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Wilson Batista não é brega

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From: Fernando Toledo (fernandotoledo@hobeco.net)
Date: Sáb 01 Set 2001 - 12:41:09 GMT


Meus amigos,
Vou demonstrar porque "Mãe Solteira" não é brega.
"Mãe solteira" remete ao Naturalismo de um Aluísio Azevedo (notadamente de
"O Cortiço", pelo ambiente em que se desenvolve), retratando, de forma
concisa (e só esse quesito já a desqualificaria como brega) um drama
social, relativamente comum à época (e nem tão distante assim: quando eu
tinha seis anos, uma vizinha tomou cianeto peloes mesmos motivos).
Breguice implica numa necessidade de lugares-comuns e pieguismo
exacerbado. Tais elementos não se encontram em 'Mãe Solteira": a imagem da
Maria da Penha rolando pela ribanceira não é brega´, é apenas
dolorosamente real e precisa. Vamos dar um exemplo da mesma imagem,
narrada pelo Odair José: "as chamas eram vermelhas como o sangue que
jorrara de seu corpo quando seu namorado, um insensível cruel e sem
coração, tirou sua pureza virginal. Ó pobre alma ingênua! Teve sua pureza
maculada e em meio a sua dor, sabendo que não encontraria acolhida nos
braços de Deus, nosso senhor, por seu nefando pecado, não teve outra saída
a não ser tocar fogo a seu próprio corpo".Deu para sacar a dieferença?
Wilson diz simplesmente, em oito versos: "Seu desespero/ Foi por causa de
um véu/ Dizem que estas Marias/ Não tem entrada no céu/ Parecia uma tocha
humana/ Rolando pela ribanceira/ A pobre infeliz/ Teve vergonha de ser mãe
solteira". Dessas poucas linhas pode-se auferir todo o drama de Maria da
Penha, a incompreensão por conta dos que a rodeiam, o preconceito da
sociedade (um perfeito retrato da moral proletária da época), e o
desespero advindo da própria negação a aspirar subir aos céus após sua
morte: condenada em vida e mesmo após ela.
Um exemplo de o que uma situação como a de Maria da Penha provoca em seu
meio pode ser visto também em Amando Fontes (vide "Os Corumbas" e "Rua do
Siriri") e em Marques Rebelo (vide a parte final de "A Estrela Sobe").
Desta forma, Wilson traduz o imenso desespero em que se encontrava Maria
da Penha quando de seu gesto desesperado.
Musicalmente, pode-se observar o coro tristíssimo (parecendo um monte de
carpideiras) do início da música, e a interpretação precisa de Roberto
Silva dá o tom exato, sem resvalar nunca para algo tipo "ó, pobrezinha,
não aguento essa história tão triste" - obviamente que o Wilson deu sorte
do Peri Ribeiro não tê-la gravado:-).
Na parte da "tocha humana", a música sofre uma modulação brusca, quase uma
quebra direta da melodia desenvolvida, e o coro, acompanhando essa mudança
de tonalidade, atua como se estivesse no interior da cabeça da
protagonista, traduzindo muito bem o bruhaha babélico que devia estar
soando lá dentro. Uma perfeição.
Um retrato fiel de uma época; um personagem bem-delineado, com profundeza
psicológica; uma melodia que consegue complementar esse todo; uma crítica
social concisa e cortante, abrangendo desde setores do lúmpen até a
própria ideologia ventilada pela Igreja.
O que que tem de brega nisso?
Um abraço,
Fernando Toledo, colocando Wilson Batista em seu devido lugar, ou seja,
entre os maiores gênios de nosso cancioneiro

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