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Abel Cardoso Júnior (1938 - 2003)

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 19 de Novembro de 2003 
Assunto: Outros

Nosso leitor (e pesquisador da MPB) Luiz Américo Lisboa Junior nos enviou a triste notícia na mensagem abaixo:

Gostaria de informar-lhe (se já não sabe) do falecimento neste último domingo em Sorocaba do pesquisador paulista Abel Cardoso Junior, um dos mais notáveis nomes da pesquisa de nossa música popular. Seus livros, Carmen Miranda, a cantora do Brasil e As 1000 canções do Rei da Voz, são referencias obrigatórias para todos aqueles que gostam de nossa canção popular. A biografia de Carmen é a melhor até hoje ja escrita sobre a Pequena Notável.

Abel Cardoso Junior, de quem fui amigo pessoal era uma das mais generosas figuras que ja conheci, possuia um valioso acervo e foi durante muitos anos consultor da gravadora Revivendo escrevendo todos os encartes dos Lps e depois CDs. Fazia parte da Academia Sorocabana de Letras, e publicou inúmeros artigos nos mais renomados meios de comunicação do país sobre a história da música popular brasileira, sempre preocupado com a verdade histórica.
Com a morte de Abel e ha pouco tempo com a de Ary Vasconcelos, perde-se neste ano duas grandes figuras que engrandeceram e nos deram aulas verdadeiras de como se deve levar a sério a pesquisa de nossa canção. Seus exemplos jamais serão esquecidos.

Abel Cardoso Junior e Ary Vasconcelos, irão juntos encontrar e rever todos aqueles que um dia tiveram suas vidas e obras por eles pesquisadas. Pixinguinha, Ary Barroso, Francisco Alves, Carmen Miranda, Vicente Celestino, Orlando Silva, Aracy de Almeida, Gilberto Alves, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas e muitos outros com certeza os receberão de braços abertos.

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Comentários dos leitores

Vale a pena ler seu verbete no dicionário da MPB.
Paulo Eduardo Neves
19 de Novembro de 2003 #

Não há medidas nem palavras em relação à morte de Abel Cardoso Junior. Sua generosidade, sua alta erudição em música popular brasileira, sua inteligência não serão preenchidos. Fã de Sinhô, Carmen Miranda e Mário Reis, entre outros, ele ensinou a todos nós amar a Velha Guarda. É preciso salvar seu acervo de gravações, partituras e jornais. Sorocaba e o Brasil devem isso a Abel.
Giron
20 de Novembro de 2003 #

Abel Cardoso Júnior foi um dis maiores pesquisadores da MPB. Tive a honra de visitar o mestre em dezembro passado, em sua casa, em Sorocaba. Pude desfrutar de seu conhecimento e ver seu acervo grandioso. Pensei e cheguei a falar com amigos comuns, inclusive lá de Sorocaba, sobre a grande valia para o Brasil de fundar-se um museu, uma casa, com os discos, livros, revistas e documentos de Abel Cardoso Júnior; não pensando no dia de sua partida, mas querendo que, em vida, todo aquele acervo fosse catalogado e colocado à disposição (com divulgação) do povo brasileiro, sob a direção do próprio Abel Cardoso Jr. Em vida já não é mais possível; mas o material está lá. Quem sabe o Museu Pesquisador Abel Cardoso Júnior venha a ser uma realidade. Queira Deus, que agora tem o nosso mestre.
Jouber Natal Turolla
21 de Novembro de 2003 #

