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[S-C] O samba passeia bonito do Irajá a Oswaldo Cruz em CDs de bambas - O Globo

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From: Luis Fernando Marques-Santos (marques-santos@uol.com.br)
Date: Ter 02 Jan 2001 - 09:15:45 GMT


Publicado no "O Globo" de 02 de Janeiro de 2001

O samba passeia bonito do Irajá a Oswaldo Cruz em CDs de bambas

De letra e música Nei Lopes

Uma geografia popular Marquinhos de Oswaldo Cruz

Dirley Fernandes

Nei Lopes é do Irajá; Marquinhos, de Oswaldo Cruz. O primeiro se fez
compositor na década de 60; o segundo abraçou a vocação nos anos 80. De
resto, o salgueirense e o portelense têm muito em comum: a luta pela
valorização da cultura negra, a opção pelo samba como forma preferencial de
expressão e muito talento para letra e música. "De letra e música", aliás, é
o nome do novo CD de Nei Lopes, no qual o bamba recebe convidados como Chico
Buarque, João Bosco e Martinho da Vila. Já Marquinhos de Oswaldo Cruz, com
"Uma geografia popular", finalmente faz sua estréia em disco.

"De letra e música" é uma retrospectiva da carreira de Nei, o que equivale a
dizer que alguns dos sambas mais importantes dos últimos 30 anos estão no
CD. As parcerias com o venerável Wilson Moreira, inspirado compositor e
funcionário do Desipe, ocupam boa parte do repertório. Wilson canta em
"Senhora liberdade", que tem belo contracanto de Zé Renato. Três sambas
nostálgicos foram reunidos num pot-pourri: "Goiabada cascão", "Coisa da
antiga" e "Tempo do Dondom" - esse último composto sem o auxílio de Wilson.

O saudosista Nei Lopes costuma expressar tal sentimento: "O que hoje se diz
que é xerox, chamava-se então de cópia fotostática" ("No tempo de Dondom").
Homenagens são feitas a duas grandes damas do samba. "Senhora da canção"
(Nei Lopes e Cláudio Jorge) celebra Dona Ivone Lara e, por extensão, o
Império Serrano, a escola dos sambas bonitos. Em "Tempo de glória", o
religioso Nei Lopes abaixa a cabeça para Clementina de Jesus, com o auxílio
de outro cambona da cantora, João Bosco.

A melhor faixa do CD é o "Samba de Irajá" (Nei Lopes), que, além da
participação de Chico Buarque, tem o trombone brasileiro de Roberto Marques
emulando "Minha", de Cartola, na introdução.

Marquinhos de Oswaldo Cruz carece de uma apresentação mais formal. Nascido
no bairro que abriga a Portela, desde cedo ligou-se aos velhos bambas do
local, a ponto de Manacéia, o compositor de "Quantas lágrimas", ter sido
obrigado a deixar de freqüentar a loja de material de construção do seu pai,
que não queria que o filho virasse sambista. Líder comunitário ligado à
Igreja católica, fundou o movimento "Acorda Oswaldo Cruz" e organiza o
"Pagode do trem", em que os sambistas se apresentam nos vagões, de estação
em estação. O trem, a propósito, é um dos motes principais das composições
de Marquinhos.

"Uma geografia popular", que tem arranjos do craque Paulão, traz a
sonoridade do samba mais tradicional, sem uso de bateria e teclados e com
baixo acústico. Além das composições próprias - a melhor é mesmo o
partido-alto que dá título ao CD e já foi gravado por Beth Carvalho -
Marquinhos mostra sabedoria ao regravar clássicos não tão conhecidos como
"Enquanto a cidade dorme", parceria do portelense Jair do Cavaquinho com
outro Cavaquinho, o Nelson, e "Homenagem à Velha Guarda", de Monarco. Os
pontos fracos são a capa maltratada, e a parte vocal, captada em estúdio com
incompreensível desleixo.

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