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Reportagem do O Globo critica pasteurização de produtores

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 12 de Novembro de 2002 
Assunto: Sítios pela Internet

Uma polêmica reportagem do jornal O Globo critica a pasteurização que os produtores musicais impôe a seus artistas. O exemplo maior da reportagem é o Rildo Hora e suas produções de Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e Martinho da Vila, mas também sobra pedrada para Cristóvão Bastos e Jaques Morelenbaum. Não deixe de conferir no final da página onde há dois links, um para um comentário do crítico Antonio Carlos Miguel e, o mais divertido, para duas músicas, uma do repertório de Zeca Pagodinho e outra do Dudu Nobre.

O que você acha disto? Mande ver, nosso democrático espaço para comentários aí embaixo está a seu dispor.

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Comentários dos leitores

Isso não acontece só com os arranjos, mas também com as músicas, vou dar um exemplo de clonagem harmônica, você pega a música "conselho" e com a mesma harmonia(sequência) acompanha "domingo" e mais umas dezenas, tem compositor superconhecido que simplesmente usa uma sequencia harmônica de uma música e "cria" outra, mudando um pouquinho a melodia, e quem pensa que isso é novo, preste atenção: "batuque na cozinha sinha num que pra mode o batuque eu quebrei meu pé" recolhido por Oneyda Alvarenga em Varginha em 1935 é um exemplo de samba rural anônimo, mas aparece o compositor e muda o "pra mode" para "por causa" a letra fica com características urbanas e o compositor registra em seu nome criando variações a partir do tema original, e mais melodias de sinhô que adorava o folclore, encontram muitas similaridades em sucessos dos sambistas citados como exemplo aponto "bemzinho" que aparece classificado como choro-modinha-brasileira. o buraco é mais embaixo!!!
osej
12 de Novembro de 2002 #

Abaixo envio uma cópia de uma resposta que remetí ao Globo:

Antes de mais nada, agradeço ter sido citado como um profissional "do mais alto nível" por Bernardo Araújo em sua matéria no Segundo Caderno.

Porém, me parece que uma "pasteurização" na obra de artistas vários, se ocorre, deve ser pesquisada mais a fundo, e não somente numa leitura superficial e ingênua.

As gravadoras são, a princípio, uma indústria que não hesita em solicitar a repetição de uma fórmula, supostamente responsável por um sucesso. O aspecto geral, o enfoque de um CD geralmente chegam a nós com solicitações visando um resultado final. E aos arranjadores, cabe traduzir isto em música. Com maior ou menor liberdade, temos sempre um artista e um produtor, enfim, uma gravadora, a quem submeter o trabalho.

Se interessa saber se este ou aquele músico está repetindo chavões, dê-lhe liberdade para criar, vá conferir em seu trabalho próprio, seu CD, suas composições.

E aí duvido muito da suposta "sacudida" que Cristóvão Bastos teria levado de Nana Caymmi, para mudar seus arranjos se quisesse continuar trabalhando com ela, conforme escreveu Antonio Carlos Miguel.
Primeiro, Cristóvão é, seguramente, um dos maiores arranjadores, compositores e pianistas do Brasil. Segundo, ele responde a solicitações profissionais quando assume qualquer CD para arranjar. Terceiro, não posso crer que Nana, com a qualidade artística que tem, ousasse se portar assim com um músico como ele. E, por último, para dar uma "sacudida" em Cristóvão Bastos tem que ter muito cacife.

Acho que no cenário musical brasileiro há muitos problemas, maiores e muito mais sérios que uma suposta "pasteurização" causada(?) pelos arranjadores.

