Voltar para a página principal do site

[S&C] Entrevista com Mauricio Carrilho

Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

From: Daniella Thompson (daniv@jps.net)
Date: Ter 30 Mai 2000 - 12:28:24 GRNLNDST


Minhas perguntas são em inglês, mas as respostas do Mauricio estão
suficientes pra entender o contexto.

1. Your early background (childhood, family, etc.).

Venho de uma familia de músicos. Meu bisavô fundou, em Santo Antônio
de Pádua (interior do RJ), uma banda de música. Isto aconteceu no
início do século XX. Nesta banda tocaram cinco de seus filhos: (Raul
- trompete e trombone, Rodolfo - clarinete e requinta, Dario -
saxofones, Homero - tuba e Messias que tocava requinta e regeu a
banda por mais de 60 anos). Minha avó estudou piano e teve oito
filhos dos quais só meu tio (Altamiro Carrilho) e meu pai (Alvaro
Carrilho) seguiram a tradição musical da familia e tocam flauta.
Minha infância foi ótima. Muito futebol e muita música. Meu pai
organizava times de futebol de crianças e rodas de choro. Meu irmão,
César Carrilho, é muito bom de bola. Chegou a jogar o primeiro
Campeonato Mundial de Futebol Indoor (em Budapeste, Hungria) pela
seleção brasileira. Eu era um zagueiro meio violento e me dei melhor
na música.

2. What music (specifically) did you hear as a child? (Some examples
> of composers, compositions, and performers.)

Eu ouvia basicamente musica brasileira. Choro (os discos do Altamiro)
Samba (ouvi muito o Roberto Silva), alguma coisa de Classico e Jazz
também.

3. With the flute tradition in your family, why did you choose the guitar?

Uma vez, eu tinha quatro anos de idade, estava passeando com o tio
Altamiro e parei diante de uma vitrine onde havia um violão. Altamiro
me perguntou se eu gostava de violão, eu respondi que sim. Quando fiz
cinco anos ele me deu um violão de presente que eu guardo até hoje
com muito carinho.

4. How old were you when you began to play, and who taught you?

Minha primeira aula de violão foi em dezembro de 1966. Eu tinha nove
anos. Meu primeiro professor foi o Dino. Estudei com ele durante um
ano. Depois fui estudar com o Meira, que eu considero meu grande
mestre. Com ele, além do instrumento eu pude ter uma visão mais
profunda da música. Tive grandes lições de vida com o Meira.

5. When and how did you start Os Carioquinhas?

Em 1976, no "Sovaco de Cobra", um bar localizado na Penha que era
ponto de encontro de todos os chorões do Rio de Janeiro, conheci
Rafael e Luciana Rabello. Quando tocamos juntos pela primeira vez,
parecia que nos conhecíamos há anos. Rafael tinha 14 anos, Luciana 16
e eu 19. O Rafael falou a seguinte frase - "Eu toco igual o Dino,
minha irmã igual o Canhoto e voce igual o Meira. Nós vamos formar o
melhor Regional da nossa geração". Eu achei muito engraçada a
profecia daquele
garoto, mas ela acabou acontecendo. Eu ingressei nos Carioquinhas e
abandonei a faculdade de medicina. Gravamos nosso disco no ano
seguinte e me tornei músico profissional pelas mãos de Rafael e
Luciana Rabello.

6. Your experiences with Camerata Carioca.

A base dos Carioquinhas foi convidada pelo Joel Nascimento, que então
já era considerado o mais importante bandolinista do Brasil, para
formar um grupo e tocar a suite Retratos do Radamés Gnattali. Os
componentes eram: Rafael, Luciana, Celsinho (pandeiro) e eu. O Joel
convidou ainda o Luiz Otávio, violonista do grupo Galo Preto. Aí
surgiu o Herminio Bello de Carvalho, que nos ouviu tocar
informalmente num aniversário do Radamés, e idealizou e dirigiu o
espetáculo "Tributo a Jacob do Bandolim". Neste espetáculo eu toquei
pela primeira vez com Radamés, dia 11 de agosto de 1979, em Curitiba.
Depois desta tournee de estréia, o Herminio nos batizou "Camerata
Carioca". O grupo gravou 3 discos, teve sua formação bastante
alterada mas cumpriu um papel importante na fixação de uma linguagem
camerística para a formação tradicional do regional.

