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[S&C] Entrevista com Luciana Rabello

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From: Daniella Thompson (daniv@jps.net)
Date: Ter 30 Mai 2000 - 13:10:21 GRNLNDST


Entrevista Luciana Rabello

Minha família, minha origem

Nasci numa família do nordeste do Brasil, descendentes de espanhóis,
holandeses, alemães, portugueses, índios e negros. Uma típica família
brasileira... Pelo lado paterno, os membros dessa família eram
dedicados, na sua maioria, à farmacia (fórmulas, comércio, indústria
farmacêutica, etc.). Alguns advogados e poucos músicos. Entre esses
poucos, meu avô. Boêmio, violonista. Não o conheci.Chamava-se
Flaviano Lins Rabello. Pelo lado materno, uma família toda de
repentistas e músicos. Otacílio Baptista é o mais famoso dos
repentistas da família. Há muitos outros. Meu avô José de Queiroz
Baptista, era professor de música, violonista e chorão. Morávamos na
mesma casa e ele foi meu primeiro ( e único) professor, como é
tradição na família. Aprende-se em casa. Todos os Baptista eram
auto-didatas, como eu sou. Eram letrados, falavam muitas vezes mais
de um idioma, mas em geral não tinham estudo acadêmico. Com este avô
comecei aprender violão, aos 6 anos.

Que música eu ouvia na minha infância

Muito choro, muita música nordestina e folclórica, muito samba e
música erudita.

Os Carioquinhas

O conjunto foi formado em 1975 por iniciativa de Raphael Rabello e de
Luciana Rabello. A gente já tocava desde muito pequenos. Eu comecei
tocando violão, aos 6 anos, e estudei 5 anos de piano clássico, e
Rapahel foi sempre o violão. Nosso avô materno era violonista de
choro e ensinou as primeiras notas a todos os netos que se
interessaram. Choro para nós não era novidade, pois fomos criados
nesse ambiente. Mas, não tínhamos amigos da nossa idade que gostassem
desse tipo de música. Éramos considerados uns "e.ts." Choro era coisa
de velho... Em 1975, conhecemos o conjunto recém formado, o Galo
Preto. Raphael tinha 12 anos e eu 14. Ficamos amigos e começamos a
frequentar as rodas de choro da casa do Afonso Machado - bandolinista
e líder do grupo. Eu ia tocando violão, não tocava cavaquinho ainda.
Raphael conheceu o Déo Rian, bandolim do Época de Ouro, que ficou
impressionado com ele e mandou que ele fosse ser aluno do Meira, o
grande mestre do violão que tocou no Regional do Canhoto e foi mestre
do Baden Powell. Além das aulas do Meira, eu e meu irmão passávamos
horas tocando com os discos de choro, imitando e aprendendo com as
gravações dos mestres, sobretudo do Regional do Canhoto e do Jacob do
Bandolim.
Ficamos com a idéia fixa de fazer um conjunto. Conhecemos o Paulinho
do Bandolim, o Théo(violão de 6), e o Mário (pandeiro). Faltava o
cavaquinho. Raphael, sem a menor cerimônia, pediu que eu deixasse o
violão de lado e tocasse o cavaquinho para poder formar o grupo, pois
não tinha mais ninguém :-) Grande decisão de um visionário...

Começamos então a ser convidados para várias reuniões de música onde
conhecemos todos os nossos ídolos do choro: Dino, Canhoto, Altamiro,
Waldir Azevedo, Abel Ferreira. Todos foram muito carinhosos e nos
"adotaram", cercando de carinho e conselhos. Muitos se emocionavam ao
nos ver tocar, pois o Choro era mesmo coisa de velhos e parecia que
acabaria com eles. Na casa do Meira, Rapahel conheceu o Meurício
Carrilho, que também era aluno do Meira. A aproximação foi inevitável
e Maurício entrou para o conjunto no lugar do Théo. Conhecemos o
clarinetista Celso Cruz e o Celsinho do Pandeiro, que também se
juntou a nós.