Atenciosamente
Leandro Braga
Leandro Braga
12 de Novembro de 2002 #

Essa é uma questão recorrente da Historia da Musica, seja pela via dos compositores, seja pela via dos maestros, sempre nos deparamos com o problema da leitura das obras por outros tipos de agentes que não aqueles estritamente da criação. O cuidado que temos de ter é de não tomar um sintoma recorrente, como toda boa cronica de costumes com fortes referencias aos signos mais pregnantes de uma época, em nosso caso, o modo de organização dos discursos de Rildo Hora ou Cristovão Bastos, como anuncio da aniquilição da produção artistica, ainda que isso implique na destituição destes produtores à economia e ao mercado. Mesmo porque, sabemos pela historia, o problema da criação estética é menos um problema de ordem economico-politico-social do que de uma ética subjetiva que tem sempre a possibilidade de decidir, apesar de tudo e superando vaidades fantasmagoricas, por seu caminho livre e disposto efetivamente à ação criadora.
Erico Medronho
13 de Novembro de 2002 #

Acho a pauta excelente, mas penso que o reporter confundiu as figuras do PRODUTOR e do ARRANJADOR. Na minha opinião, o responsável por uma eventual padronização é o PRODUTOR, principalmente quando age - e, infelizmente, isso tem sido bem comum - como um desses executivos de gravadora, que acham que tem a chamada "fórmula do sucesso". Eu me lembro de ter ouvido uma vez, na Odeon, um produtor/executivo avisar a um arranjador que um determinado disco deveria ter um "padrão Barry Manilow". É mole ? O arranjador, como o músico, tem que engolir sapos na maioria das vezes, pois quem determina o conceito (?) do disco é o produtor e o próprio artista (quando tem bala). Aliás - só pra terminar - há artistas que também falam como executivos de gravadora.
Paulo Albuquerque - 15.11.2002
paulo albuquerque
14 de Novembro de 2002 #

do samba
por volta de 1911, Schoenberg, rompeu com o sistema tonal, achando que o sistema tonal estava esgotado, ou seja, para ele qualquer música composta tinha"cheiro" de Dó maior, hoje podemos compor no sistema modal, serial, atonal, dodecafônico, politonal,trabalhar com massas sonoras podemos fazer música eletrônica(não a comercial) mas a de Koenig, Stockhausen...; podemos chegar ao "DNA" do som usando os recursos atuais, podemos simplesmente criar uma bula e desprezar a notação, a barra de compasso, ou podemos continuar na música tonal.

nas aulas com Guerra Peixe, Alceu Boccino, Guilherme Bauer, Edmundo Vilanni, Edson Zampronha...; entre as lições que aprendi uma que não esqueci: não use cordas, mas se usar saiba que vai soar tradicional, mesmo uma peça de schoenberg.

a pouco tempo recebi partituras de rildo hora e ivan paulo pois eles fizeram arranjos para artistas que posteriormente procuraram os meus serviços para acompanhamentos em eventos e queriam os arranjos originais; posso afirmat que é fácil verificar o que é de rildo e o que é de ivan, é normal o arranjador se repetir, mesmo que ele esteja sempre estudando, inovando,eu mesmo escrevi um arranjo para o "ovo" de hermeto pascaol e tenho certeza que qualquer um que ouvir não vai lembrar de nenhum "grande arranjador, usei cordas, sopros, percussão, mas imprimi minha marca isso é normal, mesmo as "tonulações soam "originais". e mais se você ouvir minha "sonata brasileira" ou o "lamento do clarinete" que não é composto no sistema tonal, mesmo assim talvez sinta a minha identidade.
agora é interessante notar que o músico que conhece notação no meio do samba é chamado de "maestro" e que muitos sambistas achem bom não conhecer notação para não influenciar as composições, e assim com a mesma harmonia de "pelo telefone" é possível acompanhar sambas do ano 2002!!!interessante também e notar que enquanto o jazz que tem quase a mesma idade que o samba, virou música de concerto, enquanto o samba fica nesse ciclo samba-joião-pagode-newpagode-samba raiz.., enquanto isso a maioria dos jornalistas que escrevem a respeito de música não a conhecem com profundidade; o que não é nenhum pecado pois a maioria dos músicos e até os filósofos como diderot, rousseau que escreveram a respeito da música, também não entendiam quase nada da natureza da música, e isso nos percebemos no sexto ano de composição e regência na disciplina chamada estética musical.
osej
14 de Novembro de 2002 #

