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Informação: Qualidade e Responsabilidade

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Informação: Qualidade e Responsabilidade
Publicado por Paulo Eduardo Neves em 30/10/2001 às 07h54
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Longo e polêmico depoimento escrito por Herminio Bello de Carvalho, que nos autorizou a republicação.

Pode-se dizer que Herminio chuta o pau da barraca. Ele denuncia a mutreta envolvida na reedição em CD dos discos da Funarte, fala do abandono dos acervos musicais da TVE e Rádio MEC, se defende por ter letrado choros famosos, aponta erros nos escritos de Ricardo Cravo Albin, critica o livro "Choro, do Quintal ao Municipal" e apresenta um projeto contra o abondono do acervo de Jacob do Bandolim.

Finalmente algumas coisas que têm sido ditas à boca miúda vem a público e são abertas para que todos possam debater democraticamente e dar suas opiniões e pontos de vista. Herminio pede que as pessoas comentem seu texto e autoriza a sua livre reprodução.

O texto está muito grande, sugiro que seja impresso para melhor leitura (veja link para versão de impressão à esquerda).


Depoimento de Herminio Bello de Carvalho

Pre-Prefácio

Estamos no finalzinho da década de 50, quando meu "Já vi tudo" na Beco do Rio era quase uma extensão da casa de Ismael. Prá quem não sabe, um "Já vi tudo" é menos, bem menos, do que o popular conjugado, que costuma ser um sala-e-quarto indivisível, banheiro mínimo e um metro quadrado a que chamavam de kitchnette. "Já vi tudo" é o arremedo, reduzido, disso tudo. Mal você adentrava no recinto e dava dois passos, já estava à janela.

Por casa de Ismael, entenda-se um quarto bastante abagunçado num sobrado da Av. Gomes Freire (RJ). Estou falando, é claro, de Ismael Silva " um dos três maiores sambistas de todos os tempos", segundo Vinicius de Moraes. Vivíamos o retorno de Ismael à vida artística, ele saindo de um período obscuro do qual se evitava qualquer comentário. Mas era o autor do antológico "Se você jurar", seu carro-chefe, parceiro de Noel Rosa em nove sambas, e protagonista de alguns conflitos na jurisdição do Estácio e adjacências - sobretudo com Francisco Alves, o "Rei da Voz". Águas passadas por vezes movem alguns moinhos. Num dia em que as cervejas, que as tomava quentes, foram talvez além da conta, fizeram-no confessar-me que o "Se você jurar" só a segunda parte era dele. Ouviria depois, de Mário Reis, a acusação de que nem essa ele fizera: todo o samba seria de Newton Bastos. Prefiro, confesso, a versão de Ismael. Tecnicamente, a segunda do samba é tipicamente Ismael.

As mazelas físicas chegaram com o tempo, agravando a saúde do sambista: uma úlcera varicose o obrigou a um tratamento doloroso. Inventei-lhe tarefas, como terapia : escrever seus sambas num caderno espiral, onde eu ia datilografando no alto das folhas os títulos de suas músicas, e ele ia manuscrevendo seus sambas - inclusive os tais nove feitos com Noel. Uma boa pesquisa no Museu da Imagem e do Som, a quem doei o livro depois da morte do sambista, há de revelar preciosidades. Cheguei a gravar num acetato, em dupla com ele, o "A razão dá-se a quem tem", dele e do sambista da Vila.

Durante alguns anos sustentei essa informação, a das nove composições, até que o "Noel Rosa, uma biografia" do João Máximo e Carlos Didier, revelasse a, digamos, pouca memória de Ismael, ampliando para dezoito sambas a produção da dupla. Eu fora contagiado pela imprecisão, chamemo-la assim, de meu parceiro. Sim, parceiro : fizemos um samba, apenas um.

Errei outras e muitas vezes ao tropeçar em informações que fazia questão de registrar, mas sem qualquer metodologia. Lá estou eu na varanda da casa de Donga, já na década de 60, documentando num gravador suas histórias com Villa-Lobos, e, de lambujem, me deliciando com o celebrado autor do "Pelo telefone" solando em seu violão "bolacha" alguns choros que, aliás, continuam inéditos até a presente data. Alguns anos depois levaria um puxão de orelhas de Mestre Jairo Severiano, por ter registrado num de meus livros uma informação imprecisa que Donga me prestara. A correção eu a fiz num de meus livros seguintes.

A incorreção seria menos grave e relevante do que uma outra, consagrada pela maioria dos pesquisadores da nossa música popular : a de que o "Pelo telefone" teria sido o primeiro samba gravado. Não foi, sabe-se. Foi a composição que maior sucesso alcançou ao ser lançada em 1917, tendo estampada no rótulo aquele gênero específico. Continuo, neurótico que sou, desconfiando que essa celeuma acaba por desqualificar e reduzir a grandeza do Donga instrumentista-compositor, que tinha uma visão político- social do choro bastante avançada para a época. Donga, repito, era maior que o "Pelo telefone".

Resvalei algumas vezes nessa, digamos, imprecisão, como também nas datas de nascimento de Pixinguinha e Clementina de Jesus, até que estudiosos as aclarassem com documentação incontestável. Mãe Quelé mentira ao dar-me a data de seu nascimento? Claro que não : eu é que me descuidei, como péssimo discípulo de Jota Efegê, de ir às fontes onde a data precisa saltaria clara de um registro batismal, em Valença. Errei também ao omitir a parceria Pixinguinha-Gastão Vianna no hoje célebre "Benguelê". Consta da primeira edição do "Rosa de Ouro", volume I : autor desconhecido. Meio encabulado, Pixinga me trouxe a partitura manuscrita daquela obra, e o reparo foi feito nas edições posteriores, com o mea culpa devido. Eu não conhecia a música, e Clementina, definitivamente, desalinhava suas histórias me levando a outros erros irreparáveis. Por exemplo : "Orgulho, hipocrisia" me foi apresentado por ela com uma segunda parte que ela sempre improvisava, seguindo uma tradição dos velhos sambistas. Resolvi "ajeitar"o samba, escrevi os versos de uma segunda parte que achava mais coerente com a primeira escrita por Paulo da Portela, e fiz o registro em disco - sem dar-me o crédito da parceria (coisa que aliás fiz muito pela vida afora). Tempos depois descubro que o samba já fora gravado, e com outro nome, por Mário Reis - que vergonha!

Uma pesquisa mais acurada irá revelar outros escorregões que minha absoluta falta de vocação para a pesquisa fez perpetrar.

A qualidade da informação eu a persigo com uma obstinação quase cega, como forma de auto-penitência por essas imprecisões (e muitas outras que delas não me recordo aqui) registradas em meus livros, ainda que escudado por depoimentos gravados ou colhidos na fonte. Como foi o caso de Turibio Santos, a quem pedi anotar (e o fez com extrema competência) informações preciosas que Villa -Lobos prestava numa série de depoimentos realizados no Instituto Benjamin Constant, na década de 50. Ao último deles não pude comparecer, e, graças ao meu jovem substituto, pude atender ao pedido de Mindinha de Villa-Lobos, complementando um opúsculo (pequeno livro, livreto - explica o Aurélio), que reproduz a palestra que, também a pedido da amiga, fiz sobre Villa em 1962 - e ilustrada por quem? por Donga, Cristina Maristany, Jodacil Damaceno e Turibio Santos.

Mas nem sempre o registro gravado se fez possível : Mindinha, amiga querida, desfiava histórias maravilhosas - algumas delas absolutamente coerentes com as que me contariam Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, Olga Praguer Coelho ou Herivelto Martins, que conviveram com o Maestro - a quem fui visitar (anotando tudo, claro) em 12 de setembro de 1957 em seu apartamentinho perto da ABI. Registrei-as em livros ou artigos, e uma dessas histórias teve sua veracidade posta em dúvida por um pesquisador : Dalva de Oliveira teria sido mesmo a cantora preferida de Villa-Lobos? Era o depoimento de Mindinha ou a minha credibilidade que se contestava? Ou de ambos? Seria tão simples a dedução, se boa vontade houvesse. Dalva era tecnicamente uma cantora perfeita, deslumbrante, e sua participação no "Trio de Ouro" chamara a atenção do Mestre, ao ouvir o arranjo de "Canoeiro", de Caymmi. Nele, inclusive, havia um canon, requinte bem raro de se encontrar na música popular daquela época. Também os contracantos de Zé e Zilda no "Se eu pudesse" chamaram a atenção do Maestro, que recomendara sua audição aos alunos de canto orfeônico, através da Professora D. Augusta Lopes da Silveira.

Lembro que também gravada não foi uma palestra que fiz no Museu de Belas Artes : faltou luz. Cartola, Zé Ketti, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva contaram histórias que se perderam de vez. Assim como a fita do primeiro registro feito em minha casa por Clementina, e, do lado "B ", um depoimento pessoal de Pixinguinha da maior relevância. A fita se enrodilhou no carretel, se estropiando. Se guardada, possivelmente hoje, com essas tecnologias todas, teria sido recuperada. Mas quem quiser ouvir Pixinga e Jacob acompanhando Dalva e Ademilde num aniversário meu, estou às ordens. Mostra-se o pau e a cobra, tudo no bom sentido, claro.

E quem me contou que o verso final ( "... e eu chegando ao fim") do "Ninguém me ama" foi Dircinha Batista quem o fez, no Bar do Zica, na Praça Mauá? Terá sido Fernando Lobo, Jorge Goulart? À luta, senhores pesquisadores. À luta, também, para ajustar o foco sobre a criação do Museu da Imagem e do Som. Ofereço subsídios à parte : o discurso de Carlos Lacerda, em 03 de setembro de 65, transcrito do Setor de Fitas de Áudio da Fundação MIS. A quem duvidar, que ouça.

Se confesso esses escorregões, e as fontes que os provocaram, é para desmentir o que soa como galhofa : a de que sou um pesquisador. Sou tão somente um desengavetador informal de informações que as registrava sem a sábia meticulosidade que, infelizmente, não herdei de meu querido Jota Efegê. Sem metodologia alguma, desapetrechado para exercício tão sério, proíbo que me pespeguem esse rótulo que me soa amaldiçoado quando o vejo lavrado nas entrevistas que dou, ou simplesmente utilizado por quem não o é. Nenhum arquivo ou coleção de discos confere status de pesquisador a ninguém.

Revirando meus guardados para este depoimento, encontro uma ata não assinada, sobre um seminário que teria sido realizado sobre o "Rosa de Ouro". O estilo parece meu, porém com a acuidade própria de Jacob do Bandolim. Não me lembro da realização desse seminário, como Paulinho da Viola não se lembrava de João da Gente, da Portela, ter participado de uma palestra sobre Clementina, promovida pelo já citado Prof. Luiz Heitor na Escola Nacional de Música em 1966, reinaugurando um ciclo que havia sido encerrado, há bem mais de vinte anos, por Mário de Andrade. A foto de João e Clementina ao nosso lado comprova a presença daquele maravilhoso partideiro naquele ciclo. Mas... e o registro gravado, prova mais ampla além do programa que foi impresso? Não o fizeram. O roteiro da exposição que fiz tenho-o apenas rascunhado, porque o mediador fora o próprio Luiz Heitor, musicólogo especialista em Villa e Mignone, discípulo e amigo de Mário. Aproveito para dizer que a beleza da voz de João da Gente, documentada no primeiro disco solo de Clementina e, depois, no primeiro Lp da Velha Guarda da Portela, produzido por Paulinho da Viola, me faz presumir que o cantador Chico Antonio, descoberto por Mário em sua segunda viagem etnográfica, possivelmente deveria exibir a mesma qualidade vocal do partideiro da Portela.