7. When did you start to arrange music? When did you start to compose?

Em 1978 eu comecei trabalhar com a Nara Leão. Nos tornamos amigos e
ela me surpreendeu com um convite para que eu dividisse os arranjos
de seu disco com Roberto Menescal. Menescal era um consagrado
arranjador do movimento da Bossa Nova e eu nunca tinha escrito um
arranjo na minha vida. Ela insistiu no convite com um argumento
imbatível - "todo arranjador começa, um dia, fazendo seu primeiro
arranjo". Sua confiança acabou por me contagiar e eu me iniciei nesse
ofício.

Como compositor eu comecei mais cedo, com cinco anos. Compus uma
primeira parte de um maxixe que Altamiro completou e gravou com sua
bandinha em 1967. Mais tarde, estudando com o Meira, passei a compor
com maior frequencia, mas sem nenhuma pretenção. Quando comecei
trabalhar como músico, deixei de lado o hábito de compor, salvo
raríssimas incursões. Em 1989 conheci o poeta Paulo Cesar Pinheiro,
de quem eu já era fã desde sempre, e ele me cobrou que eu voltasse a
compor. Nos tornamos parceiros em mais de 40 músicas. Devo ao
Paulinho Pinheiro essa retomada. Hoje compor faz parte do meu dia a
dia.

8. What are your major musical influences?

Na música Brasileira: Radamés, Villa-Lobos, Pixinguinha, Nazareth,
Meira, Ari Barroso e Baden Powell. Adoro Bach, Piazzolla e Duke
Ellington também. No entanto acho que essas listas são sempre
injustas, acabamos esquecendo pessoas fundamentais na nossa formação.
Porém posso garantir que minha formação é essencialmente ligada à
música do Brasil.

9. What kinds of music do you listen to now?

Choro, Samba, Música Classica, Jazz, Tango, Flamenco e outros gêneros
que raramente frequentam as radios e TVs.

10. How did the Acari idea begin?

Não é bem uma idéia e sim uma necessidade. O Choro tem quase 140 anos
de existência e nunca teve uma gravadora para abrigá-lo com o devido
cuidado. Alguém, algumum dia teria que tomar a atitude que tomamos.
São mais de 15000 músicas sem gravação. Não dava mais pra esperar
pelos executivos marqueteiros da grande indústria fonográfica.

11. What do you think is the future of choro?

O Choro resistiu a epidemias pragas, duas guerras mundiais, golpes
militares, desprezo de todos os governos, pouco caso das gravadoras,
resiste ao massacrante processo de idiotização musical imposto pela
globalização do lixo cultural internacional e vai resistir a tudo. O
seu desenvolvimento é permanente e independe de valores impostos. O
Choro tem seus próprios parâmetros. Quem o conhece na intimidade não
se impressiona com vanguardismos pueris e nem se sente pressionado
por uma suposta necessidade de adaptação ao som da moda. O Choro
positivamente não é música pra principiantes.

12. Any special observations about Radamés, Elizeth, or anybody else
with whom you worked that you'd like to share with the readers?

Radamés foi músico genial. Compositor, arranjador e pianista fora do
comum. Como pessoa era muito simples. Nos tratava, apesar da
diferença de idade de quase 50
anos, como velhos amigos. Aprendi muito convivendo com ele. Elizeth foi uma
cantora fantástica. a maior que eu conheci, e de quem eu tenho também muita
saudade.

-- 
Daniella

__________________________________________________________________ Para CANCELAR sua assinatura nesta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/cancela Para ASSINAR esta lista: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/assina Confira as regras de ETIQUETA para tornar a lista cada vez melhor: http://www.samba-choro.com.br/tribuna/netiqueta


Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2b29 : Ter 30 Mai 2000 - 13:37:29 GRNLNDST