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Disco novo de Ana de Hollanada |
From: Relton Fracaroli (relton_fra@hotmail.com)
Date: Sex 27 Jul 2001 - 18:55:34 GMT
Alguém aí pode fazer o favor de manietar o Waldemar?
Obrigado.
Segue abaixo matéria publicada hoje no jornal Valor sobre a Ana de Hollanda
e seu novo disco.
O link é esse aí. Abaixo está a íntegra da matéria.
[ ]s
R.
http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/materia.asp?id=749122
A volta tão simples de Ana de HollandaPor Jefferson Del Rios, Para o Valor
A cantora Ana de Hollanda, uma mulher bonita que consegue o feito de ser
discreta e intensa, está com disco novo, "Um Filme" (a ser lançado em
agosto). É a volta de uma personalidade forte da música popular brasileira
depois de seis anos de recolhimento. O disco alia amadurecimento vocal e
ousadia de criação. Ela venceu a compreensível timidez de quem é irmã de
Chico Buarque e gravou as próprias composições (sozinha e em parceria com
Jards Macalé e o violonista Kleber Costa).
A elegante presença de Ana consolida um grupo de artistas que combate à
sombra da massificação que banaliza até os melhores talentos. Eles não tocam
no rádio e nas aberturas de telenovelas, mas têm um público crescente que os
acompanha. Uma elite que não se mede socialmente (Cartola era um nobre) e
evoluiu das gravadoras quase invisíveis para selos bem administrados.
Na entrevista ao Valor, além de falar do seu canto suave e da estréia como
compositora, Ana de Hollanda relembra os tempos da casa de seu pai, o
historiador Sérgio Buarque de Hollanda. O casarão da rua Buri 35, no
Pacaembu, em São Paulo, era um centro de boemia e alta cultura.
Valor: " Tão Simples " , seu disco anterior, de 94, ainda está à venda. Como
você o ouve hoje?
Ana de Hollanda: Tenho dificuldade de analisar um trabalho meu com muita
objetividade. Gravei " Tão Simples " 15 anos depois do primeiro disco solo,
o LP " Ana de Hollanda " . Nesses anos, minha vida pessoal e profissional e
a situação do Brasil e da produção artística passaram por mudanças
imprevisíveis.
Valor: Era já um trabalho maduro, mas, em seguida, houve um silêncio de seis
anos até "Um Filme". Não é muito tempo?
Ana: Depois daquele primeiro LP com músicos, arranjos e produção de
primeira, repertório bom onde eu pude colocar minhas idéias sem imposições
da gravadora, eu não podia admitir um retrocesso.
Valor: Quais as ameaças desse retrocesso?
Ana: O que se apresentou em seguida foi o seguinte: ou se caía no esquema de
concessões aos grandes produtores, se sujeitando a se arriscar como um
produto temporário ou descartado; ou se produzia um disco "independente",
ficando depois com um problema de distribuição artesanal.
Valor: Qual então o seu caminho para romper o dilema e continuar coerente
com o seu projeto artístico?
Ana: Como eu tinha começado bem para meus padrões, recusei tanto as ofertas
do primeiro tipo quanto o movimento do segundo. Fiquei esperando outra boa
oportunidade e, enquanto isso, trabalhava em outras funções, sempre ligadas
à cultura. Isso, se por um lado me permitiu não fazer concessões na música,
me atrapalhou uma carreira, que ficou truncada, enquanto outros artistas que
se atiraram mais gozam hoje de um reconhecimento que me falta.
Valor: Esta produção espaçada é, então, atitude artística e o ao mesmo tempo
reflexo do mercado do disco?
Ana: O mercado não favorece quem tem uma personalidade que não está nos
moldes do marketing. E eu errei em não batalhar por uma fatia de mercado que
busca uma música mais elaborada. Nos últimos anos surgiram pequenas
gravadoras com muita coisa boa.
Valor: O que há de novo em "Um Filme" em termos de música e interpretação?
Ana: Acho que minha voz está amadurecendo, me sinto cada vez mais segura,
brinco mais com as divisões, e isso tem a ver com a interpretação, com a
intenção que quero dar à letra.
Valor: E, desta vez, você traz a novidade de cantar composições suas.
Ana: Sempre fiz algumas tentativas, mas a autocrítica era implacável. Aí o
Buarque de Hollanda pesava toneladas. Com a idade, a gente vai ficando mais
sem-vergonha, né? Resolvi não me cobrar o que não tem nada a ver comigo.
Mesmo não achando que fiz nada genial, gostei do que fiz e vou continuar.
Valor: Foi um salto de criação e um avanço emocional. Houve um momento
simbólico desta mudança?
Ana: No CD tenho três músicas de minha autoria. Uma música e letra e duas
letras. A que é só minha foi idealizada numa tarde de verão no início de
2000, quando olhava uma tempestade de granizo no meu jardim. O sol batia,
senti alegria de estar vivendo aquele início de milênio, e me veio uma
vontade de comemorar dançando, girando e me lavando de tudo de ruim que
havia passado. Dei o nome de "Girando Sob a Tempestade".
Valor: O processo de parceria é todo um aprendizado. Como foi o trabalho com
Jards Macalé, um amigo de muitos anos?
Ana: Fiz a letra de "Um Filme" para Macalé musicar. Acho mais fácil pôr
letra em cima de uma música. Ela me dá um caminho, nem que seja contramão.