Feita essa pública penitência pelos meus erros, deixo expressa a vontade de que toda essa montoeira de papéis, desordenamente arquivados em pastas e mais pastas e álbuns, não se destrua quando eu ao pó regresse - e entendam pó no sentido bíblico, que outros pós jamais ousei aspirar por absoluta incompetência e inaptidão.

E como nas últimas semanas tenho freqüentado emergências hospitalares com desagradável habitualidade e estou assumidamente com uma síndrome de pânico que me faz toda manhã consultar os obituários para ver se neles consta meu desaparecimento, achei por bem tornar pública uma série de fatos aos quais prometo não impregnar de um tom lamuriento que, por sinal, eu e Gonzaguinha auto-criticávamos com bastante humor.

Dois ou três motivos fizeram-me escrever este livro-quase-epitáfio, mas vou ao principal : uma nota maliciosa publicada por um jornal a que me nego citar aqui o nome (irá para a bibliografia que utilizei) e que me negou direito de resposta. Conselhos ouvi, outros fui buscar. Aos que ponderaram fazer ouvidos moucos, porque daqui a pouco ninguém mais se lembraria do fato, argumentei: me basta nunca esquecer. Aos que me disseram que desse os ombros e jogasse no lixo as palavras mentirosas, expliquei que devo satisfações a muitos jovens que balizam um pouco suas vocações pela ideologia que, penso, impregna alguns trabalhos que faço. Esses jovens freqüentam as oficinas de música aonde vou beber suas ansiedades, lotam um imenso teatro, como há pouco fizeram em São Paulo no Memorial da América Latina, quando lá se apresentaram os remanescentes do "Rosa de Ouro". E porque o assunto envolve ética e responsabilidade, rejeito o conselho.

Até porque é um assunto que me cobro sempre abordar : a qualidade da informação, ausente naquela nota infamante, caluniosa, antiética. A qualidade de informação que não encontro em tantos livros e monografias que aspiram ser de pesquisa.

Aos fatos.

Capitulo I

Um jornal de circulação restrita ao Rio de Janeiro publicou uma foto da filha de Clementina de Jesus, Olga, noticiando estar a própria internada e carecendo de recursos, recursos esses apropriados por mim, seu suposto Procurador, junto com o acervo pessoal de Mãe Quelé. Antes de tudo, estranhei a notícia não só pela sua total inveracidade, mas também pelo fato de, há poucos meses, Olga ter me telefonado agradecendo o valor que havia recebido pela edição do álbum comemorativo "Clementina, 100 anos", editado sob patrocínio, mas com distribuição restrita à clientela da patrocinadora, à imprensa e a pessoas notoriamente ligadas à pesquisa de nossa música popular, e com todos os seus direitos artísticos, autorais e conexos devidamente quitados.

A empresa responsável pela administração dos recursos captados enviou uma carta esclarecedora à direção do jornal, que não a publicou. A notícia ganhou repercussão à boca pequena, mas incômoda. O texto que enviei ao jornal irresponsável, diante da recusa de publicação, é o que destaco:

"Conforme reza a ética jornalística, que recomenda oferecer aos leitores não só uma versão de um determinado fato, mas o fato em sua dimensão mais ampla, e ouvidas obrigatória e democraticamente todas as partes que o envolve, errou o jornal (omito o nome) ao acolher e tornar públicas as informações caluniosas estampadas em sua edição de 15 de setembro corrente, que transcrevo: "De acordo com (omito o nome) amigo da família que ajuda financeiramente os netos da cantora, o procurador de Olga, Herminio Bello de Carvalho, teria ficado com o dinheiro das negociações e com todo o acervo e prêmios da cantora". Essas informações mereceriam de mim pronto reparo, caso tivesse sido procurado pelo referido jornal. Declaro que nunca fui procurador da Sra. Olga, não detenho nem nunca detive qualquer peça de um suposto acervo de Clementina de Jesus, nem jamais recebi qualquer prêmio em seu nome".

Olga faleceu logo após a matéria ter sido publicada, o jornal continuou mantendo silêncio e tudo poderia ficar por isso mesmo - mas eu não quero conviver com essa falta de ética.

Capitulo II

Aparentemente me desviando do assunto, lembrei agora de uma carta desaforada que mandei para José Ramos Tinhorão, que havia feito uma crítica jocosa a um disco que, cumprindo contrato oferecido pela Odeon, gravei em 1968. Claro que não exigi reparação, porque estaria agindo que nem censor. Era um desabafo pessoal, magoado, diante de um crítico de rara inteligência e probidade, mas que, no exercício de seu ofício - valha-me Deus! - é de uma extrema malvadeza. E, cá entre nós, ele tinha lá suas razões... A vingança, que hoje qualifico de mau gosto, foi elaborada com a cumplicidade do Tom Jobim, a quem endereçava suas críticas mais impiedosas. Entrevistados sobre o crítico, declaramos que o víamos apenas como uma planta herbácea da família das Aráceas, a quem irrigávamos com nossa urina. Até hoje José Ramos Tinhorão não perdoa a saliência, de gravidade menor, reconheçam, que suas críticas demolidoras.

Se tenho por Tinhorão um respeito que sobrevive às reservas que faço a posições que, por vezes, me parecem dolorosamente radicais ( e hoje me incorporo às homenagens que o MIS presta ao grande Mestre), o mesmo não se dá com outros críticos que, com o combustível de uma raivosa aversão pessoal à minha pessoa, fizeram-me alvo de campanha ridícula que dela, no momento, me abstenho ocupar.

Porque a questão da ética jornalística é preponderante, volto à questão Clementina de Jesus, que me devolve à seguinte questão: devo me conformar com o silêncio imposto por uma mega empresa de comunicações que veiculou matéria infamante, ou simplesmente encaminhar petição à Justiça exigindo Direito de Resposta? Há quem insinue que a melhor opção é, comodamente, colocar o rabo entre as pernas e deixar como está para ver como é que fica. Abrir uma discussão de tal magnitude por uma notícia que quase ninguém leu? Fora de cogitação.

Lembro quando fui desligado da Rádio MEC, sem dar ouvidos aos cautelosos que me recomendavam não bater à porta da Justiça: vivíamos os dias da repressão, e todo cuidado era pouco. O pretexto (verbal) para minha dispensa fora o excesso de contigente da casa, mas, na verdade, minhas posições políticas se refletiam no meu exercício de produtor, causando incômodo à censura que rondava aquela rádio. Permito-me lembrar que obrigavam-nos à assinatura diária do livro do ponto, e me constrangia encontrar meu ilustre colega Carlos Drummond de Andrade submisso ao ato meramente burocrático. Entrei com um processo contra a Rádio Mec. Foram 25 (vinte e cinco) anos de tramitação e, ao longo desse período, comi o tal pão que o diabo amassou - e posso afirmar que era bolorento.

Valeria, agora, e aos 66 anos, mover outro processo? É hipótese que sofre maturação.

Mas façamos um retrocesso aos sombrios anos da repressão, às trevas em que fomos jogados pelo golpe de 64. Vivíamos a criação da Sombrás: Tom na Presidência, eu na Vice. Aldir Blanc, Macalé, Vitor Martins, João Bosco, Sueli Costa e outros colegas haviam sido expulsos da Sicam - o que nos mobilizou a criar uma entidade sem fins lucrativos, com o fim específico de denunciar as mazelas e as máfias que dominavam o direito autoral no Brasil. A tropa de choque era comandada por Mauricio Tapajós, e nos sediamos no Museu de Arte Moderna, numa sala cedida por Heloisa Lustosa. Tempos duros de ameaças, pressões - tudo aquilo que já se sabe. Voltarei ao assunto, que envolve Sergio Ricardo e Chico Buarque. Porque lembrei que, mais ou menos nessa época, Albino Pinheiro fora nomeado Diretor do Teatro João Caetano, inventando o Seis-e-meia.

É o momento, também, de aclarar esse episódio: alguns jornais teimam em me creditar a criação do "Seis-e-meia". A idéia nasceu do coração de Albino que, circundando as imediações da Praça Tiradentes, percebeu que havia um público potencial que padecia ali naquelas filas que serpenteavam nos pontos de ônibus, por vezes sob chuva. Havia um horário ocioso no teatro que assumira, trocou idéias comigo, convidou-me a partilhar de seu sonho. Apenas formatei artisticamente o projeto, sugeri-lhe o nome - que ele aceitou. O resto é pura invenção de quem não conheceu Albino e sua imensa capacidade de criar novos modelos - como a Banda de Ipanema, por exemplo. Criação coletiva, apure-se.

Um dia, sem mais por quê, desalojaram-nos do Teatro. Combinou-se : eu sairia do projeto, Albino continuaria, estrategicamente, lutando pela sua permanência. E lá me vejo eu comprando, politicamente, a briga pelos jornais. O Seis-e-meia voltou, eu não. Fui fazer o Projeto Pixinguinha. O modelo? O Seis-e-Meia do Albino. Com todos os créditos, claro.

A TVE é um capítulo que merece estar neste depoimento. Em 1976 a produtora Liana da Rocha fez um Especial sobre minha vida. Seguiu-se um convite para produzir musicais naquela emissora. Antes eu fora sondado pela TV Globo, mas recusara o convite porque estava de partida para a Europa, e iria emendar um trabalho logo em seguida no Canadá e Estados Unidos. Meu programa de estréia foi o "Agua viva", cuja produção executiva era de Liana. Levo a escória divina, escorraçada das emissoras comerciais, para gravar na TVE: de Nelson Cavaquinho e Cartola a Tia Amélia do Jaboatão; de Rosinha de Valença e Sivuca ao então nascente Os Carioquinhas (Rafael e Luciana Rabello, Maurício Carrilho, todos ainda meninos). Foram 13 anos em que produzi e/ou participei de centenas de programas ao lado de Fernando Lobo e Lúcio Alves, dirigido às vezes por Carlos Alberto Lofler e na companhia terna, porém não submissa aos coronéis de então, desse grande Fernando Pamplona. Buscava sempre atuar numa linha alternativa, ou seja, oposta à das emissoras comerciais. Já no fim da década dos 80, estive sob forte censura estética na TVE - igual à que sofrera nos anos da ditadura na Rádio Mec. Meus programas eram transferidos ou cancelados, ou então podados os elencos que escalava. Havia, sobretudo, um lambe-cu que chamava de "velharias" os artistas que eu elencava para meus programas: Caymmi, Elizeth, Moreira da Silva, Aracy de Almeida, Radamés Gnattali. Sem qualquer pudor, tachavam como de pouco apelo popular artistas como João Bosco, Paulinho da Viola, Edu Lobo. Fui colocado em disponibilidade tão logo Fernando Collor assumiu o poder. Por meio de cartas públicas, questionei o Ato imoral, que pespegava o rótulo de inútil e vagabundo num operário atuante daquela casa. Collor é cassado, sobe Itamar Franco ao poder. E ele, a quem jamais fui apresentado, me nomeia para uma comissão que estudaria algo como melhorar a qualidade educativa dos meios de comunicação. Na mesma lista incluiu o carreirista que se exercera como meu censor estético mais dedicado. Abdiquei da indicação, aproveitando para desnudar o impostor. Logo depois ele seria demitido pelo Itamar da Radiobrás. Hoje, mais do que provavelmente, deve ter ascendido a um posto hierárquico ainda melhor remunerado, sócio até, quem sabe? de uma dessas empreitadas espúrias, onde senadores e deputados se locupletam sob os chafarizes de lágrimas que esguicham dos olhos daqueles que espoliam desavergonhadamente.