Acabei de tomar conhecimento da morte do amigo Abel Cardoso Junior, ocorrida em 16 último. Estou muito sensibilizado, é mais uma dessas perdas irreparáveis que deixam lacunas impossíveis de ser preenchidas. Estive próximo a ele nos últimos 10 anos, foi um convívio saboroso, com muita conversa boa a respeito das coisas de nossa música, e muito aprendi com ele. Pude atestar a sua fibra de pesquisador e seu inabalável acuro no sentido de se preservar a verdade histórica. Indignava-se, bem ao jeito dele, com muita serenidade e equilíbrio, quando as coisas da nossa música eram veiculadas erroneamente, principalmente quando não havia cuidado na pesquisa. Entre vários casos, me lembro quando saiu a caixa de CDs de Carmen Miranda pela BMG e várias letras de música foram transcritas com palavras trocadas no encarte. Ele se queixou, com muita razão, de que, caso o seu livro "Carmen Miranda – A Cantora do Brasil (sim, a mais relevante obra acerca da Pequena Notável)" tivesse sido consultado, isso não teria acontecido, e o responsável por essas transcrições (que certamente desconhecia essa publicação referencial) não teria se dado o imenso trabalho de extrair letras de gravações muito antigas e de audição muitas vezes precária, incorrendo nos erros em questão.
Tive a imensa honra dele ter revisado e prefaciado o meu livro “Nabor Pires Camargo – Uma Biografia Musical”, e, já muito doente, prefaciou a minha próxima biografia, sobre Waldir Azevedo, a ser lançada brevemente.
O seu acervo é realmente vultoso, contendo itens raríssimos, e é mister que seja devidamente preservado por uma instituição idônea, que proporcione pleno acesso a todos aqueles que se interessam por nossa música popular.
Posso dizer que Abel foi o meu mestre informal de musicologia, e o que recebi dele vai muito além do qualquer pós-graduação na área poderia me proporcionar. Vou sentir muita falta do caro amigo, de nossas conversas e dos sábios conselhos que me deu e que hei de sempre levar em conta.
Marco Antonio Bernardo
21 de Novembro de 2003 #

Muito triste a notícia do falecimento do Professor Abel. Além de ser um rigoroso pesquisador, ele tratava a Música Brasileira com paixão. E essa paixão se manifestava não somente em seus textos (livros, encartes dos discos da Revivendo), mas também através da generosidade com que espalhava as informações, que ele, quase mágico, descobria e revelava.
Adeus. Mas vai deixar todo mundo valorizando a batucada.
Caio Silveira Ramos
21 de Novembro de 2003 #

Que triste.

As edições da Revivendo são exemplares, desde o cuidado com o repertório até o encarte detalhado e com comentários pertinentes e esclarecedores.

O único consolo é esse que está na notícia, o Abel deve estar se divertindo em altos papos com o Ary Vasconcelos num botequim etéreo por aí.
Luis Alberto Garcia Cipriano
21 de Novembro de 2003 #

Realmente uma lacuna em nossas pesquisas histórico-musicais.Perdemos o glorioso Abel Cardoso Junior, mas o Brasil ganha para sempre o fruto de sua dedicaçao. Concordo com o grande Radialista Dr.Jouber Turolla quanto à necessidade da criaçao de seu Museu. Oxalá torne-se uma realidade o Museu "Pesquisador ABEL CARDOSO JUNIOR" .Vamos cobrar as autoridades sorocabanas e contar com os amigos da Manchester Paulista para tal feito.
Roberto Rosendo(cantor e compositor)
22 de Novembro de 2003 #

Há exatos 30 anos, através de notícia sobre Carmen Miranda é que tive conhe- cimento de um professor, então já diretor de escola estadual na cidade de Sorocaba. Precisava realizar um trabalho para a escola sobre a "nossa Pequena Notável" mandei-lhe uma carta manuscrita, eu era um garoto de 13 anos de idade, que ele com muito carinho guardou. Hoje no dia do meu aniversário tive o conhecimento de sua morte. Por algum motivo não me avisaram. Havia conversado com ele duas vezes na semana passada.Já com a saúde abalada, solicitou que fosse ao programa de Paulo Henrique Amorim falar sobre os 100 anos de Ary Barroso, nosso maior compositor. Assim era o Abel, prestativo,honesto, inteli-gente e sempre Amigo. Bem humorado gos-tava de contar uma piada ou até fazer uma pegadinha ao telefone, ríamos muito. Nossas vidas sempre foram paralelas, até coincidente, quando o destino me fez ingressar na Secretaria da Educação do Estado, ocupando o cargo de Secretário de escola na Capital; por diversas vezes nos encontrávamos em nossa área de atuação. Ele sempre rígido como diretor de escola no Cajuru, era o terror dos professores e dos alunos, aos quais fazia questão de realizar e supervisionar os exames finais. Mas a nossa grande afinidade era a MPB, e o amor comum por Carmen Miranda. Seu livro sobre Carmen foi feito para calar a boca dos detratores da nossa Pequena Notável. Não fazia muito tempo havia solicitado que fizesse a revisão da 2ª edição de seu livro; me ligava perguntado o que eu tinha achado e as correções que eu fizera... devolví logo seu original, ele estava ansioso para ler as minhas anotações e fazer as alterações, que foram poucas. Gostava de colaborar com todos, principalmente quando o trabalho era para um livro. Tinha horror que fosse publicado bobagens sobre qualquer assunto! Era profundo conhecedor do futebol, sabendo nomes, jogos e datas.Lembro de minha primeira ida a sua casa, minha mãe foi obrigada a ir até o Juizado de Menores para fazer a devida autorização, eu era menor de idade. Em Sorocaba conhecí D. Amélia, sua mãe, professora aposentada, e cultíssma. Foi um final de semana memorável. Meus olhos ávidos ficaram deslumbrados com todo o seu acervo.Colaborou em quase todos os Cd´s da Revivendo, prestando um valor inestimável a cultura do nosso Brasil. O tempo passou e hoje amargurado, com lágrimas nos olhos, choro a perda desse Amigo que já faz muita falta a minha vida...
Antonio Sergio Ribeiro
22 de Novembro de 2003 #