Numa roda de choro conhecemos Lygia Santos, filha do lendário Donga,
que nos encaminhou no primeiro trabalho profissional. O grupo não
tinha nome. Lygia ficou muito entusiasmada, chorava todas as vezes
que nos ouvia. A gente não entendia bem... Ela trabalhava num orgão
oficial de cultura do Rio de Janeiro, e nos levou até seu chefe, o
comandante Martinho, que tambem ficou impressionado com aqueles
meninos e resolveu nos dar trabalho. O primeiro trabalho
profissional. Era o ano de 1976, e lembro da corrida de todos para
tirar carteira da Osdem dos Músicos, etc.:-) Nosso primeiro show foi
nesse mesmo ano, na Quadra da Escola de Samba Mangueira, onde tocamos
no mesmo show que tocou o Época de Ouro, o Waldir Azevedo, o Copinha
e o Quinteto Villa-Lobos. O nome foi dado pelo próprio Comandante
Martinho -- Os Carioquinhas.

A partir daí, recebemos vários convites de gravadoras para gravar
discos. Todos queriam explorar a imagem dos "meninos prodígios", mas
nenhuma delas estava interessada em Choro. Queriam que a gente
gravasse Rock em ritmo de Choro. :-( Imagina... Acabamos gravando
pela Som Livre, pois foi aonde tivemos a melhor proposta. Conseguimos
gravar o repertório que queríamos e ela nos prometeu uma boa
divulgação pela TV Globo, etc, que claro que não aconteceu. No
estúdio onde estávamos gravando esse disco, conhecemos o maestro
Radamés, que gostou muito do grupo e mandou que estudássemos
harmonia. Ficou muito impressionado com Raphael, como todos ficavam.
Ganhamos projeção a partir de então, e muitos trabalhos apareceram.
Mas, brigávamos muito. Afinal, éramos adolescentes, quase normais :-)
Quando as brigas chegaram no limite (1978), o conjunto acabou.
Sabendo disso, Joel Nascimento nos convidou para tocar [a suite
"Retratos"] para bandolim e orquestra do Radamés Gnattali, que ele
havia pedido ao próprio Radamés uma versão para bandolim e pequeno
conjunto, aconselhado por Raphael. Radamés escreveu a versão, mas
disse que aquilo não ia ficar bom... Ele não acreditava que um
conjunto de choro desse conta. Joel pegou então a base dos
Carioquinhas e começamos a ensaiar. Ensaiamos o concerto e fomos
apresentá-lo ao maestro na festa de aniversário dele, em 27 de
janeiro de 79. Radamés ficou entusiasmado e resoveu escrever outros
arranjos para o grupo e ele próprio disse que queria tocar com aquela
formação. Hermínio Bello de Carvalho estava nessa festa e organizou
aquilo que ele viu acontecer na sua frente. Criou-se assim, a
Camerata Carioca, que batizada e impulsionada profissionalmente pelo
Hermínio, estreiou para o público em agosto de 1979 num belo show
chamado Tributo a Jacob, que tambem foi gravado em estúdio.

Porque fiquei pouco tempo na Camerata Carioca

Fiz parte da primeira formação da Camerata Carioca, que na verdade
era a base do conjunto Os Carioquinhas (meu primeiro grupo) -- Eu,
Rapahel, Maurício e Celsinho -- acrescido do Joel e do João Pedro
Borges (violão de 6 cordas). Era preciso mais um violão para executar
os arranjos encomendados ao Radamés.

Saí por vários motivos, mas o mais importante era que havia cumprido
meu tempo naquele trabalho. Não concordava com muitos pontos de vista
da maioria do grupo, e saímos juntos -- eu, meu irmão e Celsinho
Silva. Eu precisava caminhar sozinha. E foi o que fiz.

