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Artigo de Hugo Sukman sobre caixa de Baden e violão brasileiro

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 13 de Maio de 2003 
Assunto: Sítios pela Internet

  ampliar Paulo Eduardo Neves/2003  
Reunião de Violonistas
Reunião de Violonistas
O jornalista Hugo Sukman escreveu um artigo bacana que deveria falar da recém lançada caixa de CDs com a obra do Baden Powell, mas que enviesa a comentar sobre a escola de violão brasileiro. Veja que o link deve deixar de funcionar em alguns dias.

Na verdade o motivo principal desta notícia aqui é que ele fala do encontro de violonistas que aconteceu no aniversário do Moacyr Luz e eu estava doido para publicar esta foto que bati, reunindo tanta gente fera:-)

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Comentários dos leitores

Violão, endereço: São Cristóvão





Hugo Sukman

Outro dia, alguns dos maiores músicos do mundo formavam a roda no Bar da Maria, na Muda, para ouvir talvez o maior entre eles, o violonista Hélio Delmiro. Embasbacado, Cláudio Jorge, considerado o grande violão de centro da atualidade, exclamou:

- Isso que está acontecendo é histórico. Essa escola do Helinho, que a gente está ouvindo, é a do Méier. Tem a de São Cristóvão, do Baden... Violão no Brasil é tão sério que cada bairro tem a sua escola.

A afirmação do violonista de confiança de Martinho da Vila e de qualquer sambista esperto que se preze (e também grande compositor, registrado no CD "Coisa de chefe") é muito mais do que uma irreverência carioca: é a descrição precisa do mais importante eixo violonístico da cidade, logo do Brasil, por conseguinte do mundo.

Se o rei do violão do Méier está aí, tocando, gravando, influenciando (do violão chorão de Guinga, ao sambista de Moacyr Luz e o jazzístico de Romero Lubambo, mas sempre com aquela riqueza harmônica que caracteriza essa escola) e encantando o pessoal no Bar da Maria, o maior violonista do ramal de São Cristóvão pode ser redescoberto na caixa "Baden Powell" (Universal, produzida por Carlos Alberto Sion e Tárik de Souza), 13 CDs dos LPs de Baden gravados para os selos Phillips, Elenco e Forma, entre 1959 e 1972, seu auge como instrumentista e compositor.

- Foi o Baden que deu visibilidade ao violão brasileiro - atesta Paulo César Pinheiro, não só parceiro de Baden em clássicos da estirpe de "Lapinha", "Samba do perdão", "Violão vadio" e "Refém da solidão" (todos na caixa no CD "As músicas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro", de 1970), como um dos maiores admiradores do amigo morto há três anos. - É a escola de São Cristóvão, onde nós éramos vizinhos, que começou com o Meira (o violonista e compositor Jayme Florence) , que deu aula para o Baden, e também para o João de Aquino, o Raphael Rabello e para o Mauricio Carrilho. Antes do Baden, com as exceções conhecidas, Dilermando, Garoto, Bonfá, o violão era coadjuvante, raramente solista.

Pinheiro e meio mundo musical consideram o violonista e arranjador Maurício Carrilho o sucessor dessa linha de violão que tinha Meira como matriz. De fato, Carrilho prossegue o caminho de Meira, como o mestre dá aulas e é o herdeiro do Cara Suja, o violão do professor. Mas, professor, o que caracteriza essa escola que teve Baden como símbolo?

- Tecnicamente, há uma escola do Meira, que foi dar no Baden e no Raphael, os dois grandes virtuoses dessa linha - explica Carrilho. - No violão popular, em geral, a mão direita faz dois pontos rítmicos, veja o João Gilberto, o polegar fazendo o baixo e o indicador, o médio e o anular tocando juntos. No violão do Baden, ele separa o indicador, então são três os pontos rítmicos. É quase a função do pandeiro... Outra coisa que o caracteriza é o polegar mais pesado, que vem do choro. Isso difere o Baden de um violonista clássico que tenta equilibrar os sons.

É por isso que um solo de Baden dá a impressão de que ele toca dois violões.

- O que há no violão do Baden é o ritmo brasileiro que começou antes de Meira, com os violonistas do Nordeste, João Pernambuco, Sátiro Bilhar. Brincam com São Cristóvão, mas sou da Penha, Raphael, de Petrópolis. Na verdade, é a escola de violão brasileiro - completa Carrilho.

Violão que continua hoje com Yamandú, Zé Paulo Becker...
João Carlos de Almeida
13 de Maio de 2003 #

Continuação da reportagem:

Virtuose e compositor

APRESENTANDO BADEN POWELL E SEU VIOLÃO (1959): Baden larga a guitarra que tocava em boates e volta ao seu instrumento para debutar em disco. Com o ritmo da mão direita já característico e acompanhado de orquestra, ele destrincha standards americanos ("Stella by starlight", "Lover", "My funny Valentine"), brasileiros ("Carinhoso", "Na Baixa do Sapateiro"), boleros ("Aquellos ojos verdes"), a bossa nova iniciante ("Amor sincopado") e estréia como compositor em "Samba triste". O espírito é o da boate dos anos 50.