Mas, claro, nunca mais me convidaram para trabalhar na TVE. Foi o preço, presumo. Poderão também dizer : "Mania de perseguição".

Parodiando o samba famoso, me perguntam "por que brigas tanto assim, rapaz?", e justifico dizendo que ser omisso diante de safadezas é compartilhar delas, referendando-as. Há pouco, fiz a Unimed ressarcir-me de um atendimento de emergência que não me prestou, colocando em risco minha vida. Recusei há uns dois anos a Medalha de Mérito Cultural que me foi outorgada pelo Governo - tema que será abordado em capítulo à parte. Se for falar dos muitos percalços sofridos, e parodiando o belo samba de Monarco, "hoje não vou terminar". Prometi falar sobre o episódio com Chico e Sergio. Fica pra mais adiante.

Vamos mudar de capítulo?

Capítulo III

Poderia, agora, pegar dois filões : a recusa à Ordem do Mérito Cultural e o Museu da Imagem e do Som.

Vamos começar pelo primeiro, transcrevendo a carta de recusa à Ordem do Mérito Cultural que me foi outorgada pelo Ministério da Cultura :

"Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1999

Ministro Francisco Weffort,

Entendo que a insígnia da Ordem do Mérito Cultural, a mim outorgada por indicação de Vossa Excelência, traduza o reconhecimento não ( apenas ) ao meu trabalho autoral, mas a um conjunto de projetos realizados, em equipe, na Funarte, Órgão do Ministério da Cultura, no período de 1976 a 1989.

Cabem, entretanto, algumas considerações. Há algum tempo venho defendendo uma tese de cunho Marioandradiano: a de que a cultura brasileira deveria ser tratada como matéria de segurança nacional, e o homem, e sua música, tombados pelo patrimônio como bens ecológicos. Utopia, dizem. As perdas de um Villa-Lobos, de uma Clementina de Jesus, de um Tom Jobim ou de um Drummond de Andrade equivalem - esse é meu sentimento - à derrubada de parte de nossa floresta amazônica, a pássaros dizimados por estilingues predadores.

Com essa tão discutida globalização, vemos que existe um estereótipo cultural anódino e incolor, pouco oloroso e de palato indefinido, sendo imposto ao consumidor. É como se uma motosserra desbastasse um baobá, aparando suas arestas, redefinindo seu tronco à semelhança das árvores menos nobres da floresta. Busca-se, com a omissão cúmplice do governo, um processo de coisificação e imbecilização do jovem brasileiro, afastando-o do entendimento do que seja um bem cultural, em seu sentido mais amplo. À mesa, o estereótipo é servido com fanfarras. Separam, como se elementos antagônicos fossem, a cultura da educação. Um processo dicotômico inexplicável. Vão-se, aos poucos, esquecendo as lições que nos foram ensinadas por Mário de Andrade, Villa-Lobos, Anisio Teixeira, Roquete Pinto.

A indicação de meu nome para receber a insígnia da Ordem do Mérito Cultural fez-me, de início, lisonjeado. Seguiu-se, depois, um sentimento de constrangimento com essa indicação.

Explico: se méritos existem em nosso trabalho, é por essencialmente traduzirem um profundo respeito à nossa cultura e à sensibilidade do nosso povo. Nossa luta pelo registro e documentação da memória cultural brasileira trava-se também na área de formação de novas platéias para as tantas manifestações que, órfãs da mídia compromissada com o consumo, tentam sobreviver num regime cultural nada democrático. A música que se ouve na maioria das rádios e televisões não é aquela que, por falta de espaço, tenta um escoamento por vias alternativas. Ela não pode ser confundida com os protótipos industriais que preponderam nas programações comerciais. Esses são produtos manufaturados pela indústria pesada da música, que atua com a mesma eficiência e igual perspectiva de outras indústrias igualmente pesadas, como as de armamentos bélicos, produtos farmacêuticos, cigarros, bebidas, drogas e outros bens chamados de consumo.

Poucas alternativas são oferecidas não só para o profissional antigo ou emergente, como também para um público que, sem o poder aquisitivo da classe média ou das elites privilegiadas, vive à margem dessa política que despreza uma arte descomprometida com as regras sujas do mercado. Impedida de promover sua própria aferição por meio de programas subsidiados, como o Projeto Pixinguinha, a juventude sequer usufrui do ensino da música, banido do currículo escolar pelos poderes alienantes que passaram a dominar o país.

Para melhor anatomizar o meu constrangimento com a indicação para a insígnia outorgada por esse Ministério, prefiro ater-me aos projetos Lúcio Rangel e Almirante, que tive o privilégio de criar na Funarte. Desconhecendo a forma como se processariam tais reedições, cheguei a louvar e prestigiar o relançamento das dezenas de discos e livros. Porém, o tempo tratou de pulverizar meu otimismo, fazendo-me sentir cooptado pelo aval que dei.

por meio do jornal da Amar-Sombrás, entidade de classe que há mais de 20 anos luta pela moralização do sistema autoral brasileiro, expus minha decepção quanto à indiscutível perda da qualidade editorial daqueles produtos. Do novo conceito gráfico às informações neles contidas, o resultado final apresentou-se como um equívoco.

À ficha catalográfica deveria ser apensa uma nota explicativa que designasse o programa que deu origem às reedições, já que foram eliminadas quaisquer referências aos projetos Almirante (de discos) e Lúcio Rangel (de monografias) e à equipe de trabalho responsável pela editoração. Econômica e artisticamente, teria sido mais produtivo reproduzir o projeto infinitamente superior criado originalmente pelo Núcleo de Artes Gráficas da Funarte. Por se tratar de um produto que leva a chancela do Ministério da Cultura, todas essas omissões se tornam ainda mais graves.

Mais grave ainda se torna a política de preços estabelecida pela Funarte para a comercialização desses livros e discos. Com o incentivo do Instituto Cultural Itaú, que patrocinou a reedição dos discos produzidos pelo omitido Projeto Almirante, parecia-nos óbvio que livros e discos chegassem às lojas não ao preço do mercado convencional, mas, sim, como produtos subsidiados, tais como realmente o são. Portanto, ao adquirir na loja do Ministério da Cultura o CD relativo a Mário de Andrade (omitido o subtítulo original, Mário, trezentos 350) pelo preço de R$16,00 reais, senti-me duplamente lesado como adquirente e contribuinte.

Seu custo maior, que é o da produção artística (aluguel de estúdios, pagamento de músicos e arranjos, projeto gráfico etc.) já havia sido absorvido na primeira etapa do projeto. Seu custo industrial é relativamente pequeno.

Um disco de tal envergadura não se reduz à mera documentação sonora. É criminoso excluir a contextualização do trabalho, por mim encomendado, na época, a Carlos Drummond de Andrade, Oneyda Alvarenga, José Bento Faria Ferraz, Fernando Sabino, Pedro Nava, Carlos Scliar, Guilherme Figueiredo, Francisco Mignone e Camargo Guarnieri. O novo projeto gráfico não só excluiu os valiosos textos como também toda a parte iconográfica e os desenhos de Scliar, Cássio Loredano, Chico Caruso e Nássara. Acrescente-se que o produto original em apreço, concebido em 1983, foi todo ele conceituado e produzido em linha com a equipe do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Ao defender a tese de que a cultura deveria ser tratada como matéria de segurança nacional, penso traduzir a necessidade cada vez mais premente de abrasileirar o brasileiro, como advertiu Mário de Andrade, que cultivava a utopia de tombar o sentimento de uma cidade - como expressou em carta a Rodrigo de Mello Franco. É para resguardar as nossas culturas, e aqueles que a produzem ou consomem, que cultivo também a utopia de se tombar a alma e o sentimento brasileiros, que impregnam os projetos desenvolvidos em equipe, na Funarte.

Como artista e animador cultural, estou inserido num quadro de exclusão cujas regras bem conheço. Elegi o caminho de trabalhar com matéria-prima que não gera o lucro determinado pelo mercado. Não é à toa que discos que produzi com Clementina de Jesus, Pixinguinha, Cartola, Elizeth Cardoso ou Jacob do Bandolim estejam fora de catálogo. E todos meus projetos, ainda que submetidos às leis de incentivo fiscal, guardam um padrão de exemplaridade (cito Celso Furtado) que não os tornam competitivos dentro do sistema vigente, onde tais leis privilegiam o valor mercadológico em detrimento da qualidade do produto.

Uma insígnia - e agradeço as intenções que nortearam sua concessão a mim - não atenua o sentimento de desgosto com o panorama cultural do nosso país.

Atenciosamente,
Herminio Bello de Carvalho"

A carta que me foi elegantemente respondida pelo Ministro Weffort não me fez voltar atrás na decisão. Embora publicada matéria no jornal da Amar-Sombrás sobre a atuação nebulosa da Atração Fonográfica, não houve qualquer mobilização por parte da imprensa para investigar o assunto. Há uns dois meses, a Presidente da Fundação Cultural Itaú, Milú Vilella, fez baixar em 50% os preços dos discos do ex Projeto Almirante, duplamente subsidiados na origem e reedição.

Mesmo levando em conta o período em que o Ministério da Cultura foi expurgado do organograma do poder Executivo (Collor rebaixou o Ministério ao nível de Secretaria, como vingança à classe artística que lhe negou apoio na campanha presidencial), caberia à Funarte recompor seus quadros técnicos e dar continuidade a projetos que possuíam um teor de exemplaridade que a tornou uma das entidades culturais mais respeitadas do Brasil.

Um antigo projeto que deixei na velha Funarte, quando dela me despedi em 1989, me fez bater à sua porta dez anos depois, e recusar o convite para reintegrar-me aos seus quadros. Mas, animado com as Oficinas de Choro que meus amigos Maurício Carrilho, Luciana Rabello, Celsinho Silva vinham promovendo na Sala Sidney Miller/Funarte e, posteriormente, na Lapa - me dispus a reformatar o Projeto Radamés Gnattali que havia criado em 1988. É um projeto que abrange três programas integrados de musicalização, com ênfase para a clientela jovem. Convoquei dois excelentes músicos e companheiros queridos que, na época, sedimentaram o Projeto : Luiz Otávio Braga (também egresso da Camerata, igual a Mauricio, Luciana e Celsinho) e Roberto Gnattali, sobrinho de Radamés.

