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Jorge Aragão

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From: Euclides M. Amorim (euclides@cienciashumanas.pro.br)
Date: Qui 05 Abr 2001 - 12:10:13 GMT


Leiam notícia publicada em no. sobre Jorge Aragão.

Abraços,

Euclides M. Amorim
euclides@cienciashumanas.pro.br

[ 05.Abr ] Uns dois anos atrás, quando estava no auge a praga do neopagode
ou do samba mauriçola -
aquele sambinha light direcionado ao gosto médio de São Paulo, estado natal
de quase todos aqueles grupelhos clonados - vi-me com uma música cuja refrão
era "a mina de féééé, a mina de fééééé" grudada qual chiclete no ouvido. Não
sabia quem a cantava, depois soube e felizmente esqueci. Não faz diferença.
Hoje a moda passou, a fórmula se exauriu e, tirando um ou outro nome mais
consistente, como Leandro Lehart e seu Art Popular, tem neopagodeiro mudando
de emprego. Outro dia, porém, repetiu-se o grude. Dessa vez, porém, o autor
do pagode (sem "neo" na frente) era conhecido: Jorge Aragão.

Aragão não é nenhum Salgadinho. Tem estrada, currículo, talento. Foi membro
do seminal grupo de pagode Fundo de Quintal - por sua vez nascido do bloco
de carnaval Cacique de Ramos - e compositor valorizado por gente do porte de
Beth Carvalho, que gravou "Coisinha do pai" (dele, de Almir Guineto e de
Luiz Carlos da Vila) e "Vou festejar" (dele, Dida e Neoci). No entanto, eu
mal sabia o que ele estava fazendo no momento. Meu último contato fora com o
disco "Sambista a bordo", de 1997. No entanto, lá veio aquela música, da
qual eu não consegui guardar nem nome nem refrão, apenas um lindo caco de
melodia enterrado na memória. Primeiro, ouvi no toca-fitas de um táxi,
depois no rádio do porteiro, então num especial de Aragão na Rede
Bandeirantes e no programa da Hebe Camargo... Neca de nome, porém. Apenas
uma grande canção sem letra, por conta de uma incapacidade congênita de
memorizar letras (como eu gostaria de cantarolar "Luiza"!).

Até por conta do público cantando junto, ela certamente estava num dos dois
discos ao vivo que Aragão lançara, em 1999 e 2000. Mas... qual dos dois?
Provavelmente no mais recente, devido à lógica implacável da execução
rádio-televisada. Porém, havia uma questão de ordem: sou incapaz de comprar
um "volume dois" antes de um "volume um". É meio neurose, meio respeito pela
intenção do artista. Lá fui eu, então, atrás de "Jorge Aragão ao vivo"
(1999). Era um grande disco, tão grande que nem a estranha versão levada no
seu famoso cavaquinho da "Ave Maria" de Gounod, incluída como faixa bônus,
conseguia diminuir. Tinha faixas bem, bem legais, como "Loucuras de uma
paixão" (de Ratinho e Mauro Diniz, que eu já conhecia de "Sambista a bordo")
ou "Enredo do meu samba" (parceria de Aragão com dona Ivone Lara). Tinha
ainda "Coisa de pele" (com Acy Marques) e o épico negro "Identidade". Não
tinha, contudo, a "minha música"...

E lá fui eu de novo, atrás de "Jorge Aragão ao vivo 2" (2000). Sem erro. Lá
estava ela, logo a primeira faixa: ""Eu e você sempre, dele e do violonista
Flávio Cardoso. O modo como a platéia grita de contentamento quando
reconhece e empolga os primeiros versos ("Logo, logo, assim que puder, vou
telefonar/ Por enquanto tá doendo/ E quando a saudade quiser me deixar
cantar/ Vão saber que andei sofrendo/ E que agora, longe de mim/ Você possa
enfim ter felicidade") amolece qualquer coração ou cintura. Não que os
sambas de Aragão sejam "pra dançar": são quase baladas, com um andamento
lento e pesado que nada tem a ver com o galope entreouvido nos sambódromos
de todo o Brasil. Quase todos falam de amores que ou estão apenas na
fantasia ou, mais comum, acabaram de acabar, deixando toda sorte de coisas
por dizer. Aragão diz tais coisas e os espectadores se derretem. A
participação deles no disco inteiro torna tudo mais bonito e coerente: ambos
os discos têm aquele jeitão de reunião de fundo de quintal, de pagode - sem
a vulgarização, a suavização e a pasteurização imposta pelo padrão FM dos
neopagodeiros paulistanos.

Além de um senso melódico formidável, Aragão tem um vozeirão encorpado,
adequado à veracidade de seus sambas dor-de-cotovelo. Há um momento no
"volume 2", na introdução de "Logo agora", em que ele joga um pouco de
confete sobre o público aos seus pés: "Cinqüenta e um anos de idade... Eu
vivi pouco, eu conheço pouco ainda... Eu queria saber amar como vocês." Pois
trata-se justamente do contrário. Ele parece ter vivido muito, sofrido pra
caramba. Não importa que seja tudo "apenas" criação artística - Aragão
parece ter passado por aqueles desencontros e, graças a isso, estabelece uma
tremenda empatia com o ouvinte. Ao contrário, por exemplo, dos discos que Zé
Renato tem consagrado ao samba: tecnicamente perfeitos, de extremo bom gosto
na seleção de repertório e na interpretação, falta-lhes essa
"autenticidade". Assim como não dá para cantar blues sem raspar a alma e a
garganta, também não dá para cantar samba sem suar.

Em "Eu e você sempre", Aragão sua em bicas metafóricas. Mesmo que a letra
tenha algumas imagens meio desconcertantes ("Ontem demorei pra dormir/ Tava
assim, sei lá/ Meio passional por dentro") ele tem o show na mão. Tanto que
no meio da música se regozija: "Coisa boa é poder cantar assim..." E assim,
com os vocais de apoio do público, ele sai enfileirando "Papel de pão" (de
Cristiano Fagundes), "Já é" (de novo dele com Flávio Cardoso), "Só por um
momento", "Reflexão" (com Luiz Carlos da Vila), "Malandro" (seu clássico com
Jotabê) "Resto de esperança" (com Dedé da Portela)... Para fechar com um
pot-pourri consagrador de "Coisinha do pai/ Vou festejar". "Jorge Aragão ao
vivo 2" é melhor do que "Jorge Aragão ao vivo" não apenas pela qualidade
média dos sambas, não só pela ausência de uma "Ave Maria" mas também porque
o encarte da Indie Records foi mais bem cuidado, trazendo letras e cifras.
Dá para fazer um pagode caseiro. Mas o melhor mesmo é deixar o próprio
Aragão cantar as suas e as nossas mágoas. "Não sei como aconteceu/ Dava tudo
pra saber..."

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