu/ Parecia uma tocha
> humana/ Rolando pela ribanceira/ A pobre infeliz/ Teve vergonha de ser mãe
> solteira". Dessas poucas linhas pode-se auferir todo o drama de Maria da
> Penha, a incompreensão por conta dos que a rodeiam, o preconceito da
> sociedade (um perfeito retrato da moral proletária da época), e o
> desespero advindo da própria negação a aspirar subir aos céus após sua
> morte: condenada em vida e mesmo após ela.
> Um exemplo de o que uma situação como a de Maria da Penha provoca em seu
> meio pode ser visto também em Amando Fontes (vide "Os Corumbas" e "Rua do
> Siriri") e em Marques Rebelo (vide a parte final de "A Estrela Sobe").
> Desta forma, Wilson traduz o imenso desespero em que se encontrava Maria
> da Penha quando de seu gesto desesperado.
> Musicalmente, pode-se observar o coro tristíssimo (parecendo um monte de
> carpideiras) do início da música, e a interpretação precisa de Roberto
> Silva dá o tom exato, sem resvalar nunca para algo tipo "ó, pobrezinha,
> não aguento essa história tão triste" - obviamente que o Wilson deu sorte
> do Peri Ribeiro não tê-la gravado:-).
> Na parte da "tocha humana", a música sofre uma modulação brusca, quase uma
> quebra direta da melodia desenvolvida, e o coro, acompanhando essa mudança
> de tonalidade, atua como se estivesse no interior da cabeça da
> protagonista, traduzindo muito bem o bruhaha babélico que devia estar
> soando lá dentro. Uma perfeição.
> Um retrato fiel de uma época; um personagem bem-delineado, com profundeza
> psicológica; uma melodia que consegue complementar esse todo; uma crítica
> social concisa e cortante, abrangendo desde setores do lúmpen até a
> própria ideologia ventilada pela Igreja.
> O que que tem de brega nisso?
> Um abraço,
> Fernando Toledo, colocando Wilson Batista em seu devido lugar, ou seja,
> entre os maiores gênios de nosso cancioneiro
>
>
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