É uma história que nos devolve a outra, testemunhada por Aramis Millarch - que foi o criador da Associação de Pesquisadores da Música Popular. Estávamos em Curitiba para homenagear Jacob do Bandolim falecido dez anos antes - em 1969. Roberto Gnattali é hoje diretor do Conservatório que, por sugestão de Joel do Nascimento, havíamos sugerido ao Jayme Lerner criar. A idéia foi consagrada em ata que redigi na toalha de papel do restaurante Guilhobel, em Curitiba, na presença também de Mauricio Carrilho e Yan Guest, firmada por Jayme Lerner, sob o apadrinhamento de Aramis. Nosso saudoso amigo foi a chama que, durante algum tempo, iluminou o percurso de criação do Conservatório Pixinguinha de Música Popular, que seria criado muitos anos depois, numa nova gestão de Lerner, mas já com Aramis agastado politicamente com seu afilhado-Governador. Não compareci à inauguração por solidariedade a Aramis - até porque o nome de Pixinguinha foi expurgado, porque daria uma conotação excessivamente carioca à Instituição, que abrigaria, inicialmente, a Associação de Pesquisadores.

Enfim : mais uma briga.

Capitulo IV

Se tanto insisto na qualidade da informação, e se por vezes, por ignorância ou despreparo, transgredi regras que hoje me são cada vez mais caras em função do episódio Clementina de Jesus, espero não estar perdendo o fio da meada. Que a carta dirigida ao meu nobre ex-colega do Conselho de Música Popular do MIS, por ocasião da festa que seus discípulos e amigos prepararam no Centro Cultural Hélio Ótica em seu aniversário - 75 anos de absoluta dedicação aos estudos da música brasileira - aclare um pouco mais essa reflexão que proponho :

"Meu Ary Vasconcellos,

Em 15/02/2001

Hoje me deu uma profunda saudade de Jota Efegê. Costumo visitar Felisbela, e ficamos horas e horas relembrando a seriedade daquele amigo maravilhoso, que saía de casa toda manhã para cumprir uma rotina da qual não arredava: pesquisar um determinado assunto, só o esgotando depois de checar todas as fontes. Posso até admitir, remotamente, que em algum momento nosso Jota tenha se equivocado na abordagem de uma determinada matéria. Mas nunca terá sido de má fé, isso garanto. Afinal, errar é humano.

Com tristeza, constato agora que há uma nova linha, por sinal muito criativa, que vem sendo adotada nos últimos tempos pelos escrevinhadores que se dedicam à tarefa de se debruçar sobre a história da nossa música popular, reinventando-a. Inconformados com os fatos reais, optam, aqueles escreventes, por adornarem com pitadas de invenção o que não tiveram tempo ou vontade de aprofundar. Faltando-lhes o talento do nosso Jota, optaram por uma nova modalidade de pesquisa: a ficcional. É claro que não estou falando do Sergio Cabral, Lena Frias, Tinhorão, Jairo Severiano, Zuza Homem de MaríliaMarilia Barbosa, Ruy Castro, João Máximo e alguns outros (poucos).

Pecam esses textos pelo humor chulo ou por tratar episódios os mais banais num estilo épico de samba auto-exaltação. Se nos divertem em alguns momentos pelos delírios e desvios cometidos, deixam-nos sempre com a desconfortável sensação do engôdo: inventam uma nova história, desconstruindo-a e criando versões fantasiosas. Toda mentira repetida reiteradamente tende a tornar-se verdade. É como insistir que o "Pelo telefone" foi o primeiro samba gravado. Sabe-se que não o foi. Por reverência a Donga, essa mentira, tantas vezes desmentida, volta e meia é repisada. Não deixa de ser uma forma indireta de se desqualificar aquele autor, cuja importância nunca foi suficientemente dimensionada. E a mentira, como sabes, é a verdade provisória.

Pensei em te homenagear de uma forma grandiosa, desbastada de graçolas inúteis ou hipérboles trovejantes. Afinal, são 75 anos - e boa parte deles debruçada em pesquisas sérias, que resultam em livros substanciosos - cuja leitura não é registrada em escrevinhações que omitem bibliografias - porque a história parece brotar das entranhas de determinados autores. Vejo-os embarcando nas primeiras naus, assestando velas e bússolas, ajudando Pero Vaz Caminha na redação da célebre carta. Foram acólitos da primeira missa, parceiros da primeira modinha, inventaram os primeiros acordes, estimularam a retumbância do Grito à beira do Ipiranga, co-redigiram a Lei Áurea e as Constituições que regem nossas vidas civis, pensaram edificações, e agora aí estão desmentindo nossos Jotas e Arys - porque são mais que testemunhas vivas da história, eles se julgam a própria história.

Se já fiz circular, em circuito fechado, a minha indignação com um livreco fantasioso no qual fomos, Jacob do Bandolim e eu, alvejados por dardos venenosos em forma de graçolas inconseqüentes, agora é que não subirei às tribunas para denunciar lorotagens, petas, mentirolas de um outro livro muxibento. Acostumei-me a erros primários e mentiras escabrosas que esses inconseqüentes se permitem repassar como verdades para leitores desavisados - coisa feia, não?

O livro a que agora me refiro, meu querido Ary, é o "Museu da Imagem e do Som - Rastros de Memória", que deveria ser subtitulado como "Vestígios de Memória", tão claudicantes e omissas elas se mostram naquela luxuosa edição. Ricardo Cravo Albin, na sua exuberante modéstia, promove também uma espécie de auto-coroação no citado livro. O nobre memorialista se esquece, como pesquisador que se proclama ser, de contar a verdadeira história daquela instituição, que a conhecemos bem. Perdeu a oportunidade de nos fazer revisitar o delírio de Carlos Lacerda em construir o projeto idealizado por Mauricio Quadrio, a quem entregaria depois a direção da Casa - que por pouco não se chamou Museu da Imagem e da Luz ("de son et lumiere"). Poderia, ainda, listar as administrações que sucederam a do Mauricio, historiando-as. Surgiriam episódios políticos de relevância, como a dissolução dos Conselhos, a criação dos prêmios Golfinho de Ouro e Estácio de Sá, a gravação dos históricos depoimentos - idéia proposta por você ao Ricardo que, inteligentemente, a adotou. Conheceríamos as queixas lavradas por Henrique Foreis, o Almirante. Reler, há pouco, uma de suas cartas, me fez desnudar uma das faces que o livro, de alto calibre ficcional, não revela.

Seu legendário autor (entenda-se esse legendário como profícuo autor de livros com fantasiosas, tonitruantes e gongóricas legendas) expulsa personagens, episódios e datas de seu último livro com raro desembaraço. Quase nos faz acreditar ter sido ele o idealizador e construtor daquele Museu, de cuja história agora se apropria para adulterá-la. De sua exuberante modéstia nascerá em breve o Dicionário Albin de Música Popular e também, conforme anunciam as colunas sociais que freqüenta, um Instituto Cravo Albin de Pesquisa domiciliar-virtual (ou coisa que o valha) aberto ao público, num gesto de rara magnificência. Temo que em breve o MIS possa vir a chamar-se Cravo Albin, já que se exibe como uma espécie de Presidente Vitalício. Ocultando um dos braços sob o dólmã cheio de alamares, Cravo Albin sonha com seu particular Waterloo. Não se ouse desafiar tais Napoleões: guardam sempre um Ministro sob os braços, te oferecem um verbete em troca de uma reverência. .

Não me constrange mais que Ricardo Cravo Albin insista em se investir como produtor de um disco que não produziu - uma das inverdades que seu livro de legendas repisa. Antes e depois do disco de Elizeth (1968) acompanhada por Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e o Época de Ouro, produzi pelo menos uma dezena de discos para ela e não sei quantas outras dezenas para outros artistas. Se o seu delírio o faz julgar-se produtor daquele disco, idealizador do MIS, gost writer da carta de Caminha ou estilista exclusivo de Dona Maria I, não serei eu a colocá-lo numa camisa de forças. Ricardo tem fantasias absurdas, já inventou uma lista das 14 melhores músicas brasileiras de todos os tempos, daqui a pouco irá promover uma enquete para saber quais as 17 maiores mezzo-sopranos da região centro oeste do Piauí.

Vim te dar um abraço e acabei tocando em assuntos desagradáveis. Mas tudo isso porque sei que você também se preocupa em não fornecer informações duvidosas para essa geração que, fiando-se em nossa credibilidade, delas irá se servir, repassando-as como sendo de boa fonte. Repito: toda mentira repetida reiteradamente tende a tornar-se verdade. Se não tratarmos a nossa história com respeito e a informação com qualidade, como essa nova geração irá entendê-la? Respeito é bom e dele se gosta. Acho que nosso Mário de Andrade ensinou isso a todos nós abundantemente.

Esta carta, sem ar de fuxico, vai pra guardares num escaninho amoroso. É minha forma de dizer: ainda bem que não fazes essas coisas. É oportunidade também para te desejar um belo aniversário, cercado de muitos amigos-discípulos que sempre fomos e seremos. Pena que o nosso Jota Efegê não esteja mais por aqui para cantar os nossos parabéns.

Saiba-se, além de amado, muito respeitado por todos nós.

Discípulo, HBC

Que se registre, paralelamente, a grande confusão que cerca a criação do Museu da Imagem e do Som, da Fundação Vieira Fazenda, de suas Diretorias e Presidências. O livro de Ricardo, que pretendia contar a saga da criação do MIS, é omisso no que se refere a informações transcedentais. Não explica o contexto político em que se deu a criação do Museu por Carlos Lacerda, e a importância de Mauricio Quadrios nesse processo. Talvez o discurso do Governador, transcrito aqui, possa elucidar um pouco essa matéria, ainda mais confusa após a publicação do citado livro. A falta de menção a Ricardo ao se inaugurar o Museu, talvez explique a ausência de sua importância naquele momento histórico. Méritos teve, e muitos, ao fazer do MIS a sua obsessão, dele se tornando o maior promotor. Isso talvez explique (sem justificar) a criação do Instituto a que, modestamente, deu seu nome. Ou, talvez, já tenha fundamentado suas razões ao justificar em entrevista à "Veja" de 11/04/2001, que órgãos públicos sejam "péssimos guardiões de acervos dito culturais". Se o Instituto Cravo Albin realmente vier a existir, de que forma coexistirá com o Museu da Imagem e do Som, onde, aliás, é remunerado como Assessor? E o Dicionário Cravo Albin, financiado pela Biblioteca Nacional, resultará na extinção da Enciclopédia da Música Brasileira, editada desde 1977?

Aos pesquisadores, a palavra.