Morreu domingo último o sr. Abel Cardoso Junior, um dos grandes conhecedores da MPB
antiga. Recebi a notícia do Roberto Gambardella da Casa Lomuto, o Abel já
vinha sofrendo há algum tempo de diversos problemas : coração, diabetes ...
Perdeu o Brasil um grande conhecedor e pesquizador. Trabalhou muito com o
Leon Barg escrevendo as biografias desde os primeiros lps da Revivendo.
Colaborou com o Zuza Homem de Mello no livro A canção no tempo. Fez a
discografia completa do Francisco Alves junto com Roberto Gambardella, Miécio Caffé e Walter Teixeira Alves, a
biografia de Nabor Pires de Camargo, entre outros.
Além de tudo, era gente finíssima e gostava de uma polêmica, principalmente
quando diziam que o Francisco Alves e o Catullo não sabiam música. Uma vez,
disse prá mim com a maior delicadeza : ''-O sr., por favor, nunca mais fale
mal do Francisco Alves.''


abs.

Roberto de Azevedo

22 de Novembro de 2003 #

Tive o privilégio de conhece-lo pessoalmente em agosto de l998, por ocasião do lançamento do seu livro sobre Francisco Alves, que ele gentilmente autografou para mim. Os trabalhos de Abel, ao contrário de muitos que se dizem entendidos, era perfeito. Notava-se nele a preocupação de que seus livros contivessem informações precisas, para que seus consulentes adquirissem dados valiosos para seus estudos. Eu lamento profundamente essa perda. Com certeza um soldado a menos nessa batalha que esses brasileiros travam para cultivar a memória da nossa música popular.
Murillo Cesar Caetano
23 de Novembro de 2003 #

Reproduzo abaixo o texto sobre o Abel que foi divulgado pela Academia Sorocabana de Letras.

Notícia da Academia Sorocabana de Letras (16.11.2003)

Sorocaba perde Abel Cardoso Júnior, um dos maiores pesquisadores da nossa música popular

Falecido hoje, dia 16, em Sorocaba, o pesquisador Abel Cardoso Júnior era uma das maiores autoridades em música popular brasileira em todo o País. Sua casa da rua Fernando Costa, 129, na Vila Carvalho, era visitada por pesquisadores da MPB de todo o Brasil e praticamente não se passava dia em que não lhe chegasse correspondência de um estudioso que, em algum ponto do Brasil ou do exterior, tendo pela frente um problema que não sabia como resolver, solicitava a sua ajuda.

Quem buscava sua ajuda raramente se decepcionava: Abel, nascido em Guarantã, cidade de 5,5 mil habitantes próxima a Bauru, mas que viveu em Sorocaba desde o 7 anos, possuía um acervo extraordinariamente rico, constituído por discos, livros, revistas e documentos. Além disso, visitou e entrevistou pessoalmente centenas de personagens da música brasileira.

Pouca gente sabe mas, entre os artistas brasileiros que fizeram enorme sucesso no exterior, figura uma dupla de índios nascidos no Ceará, os Irmãos Tabajara (Massuperê e Herundy). Descobertos pelo público americano vários anos depois que, ao final de uma malograda tentativa de turnê pelos Estados Unidos, haviam resolvido viver como lavradores em Araruama, no Rio de Janeiro, do final da década de 1950, até 1970 gravaram naquele país 48 lps que venderam mais de 8 milhões de cópias. Em suas apresentações como instrumentistas, em cidades americanas e japonesas, eram acompanhados por orquestras sinfônicas. Abel Cardoso Júnior não apenas conhecia em detalhes a história dos irmãos. Ele os entrevistou e ouviu de Massurepê que, do retorno da dupla aos Estados Unidos, em 1957, com passagens aéreas e estadia nos melhores hotéis pagas pela RCA Victor, ele e Herundy só não gostaram mesmo do caviar que lhes foi servido em várias ocasiões.

