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[S&C] Entrevista com Alvaro Carrilho |
From: Daniella Thompson (daniv@jps.net)
Date: Ter 30 Mai 2000 - 12:22:39 GRNLNDST
A revista Brazzil acaba de editar meu artigo sobre Acari Records. O
artigo contem entrevistas com Luciana Rabello, Alvaro Carrilho,
Leonardo Miranda, e Mauricio Carrilho.
Já que o artigo foi escrito em inglês, resolvi mandar sa versões
originais prà lista.
Entrevista Alvaro Carrilho
Minha família é de Santo Antônio de Pádua, Estado do Rio de
Janeiro. É comum, nestas cidades do interior, famílias numerosas como
a minha. Meu pai era Octacilio Gonçalves Carrilho e minha mãe, Lyra
de Aquino Carrilho. Tiveram oito filhos que por ordem de nascimento
são: Marina (1918), Ondina (1920), Carlos Augusto (1922), Altamiro
(1924), Leda (1927), eu, Alvaro (1930), José Luiz (1932) e Renato
(1935). Meu pai era cirurgião dentista e gostava de ajudar as pessoas
menos favorecidas. Quando prestava serviços dentarios a estas pessoas
não cobrava ou recebia em troca mercadorias como arroz, feijão,
galinha, etc. Por isso, para aumentar a renda familiar minha mãe e
minhas irmãs mais velhas trabalhavam fazendo crochê, bordado e
costura. Com as dificuldades normais a minha infância foi vivida com
muita alegria e cercada de muito carinho, mas também com muitas
restrições em roupas caras, brinquedos etc. Mas em compensação,
usávamos a critatividade fazendo os nossos próprios brinquedos, que
eram admirados pela criançada da vizinhança.
Nesta época os sucessos musicais eram apresentados em
programas de rádio com os cantores Orlando Silva, Carlos Galhardo,
Silvio Caldas, etc mas havia também programas com música
instrumental: choro, maxixe, tango, fox, polca e valsas. Como não
tínhamos rádio, que era raro, ouvíamos os programas no rádio da
vizinha. Foi aí que me interessei pela música instrumental.
Na nossa cidade tinha uma banda de música fundada por meu avô
materno, Carlos Manso de Aquino, que era tão apaixonado por música
que ao nascer sua primeira filha deu o nome de Lyra. A banda também
se chamava "Lyra de Orion" e tocava no coreto da praça onde as
famílias da cidade se reuniam para ouvir e aplaudir.
Depois da morte de meu avô, a regência passou para o meu tio
mais velho, o "tio Messias". Os outros quatro irmãos da minha mãe,
também músicos, tocavam: Dario - sax tenor, Homero - tuba, Rodolfo -
clarinete, Raul - trompete. O Altamiro, ainda garoto, tocava caixa de
guerra nesta banda, de 1938 até a nossa vinda para São Gonçalo em
1941. Nessa ocasião meu irmão mais velho, o Carlos, servia ao
Exército e com o soldo recebido comprou uma flauta de bambu para o
Altamiro. Mais tarde, o Altamiro já trabalhando, conseguiu comprar
uma flauta de ébano e a de bambu ficou abandonada. Foi aí que eu me
apossei dela e comecei a tocar as primeiras músicas.
Em 1943 mudamos para o Rio de Janeiro no bairro de
Bonsucesso. Já no Rio o Altamiro foi trabalhar em uma farmácia no
centro da cidade e estudava música à noite. Foi quando formou seu
primeiro conjunto regional.
Em Bonsucesso eu já estava tocando músicas na minha
flautinha. De fronte a nossa casa morava o Welington, que tocava
violão e eu gostava muito de ouvi-lo tocar. Um dia tomei coragem e
levei a flautinha para tocarmos juntos. Ele gostou e formamos um
conjunto. Neste conjunto tocaram conosco Baden Powell, começando a
estudar violão com o Meira, Manoel da Conceição e Paulo Nunes.
Tocamos na Rádio Guanabara no "Programa do Guri". Acompanhamos neste
programa Claudete Soares e Helem de Lima, ainda meninas. A minha
primeira composição foi em 1948, um choro. Resultado das minhas
tocatas com o Welington.
Em 1949 fui prestar serviço militar na Aeronáutica no Rio e
seis meses depois fui transferido para Barbacena. Nesta cidade
conheci o Sr. Roldão que tocava banjo, solava muito bem e tinha um
regional. Fui convidado por ele para participar de uma roda de choro
com a flauta de bambu. E daí, passei, sempre que podia, a tocar com
este conjunto.
Em 1950 fiz um choro que batizei: "Chorando em Barbacena". Em
1951, terminei o serviço militar e voltei para o Rio. Fui trabalhar
em laboratório de produtos farmacêuticos e não sobrava tempo para
tocar flauta.
Em 5 de maio de 1956 me casei com Zélia Lana e fomos morar em
Copacabana. No dia 26 de abril de 1957 nasceu o Mauricio e em 13 de
outubro de 1958 nasceu o Cesar. Em 1965 mudamos para a Penha. Em 1967
o Mauricio começou a estudar violão com o Meira e eu já não tocava
mais. Em 1971 o Altamiro convidou o Mauricio para tocar com ele (só
flauta e violão) em um programa na TV Globo. Com o cachê que Mauricio
recebeu ele me convidou para comprar para mim uma "flauta de
verdade". Compramos o instrumento dos meus sonhos de criança. Mesmo
com o grande presente eu não tinha tempo para praticar e a flauta
ficou guardada. Em 1978 o Mauricio fez a sua primeira viagem ao Japão
e me trouxe dois presentes: uma outra flauta e um flautim, novinhos
em folha. Diante dos presentes passei a arranjar um tempinho para
exercitar.
Em 1981 me aposentei e consegui tempo maior para a flauta.
Sempre agulhado pelo Mauricio. Comecei então a tocar em bares,
teatros, praças, casas de família, etc.
Atualmente formamos um grupo de bons músicos, são eles: Indio
do Cavaquinho, Valter 7 Cordas, Caçula no violão, Valdir Mandarino no
pandeiro e eu na flauta. O ponto máximo da minha trajetória foi a
gravação do meu CD, com músicas minhas e algumas em parceria com
Altamiro, Carlinhos, Gerson Mesquita e Welington Santos.
Este trabalho de gravação foi feito com a orientação e ajuda
do Mauricio. Tive muito incentivo dos amigos que participaram das
gravações do CD, como músicos, do Altamiro e principalmente dos meus
filhos. Este CD foi gravado na Acari Records, sonho idealisado e
realisado por Mauricio e Luciana Rabello.
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