Nessa carta ao Ary, faço referência a uma outra que enviei, em forma de circular, a alguns poucos amigos. Andávamos, eu e Elena Bittencourt, injuriados com o capítulo de um livro que abordara, com equívocos e graçolas desnecessárias, não só o temperamento de Jacob do Bandolim (a quem o autor não conheceu pessoalmente), criticando a mim por ter letrado choros de autores já falecidos - como é o caso de Jacob, Chiquinha Gonzaga e Nazareth. E questionava se "teria um letrista o direito de escolher uma melodia de autor já falecido e dela usufuir no aspecto do direito autoral".

Depois do episódio da filha de Clementina, andei revirando meus arquivos, vasculhando o computador - e encontrando espinafrações de todos os feitios, porque nunca foi meu hábito calar diante de injúrias. Transcrevo apenas o início dessa circular : " Credibilidade. É o que se espera de um livro que se propõe ser uma obra de referência e de cunho paradidático. É pelo menos o que se alardeia na contracapa da edição do livro "Choro do Quintal ao Municipal" (Editora 34,1998) ".

Da minha decepção, dou agora conta : citar a bibliografia consultada é uma regra nesse tipo de publicação e, também, uma questão de ética - até porque meus livros, nota-se, foram consultados. Ignorar que o primeiro registro do violão de Nelson Cavaquinho foi feito em 1965 no Lp "Elizeth sobe o morro", é menos grave do que omitir a admiração que Jacob nutria pelo "Pedacinhos do céu", de Waldyr Azevedo ou a generosidade em indicar Luperce Miranda, com quem tinha diferenças pessoais ( mas de quem executava as obras ), ao Deo Rian. Desqualificá-lo como ser humano com base em fontes duvidosas, é prematuramente se desqualificar para o ofício de pesquisador. É quase cometer o erro de Gilberto Gil, que o classificou de policial - ele que foi apenas um Escrivão Juramentado, admitido em concurso. Jacob tinha um temperamento difícil, talvez porque seu nível de exigência musical não o fazia tolerar os medíocres. Era extremamente cioso com a qualidade da informação que passava em seu ofício de músico e pesquisador. Tenho cartas e documentos que provam essa probidade e também um rigor que por vezes me parecia excessivo - e hoje não mais. Radamés Gnattali, que me deu a honra de ser seu parceiro (a letra é dedicada a Zezé Gonzaga, sua cantora preferida ) - tinha por Jacob uma admiração irrestrita, expressa, aliás, não só na Suite Retratos, mas em todos os movimentos em que se reverenciava a memória de Jacob - como no Tributo que lhe prestamos através da Camerata Carioca.

No caso do autor em pauta, deve-se dizer que é um operário da música. Autor de um método para seu instrumento, produtor de discos importantes, idealizador de alguns conjuntos musicais - mas não da Camerata Carioca, que, aliás, chegou a integrar, por indicação de Mauricio Carrilho, e substituindo Luciana Rabello. Ao operoso músico e agora pesquisador devo, até, a revelação de ter encontrado na Rádio Mec um progama que fiz em 56/58 com D. Nair de Teffé, a célebre cartunista Rian, filha do Barão de Teffé e víuva do Marechal Hermes da Fonseca. Ela, então Primeira-Dama do país, desafiou as regras dos salões palacianos, tocando em seu violão o "Corta-Jaca" de Chiquinha Gonzaga - depoimento que deve constar daquela fita, à qual nunca mais tive acesso.

Acho que um pesquisador deve ter a consciência de que cada informação equivocada ou leviana em seu livro irá empobrecer o conhecimento de seu leitor, que repassará a mentira como se verdade fosse. E a mentira, segundo aforismo de Salomão que me foi ensinado por Aracy de Almeida, é a verdade provisória.

Ontem, durante uma palestra, ouvi de um participante uma grave afirmação : citando um autor que agora não me vem à cabeça, dizia que diante de uma biografia desinteressante, optava sempre pela lenda.

Acontece que a história do Brasil, ensinada nas escolas, é também cheia de lendas - uma forma encontrada também pela ditadura para retocar e camuflar verdades incômodas. Uma informação de qualidade não pode priorizar a lenda em desfavor do fato verdadeiro. Deve-se, até, contar o fato e tambem a lenda. Um livro que pretenda servir de referência e que tenha um cunho paradidático, tem que se desbastar de graçolas ou invencionices - sinônimos de lendas. Sabe-se de pesquisadores que usam ghost writers, que reinventam a história, sem dar-se conta da irresponsabilidade desse ato.

Daí a minha constante auto-penitência e quase arrependimento por alguns livros onde, sem querer, induzi a pensarem que fossem de pesquisa. Sou um desengavetador, repito, um mero desengavetador de histórias que as conto sem aumentar um ponto. Se por vezes me trai a memória, que me perdoem. Má fé, jamais a usei.

Um operário da música, como é o autor, não merece a espinafração pública que, com rabo entre as pernas, levei um dia para casa quando, em 1966, foi editado o libreto da ópera-popular "João-Amor e Maria", de parceria com Mauricio Tapajós e Cacaso, avacalhado em termos chulos por um hoje famoso novelista, que na época se exercitava como crítico literário. Recomendou-me, quase que literalmente, que eu enfiasse meu livro no rabo e fosse buscar outra ocupação. Se tivesse sido obediente a tal conselho, teria, quem sabe? livrado a poesia e a música de mais um mau letrador de chorinhos...

Por oportuno, transcrevo um texto que traduz meu pensamento em relação ao assunto. Ele me foi encomendado por uma jornalista que não o publicou, mas o faço agora :

"Há pouco tempo, alguns rábulas que ditam as normas e procedimentos da nossa música popular, promulgaram um AI-5 proibindo que se letrassem os choros que, segundo eles, não podiam ganhar versos. "Choro é pra ser tocado", decretaram, e fim de papo. Fizeram ainda pior os sábios : quase me culparam de ser o deflagrador da moda.

Esqueceram-se, os doutos, de afixar essa proibição na lápide de Vinicius de Moraes, que letrou o "Odeon" de Nazareth. Esse interdito proibitório se parece com o vazio desses institutos culturais domiciliares que andam agora inventando, reduto de rega-bofes marqueteiros - pois a palavra cultura, valha-me Deus, virou gazua, virou manivela para fazer jorrar grana para essas causas inúteis.

Tudo isso agora me vem à cabeça porque ando convivendo demais com alguns legados de Jacob do Bandolim que, como se sabe, era avesso a trambiques culturais e, sobretudo, a falsos pesquisadores. Elena, sua filha dileta, com quem passo uma tarde inteira vasculhando o diário escrito por Jacob, lembra a verdadeira ojeriza que ele dedicava a esses esvoaçantes atravessadores de (falsas) informações. Chegou a afixar, em seu estúdio de trabalho, uma placa advertente : "Pesquisa é no Instituto Pasteur", que recebeu um adendo meu que o fez rir às chamadas bandeiras despregadas : "Vá pesquisar a sua mãe". Durante algum tempo, a placa adornou meu escritório.

Peguei outro atalho, me desguiei do assunto? Claro que não : aqui estou eu com uma letra que o Jacob fez para o "Ingênuo" de Pixinguinha. Isso mesmo : o próprio Jacob, a maior autoridade e o maior estudioso do choro brasileiro, fez o mesmo que dezenas de poetas fizeram antes dele : letrar choros alheios - porque não se pode engessar um gênero musical, impedindo que a invenção esbarre em conceitos duvidosos, sem qualquer base científica. Lembraria aos desmemoriados de plantão que Garoto já era falecido, quando Vinicius e Chico Buaque letraram o "Gente humilde".

Para quem considerou um sacrilégio o poeta Vinicius letrar o "Lamentos", de Pixinguinha ( e a pedido do próprio ), lembraria que ninguém de bom senso jamais lavrou um só protesto quando Braguinha colocou versos no quase então desconhecido choro "Carinhoso", que ganhou popularidade a partir da belíssima gravação de Orlando Silva que tirou aquela música de um abissal silêncio que durava 20 anos. Alguém ousa lembrar alguma queixa de Pixinguinha a respeito?

Acabo de fazer versos para o "Benzinho", que vai juntar-se ao "Noites cariocas"e "Doce de coco"- completando assim uma trilogia Jacobeana que, na pior das hipóteses, vai fazer um agrado aos corações de Adilia e Elena, esposa e filha de meu querido Jacob, diletas amigas. Desde o dia em que Pixinguinha me convidou para letrar o "Fala baixinho", deixei de dar ouvidos aos censores travestidos de críticos.

Ou será que, ao censurar os choros letrados, não estarão querendo esses doutos destronar Ademilde Fonseca, a "Rainha do chorinho", exemplo mais vivo da riqueza e flexibilidade daquele gênero, a quem a palavra empresta a riqueza também de nossa lingüa? Que se faça um plebiscito junto ao povo, que há mais de meio século enche os pulmões para cantar o Carinhoso. ".

Capitulo V

Generais me assustam, Ministros não. A um já mandei pessoalmente à merda, e a outro adverti dentro de um elevador em Brasília, quando imperialmente passou à frente de Elizeth Cardoso, desconhecendo as mínimas regras de educação e cavalheirismo - que o obrigaria a salamaleques à Grande Dama, mandando às favas as regras cerimoniais que dão precedências a altas otoridades em prédios oficiais.

Minto : também Ministros me assustam às vezes. Lembro de um, Armando Falcão, que ocupava o Ministério da Justiça em plena ditadura. Arrogante, prepotente, dono das verdades. Não se dava ao luxo de abrir a boca : talvez exercesse uma auto-censura, ele que se especializara em calar a boca dos outros. Por um desses acasos, sua família era ligada à de Sergio Ricardo, bravo companheiro de lutas e um dos fundadores da nossa Instituição. E, enfim, cá estou eu a contar a história prometida, e lá vou eu, comandado pelo bravo guerrilheiro, para um encontro com o Ministro, a quem Sergio relataria as ameaças que rondavam a Sombrás e seus dirigentes. Lembro da escolta que precedeu a entrada do Ministro : walkie-talkies, senhas, códigos - e eis que chega a figura. Um encontro quase tão patético quanto o que tivemos ( Chico Buarque, Sergio Ricardo e eu) com Nei Braga, figura doce, oposta à do outro, mas político até a medula. Constatamos ali o quanto o poder emascula o caráter dos políticos profissionais e desbasta os mínimos principios que deveriam reger o mandato que cumprem.

A cooptação se dá através de muitos modos, inclusive títulos e medalhas. Meu medo de recebê-las talvez seja uma defesa absolutamente infantil. Tantas já as recebi, que criei defesas que me permitem distinguir quando há reconhecimento ao mérito ou quando disfarça intenções cooptativas. Lembro até da alegria de Tom Jobim, no gabinete de José Aparecido de Oliveira, mostrando a mim e Oscar Niemayer (tenho a foto), orgulhoso, a comenda recebida.

