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Reportagem fala da aproximação do samba com outros estilos

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 28 de Novembro de 2003 
Assunto: Sítios pela Internet

Vale ler uma a reportagem de João Pimentel sobre os encontros do samba com a música pop. A reportagem fica no jornal O Globo,portanto é preciso um chatíssimo cadastro para acessar.

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Comentários dos leitores

O Globo - Rio, 28 de novembro de 2003


O pop que está bom da cabeça e do pé

João Pimentel

Zeca Pagodinho reúne em sua casa, em Xerém, alguns amigos para uma animada roda de samba alimentada a cerveja e churrasco. Nada demais, a não ser pelo fato de estarem lá dezenas de estrelas do mundo pop como o cantor Falcão, do Rappa, o onipresente Otto, a percussionista Lan Lan, Nando Reis e outros. Dudu Nobre anuncia a gravação de um DVD ao vivo com sambistas e convidados como Lenine e MV Bill. Mart'nália, depois de quase seis meses de temporada no Bar do Tom, onde recebeu de Arlindo Cruz a Caetano Veloso, fecha parcerias com Moska e Zélia Duncan. Esta, por sinal, retoma o repertório do início de carreira cantando sambas e choros. Assim como Sandra de Sá, que faz o mesmo retorno. Marcelo D2, em busca de sua batida perfeita, descobre no batuque carioca o tempero que faltava para dar identidade ao seu rap. Já a recém-criada Velha Guarda do Salgueiro, na hora de escolher o seu padrinho, optou por Gabriel O Pensador...

Seriam esses encontros realmente inusitados? Quais os motivos dessa devoção quase que repentina ao samba? Estaria o ritmo tornando-se pop? Discussões à parte, o certo é que essa simbiose do samba com outras vertentes musicais, que tanto incomoda os puristas, nunca foi tão presente na música brasileira. Para todos os citados acima, a união de forças é mais do que apenas uma curiosidade, é importante e benéfica.

Zélia Duncan diz que rótulos são maléficos

Zélia Duncan, por exemplo, faz questão de jogar todos os rótulos para o alto. Ela, que passou dois meses com o show "Eu me transformo em outras" em cartaz no Rio, estranha ao ser rotulada como pop:

- Acho esses rótulos meio maléficos. Eles ajudam a te confinar em um lugar que a gente não sabe nem qual é. Quero ter liberdade, mobilidade - diz, lembrando-se dos tempos em que ainda se apresentava como Zélia Cristina. - Quando comecei a cantar, em 1981, com 16 anos, meu repertório era esse. Quando me aproximei de outros ritmos e troquei as cordas de nylon pelas de aço, comecei a compor outras coisas. Como me conheceram assim, virei o que chamam de pop e acham que não posso fazer nada diferente.

O universo que ela desvenda no show que faz paralelamente ao de seu último CD, "Sortimento", mostra que a cantora realmente conhece do assunto. Zélia vai ao repertório de Aracy de Almeida; lembra "Nega manhosa" e "Pensando em ti", de Herivelto Martins; interpreta o belo samba "Nova ilusão", de Claudionor Cruz e Pedro Caetano; e, de quebra, busca pérolas como o moderno "Tô", parceria de Elton Medeiros e Tom Zé.

- Querem obrigar a gente a pensar no mercado. Não posso pensar nisso o tempo todo. O que me fez querer ser cantora foram o samba, o choro, a canção. É natural, por isso não tem nada de estranho eu cantar samba como amanhã posso gravar blues, standards .

Dois são os principais motivos dessa aproximação. O primeiro, é claro, o popular Zeca Pagodinho. Nada mais cult do que ir às suas cabritadas em Xerém, sempre freqüentadas pela nata do samba, cada vez mais misturada com artistas de todas as vertentes. O segundo é o projeto Casa de Samba, criado em 1996 pelo diretor artístico da gravadora Universal, Max Pierre, que reúne justamente sambistas e artistas do universo pop. Foi ali que aconteceram e acontecem encontros curiosos como os de Zélia com Beth Carvalho, e o de Caetano Veloso com o veterano Roberto Silva. Curiosamente, o lançamento da série coincidiu com o ressurgimento de Pagodinho.

Rildo Hora muda seu conceito sobre o pop

- Quando Max me chamou para fazer o primeiro Casa de Samba, eu fiquei reticente, ainda tinha um certo radicalismo. Achava que o samba era intocável. Eu era "o cara" do samba e havia muita patrulha. Disse a ele que levaria o pessoal mas que cantariam apenas samba - conta o produtor Rildo Hora. - Logo vi que era besteira. A mistura é saudável. Não foi assim que surgiu a bossa nova?

- Não vejo problema algum. Somos todos músicos e falamos a mesma língua. Se for bom de papo, se souber chegar, está tudo certo - diz Zeca Pagodinho, que gravou uma faixa no disco novo do Rappa, "O silêncio que precede o esporro".

O compositor Moacyr Luz, que lançou este ano o CD "Samba da cidade", tem como marca registrada em suas produções justamente aproximar universos diferentes. Foi assim que ele uniu, em 2000, em um mesmo estúdio, o veterano compositor Guilherme de Brito e a roqueira Cássia Eller. Mais recentemente, no projeto Samba Falado, pôs no palco um poeta de Copacabana, Fausto Fawcett, e um flautista-estivador de Vista Alegre, Cláudio Camunguelo.