O que fiz depois da Camerata

Trabalhei com muitos cantores e como solista em alguns projetos.
Trabalhei com Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Francis Hime, Chico
Buarque, Martinho da Vila, Baden Powell, Toquinho, Copinha, Abel
Ferreira, e mais uma dezena de outros artistas, como músico de
estúdio e, algumas vezes de shows. Viajei para europa em 2 tournées
de 3 meses de duração cada uma, durante dois anos seguidos (81 e 82).
Recebi muitas propostas para gravar disco solo, tanto no Brasil como
na europa, mas não assinei nenhum. Os interessados queriam que eu
gravasse o óbvio: Brasileirinho, Tico-tico no Fubá, Doce de Côco,
etc. Não me interessei e preferi seguir outro caminho, que anos mais
tarde, veio ser a Acari. As gravadoras tinham interesse em explorar o
fato de ser uma mulher tocando cavaquinho, dando um enfoque quase
sensual ao meu trabalho. Sempre achei isso ridículo, e não aceitei as
propostas financeiramente tentadoras. Em 1985 me casei com Paulo
Cesar Pinheiro, com quem tenho 2 filhos. Dei um breve intervalo na
vida profissional para o nascimento das crianças e durante a primeira
infância de ambos, que nasceram em 85 e 87, respectivamente -- Ana e
Julião.

Quando comecei a compor

Desde os 13 anos aproximadamente. Mas, só tive coragem de mostrar
minhas músicas aos 16/17. Ganhei maior confiança bem mais tarde. As
primeiras composições foram esquecidas.

Colaborações com Cristovão Bastos

Conheci o Cristovão há mais de 20 anos (78/79). Ele tocava com o
Paulinho da Viola e nós gravamos juntos algumas vezes. Em 79/80,
trabalhamos num disco da Cristina Buarque e em seguida num show dela
com Elton Medeiros, no Teatro Clara Nunes, no Rio. Cristovão não
tinha piano em casa, e costumava chegar muito cedo no teatro para
estudar/tocar. Ele pedia que eu chegasse mais cedo pra gente
aproveitar o piano. Cristovão já ia muito na minha casa e não sei
explicar como, mas ficamos "velhos amigos" muito rápido. Mas, eu
tambem não tinha piano, e ele tocava violão nessas vindas à minha
casa. Não precisávamos falar muito nem pra nos comunicar nem pra
tocar. A partir daí todas as vezes que ele precisava de cavaquinho
nos seus arranjos, mandava me chamar. Até hoje é assim.

Eu, Raphael e Amelia morávamos juntos e na nossa casa (como até hoje)
a música mandava. A gente tocava/ouvia quase o tempo todo. Éramos
muito alegres tambem. Ríamos muito, à toa, o tempo todo. Não sei de
quê, pois as dificuldades eram muitas ($$) ... Mas, o ambiente era
cheio de vida. Todos os amigos gostavam de vir à nossa casa. Lembro
do Luizão Maia, do Wilson das Neves, do Guinga (este por pouco
tempo). Mas, Cristovão era o mais presente. Chegava sem precisar
marcar. Depois que Raphael se casou (81), eu e Amélia mudamos para
um apt. menor, e ele continuou vindo sempre. Tomávamos muito chá de
boldo (planta medicinal brasileira usada para os males do
fígado/digestão), e não bebida alcóolica (estranho isso...). O bom
humor era contagiante :-))

O "assunto" principal era tocar. Não sei explicar o processo de fazer
música, mas é sempre muito fácil. É só começar a tocar que aparecem
as idéias. Ás vezes dele, ás vezes minha. A primeira música que
fizemos foi "Queixa Antiga" ( está no meu disco). O Cristovão tinha a
primeira parte pronta há anos, e não saía a segunda. Ele me mostrou e
a segunda parte saiu de uma vez, inteira. Ficamos animados e fizemos
várias. As outras misturadas: todas as partes juntos, como numa
conversa, onde um responde a frase do outro, entende?

Até hoje é muito prazeroso tocar com Cristovão. É a mesma sintonia
que tenho com Maurício Carrilho e que tinha com meu irmão Raphael.
Amelia e Cristovão namoraram, se casaram e em 95 nasceu o filho
deles -- Miguel, que é afilhado meu e do meu marido (Paulo Cesar
Pinheiro). Eles não estão mais casados, mas continuam amigos.

Eu e Cristovão não temos mais tempo pra passar aquelas tardes todas
tocando, infelizmente. Mas, sempre que nos encontramos a sintonia se
apresenta. Se tivéssemos mais tempo...
Gosto muito desse amigo e tenho poucas oportunidades de falar dele. E
ainda não falei nem a metade.