Tá certo o Leandro - aliás, vão daqui profundos cumprimentos por quase tudo o que eu já ouvi teu, e não é pouca coisa. Eu trabalho tanto como arranjador quanto como produtor e, pra piorar, ainda bato ponto numa FM que, pra resumir, se chama Pop-Rock, e tenho formação como jornalista (grande bosta!) e músico. Tudo isso não é uma entrevista de emprego, não. Rá. O lance é que, mais por deformação (multi)profissional do que por talento ou esperteza, acabei aprendendo a entender um pouco os lados todos da produção e do consumo de música, seja ela o Stockhausen, o Charlie Brown Jr (Deus que me perdoe!) ou o Zeca Pagodinho. E botar a culpa no arranjador é desfocar em muito o centro da questão. Não no sentido bobo do nosso amigo da academia aí que confunde gênero popular - o que é definido, em muito, pela harmonia - com plágio (se for assim, só existe UM blues, né, meu? O resto é tudo plágio, afinal a harmonia é a mesma...). Mas sim no que disse o Leandro: o produtor é chamado pela gravadora ou pelo artista porque se espera dele AQUILO. Raramente te chamam e te dizem: vamo enlouquecer, que a gravadora tá pagando pra gente fazer o que quiser! Raramente? Acho que desde que o Beremboim parou de produzir os tropicalistas que isso não acontece... Aí ou o produtor é também arranjador e faz o que é esperado dele, ou chama um e explica pra ele exatamente o que quer. E o arranjador, se for um bom profissional, faz isso com o maior empenho e talento possível. Criatividade, só se deixarem. É por isso que o mercado independente cresce tanto. Porque isso é muitíssimo atenuado nesse contexto. E acho difícil que os jornalistas que escreveram a matéria não saibam disso. Ou melhor: em se tratando de colegas jornalistas eu não acho NADA difícil...

Agora, o xis da questão não é se o cara é repetitivo. É se o cara é repetitivo e chato! O Piazzolla era repetitivo. Se alguém falar mal dele na minha frente, leva dedo no olho. O Cristóvão pode até se repetir. Mas graças a Deus que ele se repete. Imagina a gente ficar sem aquela elegância toda!

Ps.
Alguém aí entendeu onde o magrão do sexto ano quer chegar?
Arthur de Faria
15 de Novembro de 2002 #

Prá mim o buraco é mais embaixo... O grande problema é falta de qualidade na grande parte das composições selecionadas para estar num disco de uma grande gravadora. Se a música não é boa, não vai ser músico, arranjador ou produtor que vai dar jeito, especialmente se estiver trabalhando para um patrão que lhe obriga a seguir um padrão de grande vendedor de discos. Isso também se aplica ao compositor, que acaba compondo para participar mais ativamente do tal "mercado". Esses problemas são como os do Brasil, só uma mudança muito profunda pode resolver.

Outro ponto muito importante é que para as pessoas que trabalham com Arte colocando o interesse financeiro antes da Arte (o certo é interver essa ordem), nada melhor do que hiper valorizar o padrão de qualidade da gravação para disfarçar um pouco essa falta de qualidade musical. Juro que prefiro ouvir todos os discos do Tamba Trio da década de 60, apreciar os arranjos do Luizinho Eça (Gênio!!!)... e imaginar o que ele estaria fazendo, se a grande gravadora deixasse, com os recursos de hoje.

De qualquer forma, que bom que se está falando no assunto. Nada pior que tudo soar parecido... Eu acho que (finalmente) o Povo está cansando de acreditar nas mentiras que são passadas a Ele. Conseguimos até eleger o Lula!!! Quem sabe as coisas não começam a melhorar também na música????

Viva a Música de Qualidade!!!