- A idéia é exatamente criar essas pontes. No caso da Cássia, achamos que ela tinha uma aura parecida com a do Nélson Cavaquinho, parceiro do Guilherme. Uma coisa meio marginal, no bom sentido - conta Luz. - Já o show do Fausto com o Camunguelo foi um acontecimento. Tinha tudo para dar errado. Mas não deu.

Moacyr Luz vê com bons olhos essas pontes, como a de Lenine com Dudu Nobre. O cantor pernambucano cantará "Xodó de mãe" na gravação do DVD do sambista carioca, no dia 16 de dezembro, no Canecão:

- Nesse encontro um ciclo se fecha. Conheci o Lenine versando Jackson do Pandeiro. Já Dudu versa partido-alto. São culturas complementares. Essas fusões são benéficas para restaurar um padrão de qualidade na música brasileira.

Mart'nália está gostando da mistura

Dudu Nobre diz que essa abertura faz parte de sua geração:

- Todas as pessoas que vão participar da gravação têm ligações com a minha música. Gosto do trabalho do Lenine, do MV Bill e do Gabriel O Pensador. Por que então não podemos nos misturar? - questiona. - Nossa geração tem mais é que caminhar junta. Estamos na mesma luta.

Talvez o símbolo maior dessa conjunção, Mart'nália estranhou quando sua produtora sugeriu que ela cantasse com convidados díspares como Dona Ivone Lara, Geraldo Azevedo e Ivan Lins na temporada de lançamento do CD "Pé do meu samba":

- No começo eu pensei: "O que esse povo tá querendo de mim?". Depois peguei gosto pela coisa. É bacana misturar pop com o samba. Antes era muito separado. O sambista ficava sempre isolado. No fundo, todos fazemos a mesma coisa que é cantar, mostrar a nossa arte - diz a cantora, - Acho legal que a nossa geração seja mais aberta. Todo mundo um dia canta samba, que é a base da MPB.

Marcelo D2, atualmente morando em São Paulo, foi no samba buscar a melhor maneira de dar brasilidade ao seu rap:

- Eu tenho buscado no samba a raiz da nossa música mesmo. Sempre tentei encontrar uma identidade para o hip hop que faço e acredito que o samba seja o ponto de partida para tudo que se pretenda brasileiro.

Outro que tem descoberto a trilha do samba é Gabriel O Pensador. Depois de uma apresentação com a Velha Guarda do Salgueiro em Minas, o rapper foi eleito padrinho do grupo:

- Foi uma emoção muito grande ter sido escolhido pelo grupo. Conheço pouco de samba, mas o convívio com esses mestres tem sido uma verdadeira escola para mim.
João Carlos de Almeida
28 de Novembro de 2003 #

Afinal de contas de quem é o Brasil ? Dos índios que aqui estavam quando os colonizadores portugueses aqui aportaram ? Dos negros trazidos da Africa ? Dos europeus que também colonizaram o Brasil ? Para mim o Brasil é de todos os mencionados, pois o Brasil é o pais da mistura, da miscigenação. Dessa forma também a música brasileira é uma mistura. Assim, quando se afirma que o choro é brasileiro não se pode esquecer que Brasil é mistura. Portanto o choro também é uma mistura. Vale lembrar que muitos dos gêneros que originaram o choro vieram da europa (valsa, schottish, polca...)e da África (Lundu, p. ex.). Assim, o choro é uma fusão de matéria-prima de fora com a maneira de interpretar brasileira. Com o samba não é diferente, pois os choro ajudou a formar o samba. Creio que, de acordo com certos critérios (tipo de formação instrumental, forma, contexto...)pode-se até classificar a música, como, por exemplo, em música popular e erudita. Mas ambas, no fundo, não vão mexer com a mesma "região" do cérebro ? Ambas, talvez de diferentes formas, não manipulam o som ? Ambas não vão tocar nossa emoção ? Creio que existem músicas para todos os gostos e ocasiões. Todas são válidas e para todas deve haver espaço. Não nego que exista toda uma questão de massificação cultural, de exploração capitalista, na qual a música passa a ser produto de consumo. Mas será que nessa música não existe absolutamente nada de artístico ? A música erudita também não é consumida ? A questão é complexa! Muitos criticavam o grupo "É o tchan". Outros, como Mônica Neves Leme no livro "Que tchan é Esse ?" mostram, porém, alternativas de análise para esse grupo. Assim, essa questão de o que é ou não música é coisa subjetiva, isto é, depende do sujeito que analisa, mas não do objeto em si (a música). Um raciocínio análogo vale para a questão de mistura de gêneros. Será que uma mistura de samba com rock "pauleira" não seria possível ? Acho, pessoalmente, a mistura interessante. É claro que talvez não agrade a todos e, de acordo com certos critérios estéticos, não soe agradável. Assim, uma das chaves para tudo isso está na definição de critérios. Os critérios jamais são definidos pela obra musical em si, mas por aqueles que a fazem! Assim, como também sou musicista, o meu critério é de que a mistura é interessante desde que ME AGRADE E POSSA AGRADAR A OUTROS TAMBÉM.
Daniel Schwambach@ibest.com.br
18 de Janeiro de 2004 #

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