Mesmo após a recusa à Ordem do Mérito Cultural que me outorgou, faça-se justiça ao Ministro Weffort, coerente talvez ao seu passado petista : ante minha recusa de ir a Brasília, convidou-me para um encontro em território neutro. No caso específico, seria na casa de José Maria Guimarães Monteiro, Mangueirense que eu conhecera por intermédio de Sergio Cabral. Não havia como recusar o convite se, afinal, ao dono do território já oferecera, em outra circunstância, a minha própria casa para sediar cerimônia inesquecível : o convite a Chico Buarque para ser enredo da Estação Primeira.

Não foi um encontro difícil. Até porque, para amenizá-lo, levei minha parceira e afilhada Joyce, essa grande intérprete-compositora que freqüentou as hostes da Sombrás. Sempre é assim : os amigos são as escoras, as pilastras naturais que solicitamos quando uma situação melindrosa ameaça descambar para o contrangimento, que precisará um dia ser objeto de testemunho.

Sugestões que Weffort me pediu foram parcialmente acatadas ( desejava homenagear a Mangueira - e solicitei que estendesse essa homenagem à Velha-Guarda da Portela e à nascente Velha-Guarda do Imperio). Idéias sobre nossos projetos culturais foram amplamente discutidas e fundamentadas, e ganharam parceria. Leio que aceitou outras sugestões : homenagear Clementina de Jesus e Paulo da Portela, nos centenários que completariam neste ano.

Aproveitei para, nesse encontro, abordar o projeto de um Simpósio sobre a Música Brasileira, idéia inicialmente apresentada à Presidente do Museu da Imagem e do Som em 25/fev/1999 e posteriormente à Amar/Sombrás. Simpósio em forma de Encontro - o 6O - da Associação de Pesquisadores da MPB, que realizei, dois deles, em minha gestão na DMP da Funarte. Recomendei participantes : Sergio Cabral, Ary Vasconcellos, Hermanno Viana, João Máximo, Telê Porto Ancona Lopes, Miécio Caffé, Nirez, José Ramos Tinhorão, Jairo Severiano, Antonio Nobrega, Ruy Castro, Pedro Alexandre Sanchez, Mauricio Quadrio, Zuza Homem de Mello, Ricardo Cravo Albin. Sinto-me à vontade para aceitar não só o convite de Marilia Trindade Barbosa para participar do encontro, como também, só agora, a Comenda que voltou o Ministério da Cultura a me outorgar. Recebo-a em nome das equipes que consolidaram os projetos culturais que idealizei, aos parceiros dos tantos sambas que fiz ao longo da minha vida, aos companheiros dessa luta que travo desde 1951, quando me iniciei como repórter, até os difíceis momentos vividos na velha Sombrás, sob o tacão da Ditadura, ou nas emissoras de rádio e televisão onde atuei como produtor de discos e programas culturais, durante décadas. Se puder ir recebê-la, será em nome das clementinas que povoam minha vida.

Capitulo VI

Há pouco tempo, talvez por ter abordado o assunto em entrevistas que dei a diversos canais de televisão, uma pergunta tem surgido com mais intensidade nos últimos dias: o que seria meu arquivo, de quantas peças se constitui meu acervo, quantos livros inéditos tenho engavetados, etc.

Isso me obrigou a uma reflexão, ao receber de volta quase 20 caricaturas de Pixinguinha, que acumulei ao longo de minha antiga devoção a um de meus parceiros mais queridos. Tenho caixas e mais caixas que acumulam toda espécie de documentação: projetos de discos, centenas de roteiros de programas de rádio, televisão, sinopses de espetáculos, uma infinidade de textos escritos a partir de 1951, quando iniciei minha carreira como foca numa revista de rádio. Caixas e mais caixas com programas de concertos e peças teatrais assistidas aqui e no exterior. Talvez a parte mais importante do acervo sejam as fitas de rolo, k7 e DAT de todos os gêneros, fixando encontros em minha casa com Cartola, Pixinga, Nelson Cavaquinho, Elizeth, Clementina, Sarah Vaughan - além de vídeos, milhares de fotos e discos, livros, lembranças, cartas de Drummond, Nássara, Isaurinha Garcia, Maria Luisa Anido, Nellie Lutcher, Jacob do Bandolim. Álbuns encadernados, com recortes sobre atividades que exerço há meio século. A chamada parte literária (poemas inéditos, um romance, letras de música, artigos inéditos ou publicados em revistas de literatura) - está sofrendo um processo de ordenação por meio do trabalho do Prof. Heron Coelho, objetivando a publicação de novos livros.

Porém, confesso com tristeza que meu maior acervo está em mãos alheias. Melhor dizendo: o que resta deles, nos arquivos da rádio MEC e da TVE, em forma de programas que produzi, roteirizei e apresentei - e que gostaria de vê-los num suporte novo, que permitisse a essa garotada, que me procura ávida de informações, conhecer a arte, por exemplo, de Radamés Gnattali com seu quinteto. São centenas de registros que fiz com toda sorte de personalidades, a partir de 1976, quando comecei a fazer televisão. Há alguns meses luto para que esse material seja revertido em DVD, e acessado ao público - antes que se deteriore nos arquivos da TVE.

É a preocupação que tenho com os Arquivos de Jacob do Bandolim, há quase trinta anos sob a guarda do Museu da Imagem e do Som. O Desprojeto que transcrevo a seguir, mostra o grau de nossa preocupação, minha e de Elena Bittencourt, sua filha :

JACOB SEM BANDOLIM - (DES) PROJETO

CONCEITO

Tombar patrimonialmente o sentimento de uma cidade era uma utopia alimentada por Mário de Andrade, porque nem todo patrimônio público é constituído apenas de bens físicos, materiais. O que se deseja, agora, é promover o des-tombamento do legado material de Jacob do Bandolim, tornando-o um patrimônio de real utilidade O que se aspira é revelar à coletividade todo o sentimento que envolvia sua suprema arte.

HISTÓRICO

Jacob do Bandolim foi muito além do instrumentista que se provou genial. Deixou, como autor, um número infinito de obras, tornando-se, paralelamente, um pesquisador emérito da música brasileira e do choro em particular. Legitimou o gênero através de um permanente trabalho de divulgação de um repertório que coletou com extrema dedicação ao longo de sua breve vida. Ao morrer, em 13 de agosto de 1969, aos 53 anos, Jacob Pick Bittencourt deixou a marca de sua forte personalidade em partituras, escritos, discos e fitas que foram entregues à guarda do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Sua grande preocupação era com a memória do choro e, sobretudo, com a obra de compositores como Pixinguinha, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, João Pernambuco e outros gênios que ele perpetuou numa discografia impecável, com cerca de 300 fonogramas comerciais, além de 122 fitas entregues ao Museu da Imagem e do Som. Quem participou de seus célebres saraus, tornou-se não apenas um ouvinte privilegiado das noites mais cariocas que esta cidade já conheceu, mas um discípulo sem carteira de um Mestre que não sonegava lições, que fazia questão de repassá-las nas inúmeras atividades que exercia - inclusive como radialista. Proclamava não ser professor e, por isso, não ter formado alunos. Ignorava que, ao morrer, deixaria não apenas uma escola, mas uma universidade aberta a todos que um dia iriam estudar o gênero a que se dedicou com rara e profícua eficiência. Sua casa em Jacarepaguá era uma permanente oficina musical, onde reunia a nata dos chorões cariocas, proporcionando a eles o convívio com músicos de outros Estados, de quem fazia questão de registrar as obras para posterior divulgação. Canhoto da Paraíba, Rossini Pereira, Zé do Carmo, Dona Ceça e outros autores-instrumentistas eram recepcionados e hospedados em sua casa, num gesto de ampla generosidade por quase todos reconhecido. Recebia também artistas internacionais do porte de Maria Luisa Anido, Sergei Dorenski e Oscar Caceres em saraus memoráveis. E essa trajetória não pode ser ignorada, e sua herança tem que estar ao alcance daqueles a quem a legou: aqueles que o viram tocar, ou aqueles que, agora, continuam atentos às lições que deixou em sua discografia ou nas fitas-aulas que, depositadas há mais de 30 anos no Museu da Imagem e do Som, dão mostra de fadiga e apontam para uma não impossível destruição. Quando do desaparecimento de Jacob, o Estado de São Paulo foi o primeiro a interessar-se pelo precioso legado. Entretanto, o pesquisador Ary Vasconcellos intercedeu junto à viúva Adylia Bittencourt, para que esse patrimônio não fosse deslocado do Rio de Janeiro, berço do choro, que tinha em Jacob do Bandolim uma de suas grandes instituições. Se não podemos reconstituir a sonoridade extraída por Chopin de seu piano e as nuances de sua interpretação, a arte de Jacob é contemporânea, o que nos permite contemplá-la através da audição de seus discos e das fitas em que a registrou. Mas boa parte dessa obra continua enclausurada, sem ter sido submetida às novas tecnologias que poderiam reconstituí-las, resguardando-as e promovendo sua devolução aos estudiosos da arte do grande intérprete e autor. São bens materiais, mas perecíveis.

JUSTIFICATIVA

Este (des)projeto tem, por objetivo, a devolução desse material, um bem patrimonial de utilidade pública, àqueles que desejam conhecer não só a obra do compositor, mas todo o trabalho de pesquisa que ele desenvolveu e repousa, hoje, naquele precioso arquivo. Sua biografia, escrita pela Prof. Ermelinda Paz (Funarte,1997) destaca a importância desse acervo, formado a partir de uma permanente atividade de pesquisador, que corria paralela à sua trajetória de instrumentista e compositor. Jacob era um servidor em tempo integral da nossa música, um operário em seu instrumento, que a todos atendia com prestimosidade, plantando as raízes que hoje brotam graças, em grande parte, ao trabalho que realizou silenciosamente, sem alardes. Seu arquivo abriga milhares de partituras da literatura do choro e de todas as suas variantes históricas.

Ao estimular a preservação do gênero através de um Concurso que em boa hora institucionaliza, espera-se que o MIS venha obter recursos para também preservar a história do choro, boa parte dela provisionada nos arquivos sonoros de Jacob do Bandolim.

Herminio Bello de Carvalho

OBJETIVO

O (des) Projeto Jacob sem Bandolim visa ganhar voz junto a todos aqueles que trabalham com registro e documentação, tendo como meta principal a divulgação daquele acervo através de sua multiplicação em suportes os mais variados, permitindo que se faça um trabalho de divulgação das múltiplas e diversificadas atividades de Jacob do Bandolim, como autor, instrumentista, pesquisador e também animador cultural. Assim, se ampliavam os horizontes da informação da qual se fez um servidor em tempo integral, como já se fundamentou no Histórico e na Justificativa deste (des) Projeto. Sua característica básica é seu aspecto informal, buscando tão somente a adesão de pesquisadores e estudiosos da música brasileira para uma causa de interesse público: acessar, como o fazia em vida seu patrono, o acervo confinado há mais de 30 anos no Museu da Imagem e do Som. Torná-lo não uma ficcional referência de arquivologia, desprovida de utilidade : dinamizá-lo, promovendo sua digitalização, integrando-o a outros movimentos como as Oficinas de Choro que hoje enriquecem, com periodicidade, a vida artística do Rio de Janeiro. Perpetuá-la, como vem fazendo a Acari Records, que promoveu o registro de mais de 300 títulos de choro, gravados numa série de 15 CDs, que serão disponibilizados para os estudantes de música. Ou integrá-lo, em futuro, às atividades do Projeto Escola Brasileira de Música BR e seus três programas básicos : a Escola Portátil de Música Brasileira BR, as Oficinas Volantes de Música BR e as Apostilas Sonoras BR(série de Cds com uma discografia básica, acompanhada de bibliografia) - todos dirigidos aos estudantes de música brasileira.