Eu queria gravar alguma coisa inédita dele e ele não me dava. Insistia para
eu fazer uma letra, e aí eu fiz. É uma vivência ou, provavelmente, uma
fantasia de uma mulher, em que ela domina a história, abusa do seu direito
de decidir sobre a ficção que está em poder dela. Eu sou um pouco assim.
Valor: Macalé embarcou rápido na sua proposta?
Ana: Mandei um fax com a letra e fiquei esperando. Quando me mandou a música
letrada, ela cresceu, e virou um samba delicioso. Ele captou tudo, daí o CD
passar a se chamar "Um Filme".
Valor: Por falar em fantasias e em cantar: quem inspirou a sua formação como
cantora?
Ana: João Gilberto. Ele sabe "dizer" como ninguém. Na divisão, no tempo em
que dá para cada sílaba ele dá o sentido do que está dizendo.
Valor: As irmãs Buarque de Hollanda discutem suas carreiras, os discos de
cada uma ?
Ana: É claro que existe uma cumplicidade entre nós. Para fazer esse CD,
mergulhei no baú de Cristina, que é uma pesquisadora nata, tem o maior
prazer em descobrir preciosidades do nosso samba, choros, etc. Crescemos
juntas, mas ela é uma autoridade para mim. Miúcha é cúmplice.
Valor: Você conviveu sempre com quatro compositores/músicos excepcionais:
Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Vamos começar
por Tom Jobim, aquele homem bonito que encantava as moças da sua casa.
Ana: Bonito? Você já viu fotos dele antes dos 60 anos? Bem, vamos deixar
isso pra lá. A verdade é que quanto mais eu ouço Tom, mais gosto de música,
mais eu gosto do Brasil e mais eu gosto do Rio de Janeiro.
Valor: E Vinicius de Moraes, amigo de seu pai e de todos vocês?
Ana: Vinícius sabia falar como ninguém da utopia do amor. Ele era muito
musical, captava o sentimento da canção e a traduzia em emoção, em humor, em
tudo que nós gostaríamos de dizer.
Valor: Como a cantora Ana de Hollanda se relaciona com João Gilberto, uma
pessoa que parece distante e só aparece para cantar? Vocês discutem seu
trabalho?
Ana: Ele gosta de conversar com as pessoas. É o ajudante, o dentista, o
irmão, a filha, a ex-mulher, pessoas com sensibilidade e humor suficiente
para falar tanto de música quanto de futebol. Acho que ele vive tanto a
música que não quer ficar falando disso.
Valor: Agora, vamos à questão da sua relação com Francisco Buarque de
Hollanda. O Chico desde o começo, na rua Buri e nos Festivais de MPB.
Ana: O Chico era um dos meus irmãos. O mais novo e o mais próximo, talvez
por isso. Ele começou a compor e trabalhava sempre com as irmãs menores, que
faziam vocais.
Valor: Estamos falando das músicas de "Morte e Vida Severina" o lendário
espetáculo do Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), dirigido,
em 1965, por Silnei Siqueira?
Ana: Sim. As composições para corais do espetáculo eram feitas conosco. Ele
elaborava um desenho vocal para cada uma. Chico virou um ídolo nacional e
daí pra diante a vida de cada um mudou. Às vezes tenho que me esforçar para
separar o irmão do artista genial. Acho que isso é um problema para todos
nós da família e deve ser um problema para ele também. Nunca conversamos
sobre isso.
Valor: O grande intelectual Sérgio Buarque de Hollanda era um homem musical,
não é?
Ana: Papai adorava música popular. Ele conheceu Ismael Silva, Donga. No Rio
de Janeiro, nos anos 30, freqüentava o Café Nice junto com Manuel Bandeira e
outros, e lá cruzava com toda essa gente. Gostava muito de Noel mas cantava
mesmo o Ismael. Fora isso, cantava tango em alemão e tocava samba no piano
em ritmo de valsa .
Valor: Você deve ter ótimas lembranças dos saraus e festas familiares.
Ana: Os anos de adolescência na Rua Buri foram um privilégio. Era tudo muito
natural, sem luxo. Meus pais tinham uma roda de amigos divertidos, cultos,
inteligentes, mas com humor e percepção suficientes para não levarem para lá
nenhum pedantismo. Essa roda foi sendo incorporada pelos amigos dos filhos,
estudantes, artistas, boêmios e figuras folclóricas sem profissão definida.
As pessoas iam chegando, quem passava em frente e via aquele movimento já ia
entrando. Quando nos dávamos conta, já tinha um violão, cantoria e rolos em
cada canto: namoros a serem resolvidos, discussões políticas, música,
bêbados passando mal e mamãe administrando isso tudo com a maior elegância.
Valor: O curioso é que no meio desta gente estavam algumas grandes figuras
da intelectualidade brasileira.
Ana: As festas mais certas eram as do aniversário do papai, em 11 de julho.
Lembro de uma em que a miscelânea ia de Mário Schemberg, Florestan
Fernandes, Flávio de Carvalho, Caio Prado Júnior e Nélson Cavaquinho.
Valor: Você tem também uma carreira de administradora e organizadora
cultural em vários lugares, do Centro Cultural São Paulo à Prefeitura de
Osasco.
Ana: Sempre me interessei por outras atividades culturais e me interesso até
hoje. Eu também tinha uma militância política e acreditava que poderia
contribuir de alguma forma na área cultural com um projeto renovador dentro
da administração pública. Era a velha utopia romântica. Eu era militante do
Partido Comunista Brasileiro.
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