Marvio Ciribelli é pianista, arranjador, produtor e não tem lugar em sua discoteca para música sem graça...

Em tempo: Vários músicos, arranjadores e compositores citados nos artigos, já tiveram a qualidade do trabalho mais do que comprovada (quando puderam trabalhar com liberdade), mas como disse o Rildo Hora... "É bom prá gente não se sentir paparicado"
Marvio Batiste Ciribelli
16 de Novembro de 2002 #

o problema não é o gênero em si, mas o uso que fazem dele, sob um certo prisma é isso mesmo, só existe um samba, um choro, entenda a profundidade navegante!!!;

quando falo em plágio, dou o exemplo prático do uso do folclore, poderia ser outro, mas uso o folclore pois é o momento que a música rural passa a ser urbana que é um bem da coletividade e passa a gerar lucro para um indivíduo, o produtor-compositor que se apropria de um bem coletivo e passa a lucrar com o fato; insisto no assunto, pois podemos imaginar o compositor nesse processo como uma espécie de pirata que explora o coletivo em benefício próprio, eu sei que muita gente vai quicar, assim como o colunista que afirmou que "DJ" não é artista e ouviu poucas e boas.
aliás é pertinente o assunto, tem artista famoso que possui discos e mais discos de folclore fica ouvindo para pegar algum tema e transformar em uma composição; o plágio a propósito se revela na intenção, conheço compositor que toca a mesma harmonia de uma música e "cria" nova melodia ,pensando no cantor tal que quer gravar uma música do artista famoso conquanto que seja mais um sucesso comercial creio ser necessário mais busca de algo"original" e menos "comercial" nesse sentido os arranjadores presas dos produtores devem libertar-se se não conseguem imprimir a sua marca pessoal, quem já ouviu os cds de Jardel Salos Risadinha e os citados, reconhece logo a canetada do arranjador;
o "primeiro" disco de jazz gravado em 1917 trazia sons inusitados de bichos, um cd de 1998, de um "grande"arranjador traz a mesma idéia, sons de bichos!!! nada contra só constatação
várias introduções seguem tal padrão de similaridade que penso em "preguiça" mental
acho que a criatividade do arranjador pode fazer muito, por mais que o produtor meta o bedelho,mas se o negócio é dinheiro vamos fazer ou não, por outro lado ouço vários arranjos de "pequenos "arranjadores que possuem canetada segura e criativa, creio que um dos caminhos para a melhor qualidade da música seria a alternância de arranjadores, existe muita gente boa;

não sei mas acho importante você dominar realmente a sua ferramenta de trabalho, melhor que ficar pulando de galho em galho,você que gosta de música se não fez poderia fazer um curso de estética musical, além de conhecer um pouco mais o que é sempre bom, veriam as bobagens que jornalistas, filósofos, artistas críticos e tantos outros falaram a respeito da música é bom para não ficar repetindo a história.
alô pessoal sexta-feira tem mais lá no ó e sábado e lá no jolie, repare na moça do cavaquinho, aquilo que é palhetada e canta com divisão rara.
osej
19 de Novembro de 2002 #

Esse senhor que eu não sei qual apito que ele toca,com certeza nunca entrou num estudio para ver a competência,e o profissionalismo da maioria dos produtores.
Ele deveria falar dos falsos produtores,que tomam espaço dos produtores de verdade.
Existe sim pessoas produzindo ou escrevendo artigos que não sabem nem o que é um la maior,ou menor,esses bicos é que deveriam ser combatidos.
Eu como produtor,gerente artístico,e diretor artístico,recebi 88 discos de ouro,platina,platina duplo e diamante.
Tenho muito orgulho da minha profissão,e dos premios que recebi,e com certeza todos os produtores de verdade que estão no mercado.
mauro almeida
3 de Julho de 2003 #

Os links para O Globo não mais funcionam. A reportagem pode ser lida aqui.
Paulo Eduardo Neves
3 de Julho de 2003 #


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