Voltar para a página principal do site

Veríssimo e as músicas da Globo

Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

From: Paulo Eduardo Neves (neves@EMAIL.COM)
Date: Ter 01 Fev 2000 - 15:07:57 GRNLNDST


Não dá para deixar de mandar esta crônica do mestre Veríssimo sobre as
músicas da Globo.

-------- Original Message --------
Subject: Coluna do Verissimo
Date: Tue, 1 Feb 2000 03:15:10 -0300 (GRNLNDST)
From: "Coluna do Verissimo" <neves@email.com>
Organization: http://samba-choro.com.br/s-c/politica/
To: "Assinantes da Coluna do Verissimo" <neves@email.com>

                        Coluna do Verissimo

 
[papel1.jpg] [papel2.jpg]
[coluna.gif]
 
1º/2/2000
Torturante band-aid
 
Mais fácil do que fazer uma lista das
melhores músicas brasileiras de todos os tempos é
criticar as listas dos outros. Assim você se livra
do esforço de memória e só entra para flagrar as
injustiças. O grande mérito da votação recente da
Globo, além do inventário valioso do nosso
patrimônio musical, foi esse: na cobrança das
omissões mas como, nada do Lupicínio?! se
descobriu que daria para fazer uma lista igual só
de esquecidos. Que a nossa fortuna é maior do que
nós mesmo sabemos. Foi como provar uma receita e
ficar dizendo o que falta para a perfeição: um
pouco mais de Cartola, um tiquinho mais de Chico
Buarque, outra pitada de Ismael Silva. Pois no fim
é tudo uma questão de gosto.
 
Para o meu gosto, por exemplo, ficou
faltando Ataulfo Alves.
 
Pois É é um grande samba. Aquele em que
ele diz que mulher a gente encontra em toda parte,
mas não se encontra a mulher que a gente tem no
coração. Pois é. Faltou Última Forma (do Paulo
César Pinheiro?), faltou o Antonico (de quem
mesmo?). E talvez mais algumas colheres de chá de
Edu Lobo, Carlos Lyra, Johnny Alf e (por que não?)
Roberto e Erasmo. Todas as do Tom Jobim que
entraram na lista mereciam estar lá, mas não
entrou a mais bonita, Inútil Paisagem. Na Baixa do
Sapateiro é melhor do que Aquarela do Brasil. E
onde estava aquela do Noel Rosa que diz o meu
samba está de luto, eu peço o silêncio de um
minuto? E o Lupicínio?!
 
Não dá para ter um concurso só de letras,
mesmo porque os cinco primeiros lugares teriam que
ser do Chico. Mas se poderia escolher algumas
frases, assim, revolucionárias do nosso
cancioneiro. Eu acho que alguma coisa aconteceu na
poética nacional quando, no Dois pra lá, dois pra
cá, dele e do João Bosco, o Aldir Blanc falou
naquela ponta de um torturante band-aid no
calcanhar da moça que gostava de uísque com
guaraná. O band-aid no calcanhar vale um compêndio
de sociologia suburbana e para explicar por que
ele é torturante você precisa, em primeiro lugar,
ser homem, e em segundo lugar não saber explicar
por que, só saber que é. Talvez não exista uma
expressão maior de perdição e desejo na música
brasileira.

                                             Luis Fernando Veríssimo

Coluna publicada na data 01/02/2000 em
http://www.zh.com.br/coluna/luisfv/pagina1.htm


Outros Meses Por Data Por Discussão Por Assunto Por Autor

Este arquivo foi gerado por hypermail 2b29 : Ter 01 Fev 2000 - 16:01:31 GRNLNDST