Havendo ingressado na carreira do magistério oficial, Abel exerceu por vinte anos (1968/1988) a direção da Escola Estadual ?Francisco Coccaro?, no Cajuru ? na qual, no período em que esteve sob a sua direção, havia aulas para valer desde o primeiro dia do ano letivo, porque o trabalho de planejamento fora executado antes.

Estreou como pesquisador de MPB em 1978 com ?Carmen Miranda ? A cantora do Brasil? que, como esclarece na apresentação, ?não é um livro biográfico? e sim um documentário ?sobre a carreira artística de Carmen Miranda?. Continua, entretanto, a ser a obra mais completa e detalhada escrita sobre a Pequena Notável, embora, desde então, vários outros livros sobre a cantora tenham sido lançados.

Em 1998, pela Renascer, de Curitiba, que comemorava dez anos de atividade como gravadora, lançou a obra ?As mil canções do Rei da Voz?, com as letras de todas as gravações de Francisco Alves. Para tanto, confrontou os discos e as edições de cada uma delas, produzindo notas, comentários, histórias e biografias que fazem do livro uma obra prima da história da MPB.

Escreveu mais de 200 artigos sobre MPB, a maioria dos quais publicados no Cruzeiro do Sul, e 150 contracapas e encartes, principalmente para a gravadora Revivendo, de Curitiba. Colaborou na publicação das discografias completas de Carmen Miranda, Gastão Formenti, Aurora Miranda, Orlando Silva e Francisco Alves.

Em 1986, em conferência na Delegacia Regional de Cultura, comemorativa ao centenário de Cornélio Pires, apresentou o grande tieteense como o primeiro produtor independente de discos do Brasil. O folheto, com o texto de sua palestra, foi editado pela DRC em pareceria com a FUA. Também colaborou na pesquisa para a produção do catálogo Raros & inéditos, do SESC/SP.

Era colaborador de dois dos trabalhos mais abrangentes sobre MPB, ambos acessíveis pela Internet ? a segunda edição da Enciclopédia da Música Brasileira (UOL) e o Dicionário Cravo Albim da MPB (Instituto Cultural Cravo Albim) ? que dedicam a ele um de seus verbetes.

Sua colaboração, como pesquisador, se estendeu a inúmeros outros trabalhos: prefaciou o livro ?81 temas da MPB?, de Luís Américo Lisboa Júnior; colaborava com os sites de Carmen Miranda, para o qual escreveu uma cronologia sobre a vida da cantora, e Samba-Choro e com a Assembléia Legislativa de São Paulo na elaboração da relação de governadores e donatários de São Paulo no período de 1533 a 1821.

Eleito em 9 de janeiro de 1982 como titular da Cadeira 34 da Academia Sorocabana de Letras, que tem como patrono Olegário Mariano. Foi membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, respondendo pela revisão de várias publicações daquela entidade, inclusive ?Sorocaba ? 3 séculos de História?, de Aluísio de Almeida, recentemente lançado.
Jornalista Responsável: Geraldo Bonadio (8894/MTB)
Paulo Eduardo Neves
24 de Novembro de 2003 #

Com muita tristeza recebi a notícia da passagem de Abel Cardoso Júnior que nos deixa para ir de encontro àqueles a quem tanto admirou. Essa tem com certeza que ser a parte alegre, para ele, indo assim se juntar ao grupo que ajudou a não morrer. Manteve com seu trabalho, que registra sua dedicação a tantos brasileiros que tornaram a cultura brasileira tão rica como é, acesa a chama da memória de tantas verdadeiras celebridades que a sociedade não percebe o dever de cuidar e preservar. Devo muito a ele que com seu livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil" me inspirou a criar um site inteiramente dedicado à Pequena Notável e me ensinou o valor que há em prezar nossos ídolos. Aqueles, que como ele e eu, se interessam pela preservação da memória da MPB e quiserem conhecer o trabalho de ambos, dessa extraordinária figura que é Carmen Miranda e desse fantástico e apaixonado pesquisador que é Abel Cardoso Júnior, podem fazê-lo acessando o site www.carmen.miranda.nom.br Obrigado por tudo Abel! Carmen, cuida bem dele que te ama!
Doni Sacramento
6 de Janeiro de 2004 #

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