METAS

Constituem-se como metas de (des) Projeto, a serem cumpridas até 13/agosto/2001, data em que se completam 32 (trinta e dois anos) do desaparecimento de Jacob do Bandolim :

  • Reivindicar que se reinventarie todo o acervo do Arquivo Jacob do Bandolim, reintegrando, ao mesmo tempo, todas as peças dele desmembradas (partituras, fotos, documentos, epistolografia), promovendo sua conseqüente informatização e acesso público àquele acervo.
  • Digitalizar todas as partituras, para consulta pública.
  • Recuperar todo o acervo de fitas gravadas por Jacob do Bandolim, revertendo-as para um suporte tecnológico de maior durabilidade, promovendo-se pleno acesso desse material de pesquisa ao público.
  • Inventariar e registrar toda a obra de Jacob do Bandolim, gravada comercialmente, revertendo-a para o formato Cd, em forma de coleção.
  • Promover o mesmo inventário junto a arquivos pessoais, que possuam registros sonoros informais daquele músico, registrando-os em suportes modernos, que seriam depois oferecidos a instituições que trabalhem com a memória nacional (Museus da Imagem e do Som, bibliotecas, escolas de músico, arquivos públicos, etc).
  • Promover uma busca de imagens de Jacob do Bandolim em acervos das televisões brasileiras, resgatando-as em suportes a que se dará acesso público. É de fundamental importância conhecer sua forma de execução, sua postura, o uso de sua palheta, seu dedilhado e digitação - informações que se restringem apenas àqueles que tiveram o privilégio de ouvi-lo tocar pessoalmente. (Obs: existe apenas registro de 7 segundos de Jacob do bandolim na televisão brasileira. Sem som).
  • Criar um Website (sítio virtual) Jacob do Bandolim, que tem como meta ampliar as informações hoje sitiadas no Museu da Imagem e do Som, tornando-as acessíveis aos usuários do sistema, ou acoplá-lo a um sítio virtual já existente (inclusive seu vasto acervo de partituras que, dessa forma, seriam disponibilizadas ao público).
  • Dirigir proposta à Rádio Mec para que se crie um exclusivo programa dedicado a Jacob do Bandolim, no qual se dê divulgação de todo esse trabalho, que será gravado em suporte que permita sua consulta através de instituições culturais que por ele se interessem.

    DA COMISSÃO

    Serão convidados a fazer parte dessa comissão as seguintes personalidades : 01) O conjunto Época de Ouro, através dos músicos que o integram, mantenedores naturais da memória de seu criador, Jacob do Bandolim; 02) Deo Rian, discípulo informal de Jacob do Bandolim, e permanente divulgador de sua obra. 03) Pesquisador Ary Vasconcellos, autor de diversos livros sobre a música brasileira, idealizador do Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som; 04) Maurício Carrilho, maestro, compositor, que vem realizando um verdadeiro trabalho arqueológico sobre o choro, através do levantamento e registro de mais de 200 composições inéditas no selo Acari, trabalho de pesquisa feito de parceria com Luciana Rabello (cavaquinho), Pedro Amorim (bandolinista), Celso Silva (pandeirista) e Álvaro Carrilho (flautista), que integram também esta Comissão, representando as Oficinas de Choro que recontam, de forma dinâmica, a sua história; 05) Sergio Prata, músico, pesquisador; 06) Luiz Otávio Braga, músico, professor, ex-integrante da Camerata Carioca, pedagogo que integra o Projeto de Música Brasileira BR; 07) Helton Altman, produtor musical, idealizador da Rua do Choro e do Clube do Choro de São Paulo, autor de iniciativas como o projeto "Chorando Alto", que teve a participação dos maiores nomes da música instrumental brasileira e internacional. 08) Jairo Severiano, pesquisador, biógrafo de Braguinha e autor, com Zuza Homem de Melo, do livro "Canção do tempo". 09) Prof. Neusa Fernandes, museóloga, escritora, ex-Diretora da Femurj e do Museu da Imagem e do Som; 10)Afonso Machado, bandolinista, integrante do conjunto Galo Preto, pesquisador da obra de Jacob do Bandolim. 11) Roberto Gnattali, Diretor do Conservatório de Música de Curitiba, que faz parte do Projeto Música Brasileira BR. 12)Francisco Faria, pesquisador do choro e, em especial, da obra de Jacob do Bandolim, representando seu pai, Benedito Cesar de Faria. 13) Pedro Aragão, pesquisador. 14) Rodrigo Ferrari e Egeu Laus, editores da "Revista do Choro". 15) Reco do Bandolim, de Brasilia 16) Elena Bittencourt, filha de Jacob do Bandolim. "

    Capitulo VII

    POSFÁCIO

    Tenho a mania de recolher matérias sobre educação e cultura, e acompanho de perto as Oficinas musicais que meus ex companheiros da Camerata promovem aos sábados, ali na Lapa, ao lado da Sala Cecilia Meirelles. De longe, acompanho também Leandro Braga e sua escola em Santa Teresa. Aplaudo meu velho e querido baixista Itiberê (seu baixo pontua a maravilhosa atuação de Isaurinha Garcia no disco "Nua e crua", que produzi em 1976). Sua orquestra, constituída só de jovens, evoca o trabalho que, há uma dezena de anos, foi igualmente realizado pelo Roberto Gnattali. Emocionado, visito uma escola particular em Xerém, que não é mantida por nenhuma Ong ou qualquer Instituto Cultural. É financiada por Zeca Pagodinho, um dos melhores seres humanos que já conheci em toda a minha vida.

    Ongs, Associações diversas, Secretarias Estaduais ou anônimos professores que atendem de graça alunos carentes - tudo isso vejo inserido num quadro que mereceria uma reflexão mais ampla por parte de todos aqueles que irão participar do 6O Encontro de Pesquisadores que será promovido pelo MIS neste outubro.

    Agora mesmo concentro minhas energias num espetáculo que pretende reeditar a linha ideológica do "Rosa de Ouro". Aqui em minha casa ensaio Cristina Buarque, Mariana, Pedrinho, Pedro Paulo, Luciane - sob a batuta de Mestre Paulão 7 cordas, e a cada encontro saio revitalizado. A cada e-mail que abro, é uma mensagem de carinho que me estimula a trilhar esse caminho que há 36 anos ousei levar para um palco, mostrando a arte abissal de Clementina de Jesus ao lado de Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Anescarzinho do Salgueiro, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho - todos reverentes ao retorno de Aracy Cortes aos palcos.

    Quando os levo ao meu escritório, explico que por ali passaram Pixinguinha, Elizeth, Mãe Clementina, Aracy de Almeida, Caymi, Gonzagão, Herivelto, Ellis, Sarah Vaughan, Tia Amélia do Jaboatão, Morengueira da Silva, Chico Buarque, Mauricio Tapajós, Gonzaguinha, Aldir Blanc e dezenas ( ou centenas : ali moro há 30 anos) de outros amigos que entenderam que nenhum trabalho resiste ao tempo sem um mínimo de conteúdo ideológico, sem um mínimo de disciplina e um transbordante suor.

    É em homenagem a essa juventude que chamam de alienada (sem uma reflexão mais atenta sobre os fatores alienantes) que também fiz a montagem desse livro, trabalho de dois ou três dias, graças a essa maravilhosa invenção que é o computador, e as memórias que ele preserva.

    A qualidade da informação, que tantas vezes dela me descuidei sem qualquer má fé, e pela qual me penitencio, é uma exigência que se faz em respeito ao futuro dessas gerações que evém chegando, com possibilidade de mudar o mundo. Que possamos legar-lhes bons exemplos. Como, por exemplo, a publicação do segundo volume de 'Maxixe, a dança excomungada", cujos originais foram entregues à Guarda da Biblioteca Nacional por Felisbela, mulher de Jota Efegê. Essa é uma proposta que faço aos participantes deste encontro. homenagem mais do que merecida a um de nossos grandes Mestres, e também à juventude que necessita beber dos conhecimentos que nos legou.

    Legou-me também um tesouro essa Rainha Ginga que é Clementina de Jesus. E é à sua lembrança que dedico este depoimento.

    Outubro de 2001

    BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

    Zélia Gattai afirma que costuma recorrer apenas à sua memória para escrever seus livros, sem valer-se de apontamentos ou arquivo. Memória fraca, tenho que consultar não só o que escrevi, como também, o que sobre mim gastaram tempo e palavras escrevendo. Também, sempre às mos, tenho os Dicionários do Aurélio (e agora o do Houaiss) e o de Música Brasileira do meu velho e querido amigo Mário de Andrade, com quem bebi, ficcionalmente, ao lado de Aracy de Almeida e Ismael Silva, na minha Taberna da Glória. Valeu-me bem mais a memória do computador, que guarda quase tudo que, implacável, recolhe em seu disco rígido. Tendo-os citado, inútil seria dizer que não reconsultei os seguintes livros :

    • "Noel Rosa, uma biografia (João Máximo e Carlos Didier, Editora Linha Gráfica)
    • "Choro do quintal ao Municipal"(Henrique Cazes, Editora 34)
    • "Museu da imagem e do som, rastros de memória"(Ricardo Cravo Albin, Sextante Artes)
    • Tese de Claudia Mesquita sobre o Museu da Imagem e do Som, inédita;
    • e o jornal Extra.

    HERMINIO BELLO DE CARVALHO

    Agradecimentos :

    Prof. Heron Yamaguchi Coelho (ordenador dos textos)

    Prof. Leonardo Castilho

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    Discos da Funarte relançados pela Atração
    por Paulo Eduardo Neves em 30/10/2001 às 08h41 #
    Há algumas informações imprecisas quanto aos CDs da Funarte relançados pela Atração Fonográfica. O caso é pior do que parece. Inicialmente os discos forma lançados a mais de R$17,00, isto numa época em que os mais caros lançamentos das grandes gravadoras não chegava a este preço. A gravadora Atração não reduziu o preço à metade, mas sim fez algumas promoções. Como pode-se ver ainda hoje na loja da Atração, os discos da Funarte são vendidos a R$20,00. Para piorar tudo, a gravadora que não teve custo algum para fazê-los, pois a adaptação para CD foi paga usando leis de incentivo a cultura, ainda está deixando os discos esgotarem. Provavelmente nunca mais voltarão a catálogo:-(
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    Programas de música da TVE
    por Paulo Eduardo Neves em 30/10/2001 às 08h50 #
    É um crime contra a cultura brasileira os programas dos arquivos da TVE-RJ não estarem mais sendo exibidos. Hoje a TVE parece mais preocupada em botar um pessoal que nada entende de música para apresentar seus programas. O acervo com vídeos de Cartola, Clementina, Nelson Cavaquinho, Roberto Ribeiro e outros está esquecido desde o falecimento de Fernando Lobo, que ainda apresentava o "Se o caso é lembrar". A TVE nem ao menos retransmite os importantíssimos programas Ensaio exibidos pela TV Cultura.