Minhas maiores influências musicais
(ed: A primeira parte junta respostas que Luciana fez a minha
pergunta e a do Fernando Novaes Duarte no site Bandolim.)

No meu instrumento os mestres Canhoto (por quem fui apontada como
sucessora) e o Jonas, cavaquinho do Época de Ouro e o preferido do
Jacob do Bandolim. Passava horas intermináveis tocando junto com os
discos que tinham gravações de ambos, até conseguir tocar igual...
Todos começamos imitando alguém a quem admiramos e depois vamos
traçando nosso próprio caminho. Não há jeito de ser diferente. Graças
a Deus, eu soube escolher bem a quem imitar (risos) Melhor ainda foi
ouvir isso do próprio Canhoto. O que acontece, é que ele era uma
pessoa que tinha um modo muito próprio de definir/explicar as coisas.
Acho linda a maneira que ele encontrou de me dar força. Ele dizia:
"Garota, você é quem melhor me imita!" Sim, porque muitos tentavam
imitar o Canhoto, o que é de se esperar que aconteça com um mestre
como ele, que criou uma escola de cavaquinho de acompanhamento. O
mesmo aconteceu (acontece) com o Dino, com o grande Meira, com o
Jorginho do Pandeiro, com o Jacob do Bandolim e com alguns outros
monstros sagrados que acabam virando mesmo referência do seu próprio
instrumento. Isso é prova de competência. Mas o Canhoto não era tão
auto-referente assim... No meu caso, ele ficava feliz de me ver
aprendendo com ele. Hoje entendo o que ele sentiu. Começo a sentir
também. É uma necessidade de ver o trabalho, ao qual dedicamos a vida
toda, ter continuidade. Isso dá ânimo e muita alegria. O Jonas me
abençoou de outra forma: compôs um choro delicioso -- o "Manga Rosa"
-- e me dedicou. Este choro está gravado nesse meu disco lançado
nesta primeira safra da Acari Records. Tive o aval dos dois
cavaquinistas que mais admiro, e que foram as grandes referências no
meu aprendizado como auto-didata. Fico muito feliz, claro, mas isso
também significa muita responsabilidade.

Como influência musical de modo geral, muitos outros e de formas
diferentes. Ouvia e ainda ouço muito: Dos brasileiros -- Ataulpho
Alves, Geraldo Pereira, Luiz Gonzaga, Jakson do Pandeiro, Jacob do
Bandolim, Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Francis Hime, Elizeth
Cardoso, Vadico, Moacir Santos, Custódio Mesquita, Cartola, Nelson
Cavaquinho, Villa-lobos, Ernesto Nazareth, Canhoto da Paraíba,
Radamés Ganattali, Paulinho da Viola, Clementina de Jesus. (A
bossa-nova passou por mim sem eu perceber. Ela surgiu em fins dos
anos 50 e eu nasci em 61. Comecei a tocar profissionalmente em 76.
Nunca gostei de bossa-nova. Não me diz nada até hoje. Gosto das
matrizes :-) Dos estrangeiros: Astor Piazzola, Segóvia, Gershwin,
Bill Evans, Billie Holiday. Dos eruditos: Chopin, Brahms, Bach. Os
grandes mestres. Estudei 5 anos de piano acadêmico. Não me serviu de
nada como instrumentista, mas me ensinou a ouvir os mestres.

Como surgiu a idéia da Acari

Surgiu depois da idéia de construirmos um estúdio. Depois dele
pronto, eu e Maurício, que fomos os maiores investidores do estúdio,
pensamos no que faríamos com os discos gravados lá. As gravadoras
continuam sem interesse por esse tipo de material, mas sabemos que
há um bom público pro Choro. Resolvemos dar um passo maior, e fizemos
a Acari Records.

Que músicas mais gosto do meu disco

Todas :-)) Mas, De Bem Com a Vida, Velhos Chorões, Flor de Sapucaia,
Flor de Sapucaia, Queixa Antiga... Não dá, são todas :-))

O que eu penso sobre o futuro do Choro

Não penso. Eu faço:-) Acho que depende de nós músicos e de
empreendimentos como a Acari, por exemplo.

-- 
Daniella

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