    Causa-me especial tristeza a falta desses programas na TVE. Foi assistindo a este canal que comecei a gostar de música brasileira e a conhecer nossos grandes artistas. Não tenho músicos ou pessoas que gostam de música na família, samba e choro não tocam no rádio, era a minha única chance de conhecer nossa música. Talvez os programas ganhassem apenas um traço de audiência, mas se não fosse esses programas da TVE, este sítio não existiria hoje.
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    Letras de Choro
    por Paulo Eduardo Neves em 30/10/2001 às 09h06 #

    Sou da turma que não gosta de letras em choro. Algumas até ficam bacanas, como a letra de "Vou Vivendo" do próprio Hermínio que homenageia o finado bar homônimo em São Paulo, mas são raras as vezes que acrescentam alguma coisa. No final acabam é "aprisionando" a música, limitando as possibilidades de improvisação. Mesmo as feitas por grandes poetas, parecem sempre aquém das músicas.

    O exemplo de Carinhoso é uma exceção. São poucos os choros se tornaram mais populares por causa de letras. Quantos além de Carinhoso é possível citar? Quem sabe cantar a letra de Noites Cariocas? E de Brasileirinho? Ou alguma das duas de Doce de Coco, seja a do Hermínio ou a do João Pacífico?

    Claro que não há qualquer problema em letrá-los, ou que isto devesse ser proibido. Um choro ganhar letra não significa que tenha que ser sempre cantado com ela. Se a letra é feita a posteriori, não é preciso gravá-la dando crédito ao letrista, ao contrário do que o Cazes diz errôneamente em seu livro.

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    • Re: Letras de Choro
      por Ricardo em 26/07/2004 às 17h00 #
      Paulo,

      Concordo que a improvisação do choro perde com a introdução de letras, mas tb acho que existem letras que ficaram muito boas, e não podemos deixar de apreciar tudo que é bem feito.

      Esotu atrás dessas letras em algumm site. Vc sabe onde posso encontrar o arcevo dessas letras, na Internet ?

      Meus primos, o Pedro Ramos e o Paulinho (7 cordas), vivem nas rodas de choro paulistanas, e nas reuniões familiares ou de amigos que eles estão presentes são sempre regadas de muito choro, e sempre fico com "água na boca" de cantar aqueles choros !

      Se vc puder me ajudar, agradeço desde já !

      Ricardo
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    • Re: Letras de Choro
      por Paulo Robson em 21/02/2005 às 12h18 #

      Caro xará,

      Sou poeta "bissexto" e, como exercício à técnica, tenho escrito letras para choro. Considero isso difícil pra caramba, principalmente casar a(s) tônica(s) das palavras com as notas “fortes” - e ainda não sei se consegui algo que valha o trabalho, daí o meu extremo prazer ao tentar escrevê-las com alguma criatividade e propriedade. É meu desafio pessoal.

      Concordo em parte contigo quanto à falta de grandes letras consagradas, mas pela própria experiência afirmo categoricamente que tais exercícios (no meu caso) ou mesmo o ofício de alguns - criar letras de choro - são uma ótima receita para que os neófitos e crianças conheçam um pouco da história do choro, como é a sua estrutura musical, os instrumentos mais usados, etc. Isso porque, creio, quem for sério precisa conhecer esses elementos mínimos para elaborar uma letra adequada a algum choro.

      Acredito que os Novos Baianos, com Baby cantando Brasileirinho, contribuíram muito, na década de 70, para que o choro fosse conhecido das novas gerações de então.

      Quanto à improvisação, não vejo problema quando há letra, pois isso pode acontecer durante os solos.

      Paulo Robson de Souza

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    Re: Informação: Qualidade e Responsabilidade
    por Sonia Palhares Marinho em 30/10/2001 às 17h53 #
    Achei o texto muito cheio de ressentimentos... Indiscutível o papel de fomentador e produtor cultural exercido até aqui pelo Hermínio Bello de Carvalho, porém acho que isso mais parece "uma fogueira de vaidades"... A briga com o Ricardo Cravo Albin acaba resvalando para uma questão pessoal ou disputa de poder.
    Com relação a questão das letras de choro, sempre achei uma grande bobagem..., existem boas e más letras, utiliza-as quem quer. Vou semanalmente ao Clube do Choro e a única vez que vi choro "cantado", foi quando a Ademilde Fonseca lá esteve. Não considero isso apropriação indevida, inúmeras outras canções receberam letra após a morte de seus autores... Grave é a situação dos arquivos da TVE e a sua programação atual..., não sei se existe um Conselho da Sociedade Civil que "avalie" e dê sugestões sobre a sua programação..., se não existe é o caso de se pensar na criação de um fórum desse tipo, afinal a TVE é um órgão de utilidade e de interesse público.
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    Re: Informação: Qualidade e Responsabilidade
    por Rafael Ferrari da Fontoura em 31/10/2001 às 09h10 #
    Imprimi ontem a tarde a matéria e levei pra casa para ler com atenção e não disvirtuar para não deixar passar nada em branco. Acho que oque o grande Hermínio disse é uma forma de expressar seu sentimento em relação a um trabalho que deu a vida para divulgar e engrandecer com seus discos, shows, livros e tudo mais. E mais do que isso, é ver que a cultura do nosso ( tão rico país ) está se deteriorando nas mão de quem não entende nada do assunto ou prefere defender interesses próprios aos de toda uma história. Tudo bem né, oque importa é enriquecer e desfrutar da grana e fama, depois que morrer não vai precisar de dinheiro mesmo e já irá ter feito tudo. É oque devem pensar todos aqueles que matam florestas, caçam animais em extinção, colocam pagodeiros de cabelo descolorido na TV, ou bundas exageradas na capa de CD's para vender mais, ou preferem dar espaço na mídia para caras que têm nas letras de suas músicas 80% de xingamentos e palavrões e fazem gestos obscenos para as câmeras do que a um bom sambista ou um conjunto de choro.
    Sinto, e acho que todos que leram a matéria também, um enorme sentimento de injustiça do Hermínio em relação ao trabalho que fez e as idéias que defendeu ao longo da vida e não é reconhecido, principalmente porque tem gente orgulhosa e medíocre que não consegue admirar outra pessoa e só pensa no seu sucesso próprio. Oque falta para a maioria dos chamados "Pesquizadores" é a humildade para chegar em gente como o Hermínio, que tem em sua privilegiada memória, histórias puras do convívio com gente da maior importância e, protanto, pode dizer muita coisa e verdadeiras sobre o assunto. Mas não, o orgulho tolo fala mais alto. É melhor pesquisar em seu livros ( e pegar somente o que foi escrito lá e nada mais ) ou nos de outros que não sabem do assunto e só escrevem o que ouvem por aí do que pegar o depoimento de quem esteve lá e pode dizer coisas que ainda não foram escritas e não dizer de outra forma aquilo que já foi dito.
    Acho que não errou em ter feito nada do que fez. Radical??? Acho que não. Acho que radical é substituir cultura por lixo em nome de fama e status. Para o Hermínio sempre valeu mais a riqueza cultural do que a financeira, assim com para o Grande e sempre criticado ( mas que admiro por tudo que já li e ouvi ) Jacob Bittencourt.
    Sempre foi assim na história da humanidade: aquele que defende uma causa nobre que não é a do interesse da maioria é sempre sacrificado.
    Acho que as calúnias cometidas tem que ser denunciadas e desmascaradas só tem um problema, e não é pequeno: nosso povo ( quando falo povo falo no contexto geral e é claro que maioria não quer dizer totalidade ) é burro e medroso pois nunca se mobiliza para defender nada. E pior: sempre está tudo jogado na sua cara, a roubalheira, a miséria, as mentiras, todos sabemos como funciona a máfia chamada Governo Federal mas preferimos só reclamar quando acontece com a gente pois o pensamento do povo é "que enquanto não atingir a minha pessoa não me preocupo" mas todos esquecemos que é uma cadeia e tudo vai passar por todos, um dia chegará nossa vez de não recebermos nossos direitos trabalhistas, não ser ressarcidos de um mau atendimento do plano de saúde, de não poder trocar aquele aparelho que comprou ontem na loja, de pedir um financiamento para comprar a tão sonhada casa própria e ser enganado descaradamente com tabelas e cálculos ilegais que fazem com que daqui a 20 anos sua dívida seja maior do que quando comprou o imóvel. É por isso que nossa cultura está sendo destruída, porque não lutamos por ela. Há quem lute mas no contexto geral ( quase 200 milhões de habitantes ) meia dúzia de pesquizadores, escritores, músicos, e amantes da arte é um grão de areia no imenso Saara. Não quis ofender ninguém pois se fosse assim teria me ofendido também, só quis mostrar que falta força e união para resolver este problema, não é o Hermínio, ou o Jacob, ou a Marília e nem mesmo o Presidente da República que vai resolver este e nenhum outro prolbema que temos no país e no mundo. É a união de todos em nome daquilo que sabemos ser correto e bom.
    Deixo aqui um imenso sentimento de revolta e tristeza por tudo que acontece mas também a satisfação por saber que vou poder ter acesso as coisas que Jacob nos deixou e que até hoje não pude conhecer pois sou de Porto Alegre e não tenho condições financeiras para viajar ao Rio somente para pesquizar, e porque sou fã dele, de sua musicalidade e principalmente de suas idéias pois já ouvi algumas intrevistas suas da década de 50 e muita coisa que disse se concretizou hoje. Uma delas foi a deturpação e descaracterização da nossa MPB.

    Abraços choristas a todos e principalmente ao Hermínio e aos mentores deste trabalho que está sendo feito.

    Rafael Ferrari
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    Re: Informação: Qualidade e Responsabilidade
    por José Eduardo Ferreira Santos em 02/11/2001 às 17h51 #
    Olha, o Hermínio é um batalhador.É daquelas pessoas que carregam em si o sentido grandioso de ser brasileiro, tendo a incorrigível paixão de amar o seu país, e a cultura que nele é produzida.
    Fico contente ao ler essas páginas de seu verbo construtor, que revela-nos a quem olhar no plano cultural brasileiro..
    Impressiona-me a vitalidade que há no seu projeto de abrasileirar o brasileiro, conforme quis o Mário.
    Após a leitura o que devemos fazer é: cada um de nós construir a cultura deste país com a mesma vitalidade e a mesma paixão que ele tem, pois só desta maneira essas idéias se tornarão mentalidade, pensamento, projetos e políticas culturais.
    Valeu Hermínio.
    Daqui da Bahia estou na frente dessa batalha cultural.
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