UM VIOLÃO NA MADRUGADA (1961): Com a mesma orquestra de Carlos Monteiro de Souza, Baden mergulha seu violão de vez no repertório brasileiro (do dançante Ed Lincoln de "Do jeito que a gente quer" ao Nelson Cavaquinho de "Luz negra") e assume-se compositor, seis temas que vão do lirismo de "Fluido de saudade" à "Insônia" (influenciada por Caymmi) e à inauguração de duas vertentes em sua obra, "Improviso em bossa nova" e o samba, já afro ("Luar de agosto") e carioca ("Dum... dum... dum... dum").

BADEN POWELL À VONTADE (1963): Pelo mítico selo Elenco, Baden, já senhor de sua técnica, mostra primeiras coisas com Vinicius ("Berimbau", "O astronauta", "Consolação"), trabalha temas de Tom ("Garota de Ipanema", "Samba do avião"), relê Caymmi ("Saudade da Bahia") e Moacyr Santos ("Conversa de poeta").

OS AFRO-SAMBAS (1966): Nos cinco anos anteriores, com Vinicius, Baden torna-se um dos maiores compositores brasileiros. Paralelo ao seu repertório de bossa nova, a dupla sistematiza um novo gênero da MPB, os afro-sambas. E, nos primeiros dias de 66, registram para o selo Forma, de maneira quase artesanal, participação de amigos como a atriz Betty Faria (e com Quarteto em Cy e arranjos de Guerra Peixe) o núcleo inicial desse gênero, do qual faz parte o "Canto de Ossanha". Como notaria depois o compositor Eduardo Gudin, é a verdadeira música vanguardista, no sentido em que abriu novos caminhos. Esse repertório é tão atual que, recentemente, foi regravado por Clara Sandroni e, em outro CD, por Mônica Salmaso e o violonista Paulo Bellinati, que apresentam o repertório em concerto nesta segunda, no Arte Sesc do Flamengo.

TEMPO FELIZ (1966): Samba-jazz. Em quatro das oito faixas, participa o gaitista Mauricio Einhorn. O clima Beco das Garrafas é conferido pela suingueira no acompanhamento (Edison Lobo no baixo, Chico Batera na bateria) e pelo próprio Baden, improvisador. No repertório, composições de Baden, além de temas bequianos como "Chuva" (Durval Ferreira).

AO VIVO NO TEATRO SANTA ROSA (1966): O violonista manda ver no teatro de Ipanema. Acompanhado de trio liderado por Oscar Castro Neves, Baden mostra que pode ser pesado ("Berimbau", "Consolação") e lírico (uma "Valsa de Eurídice" cristalina). Ao gravar pela primeira vez Bach ("Prelúdio em ré menor") junta como nunca barroco e a mão direita de um aluno de Meira.

BADEN POWELL SWINGS WITH JIMMY PRATT (1967): Clássico em NY, Paris e Tóquio, não faltam motivos: Baden suinga com um dos maiores bateristas de jazz da época, de passagem pelo Rio e seqüestrado para o estúdio por Aloysio de Oliveira; participação (sax e voz) de Moacyr Santos em duas de suas "Coisas"; primeira versão de um dos temas mais bonitos de Baden, o samba "Rosa flor", depois letrado por Vandré.

O SOM DE BADEN POWELL (1968): Gravado no Rio para o selo alemão Saba, Baden manda seu repertório e relê o jazz à sua maneira, numa versão sentida para "'Round midnight" (Thelonious Monk).

SHOW/RECITAL (1968): A primeira parte deste ao vivo no teatro Bela Vista (SP) é um recital do violão de Baden com a estréia de "Vento vadio" e "Marcha escocesa"; na segunda, a afinadíssima cantora Márcia e Os Originais do Samba cantam o Baden popular.

27 HORAS DE ESTÚDIO (1968): Mistura de tudo: Bach, afro-samba, Caymmi , nordeste (o maravilhoso "Cego Aderaldo"), standards ("All the things you are"). Na contracapa, Vinicius define Baden: "Maravilhoso duende da floresta afro-brasileira de sons".

AS MÚSICAS DE BADEN POWELL E PAULO CÉSAR PINHEIRO - OS CANTORES DA LAPINHA (1970): Ao lado de Vinicius, Paulo César Pinheiro é o maior parceiro de Baden. Neste disco, Ruy e Magro (do MPB-4) e Cynara e Cyva (do Quarteto em Cy) transmutam-se em Cantores da Lapinha para desfiar um repertório de dez clássicos populares instantâneos (que eram ou seriam sucesso nas vozes de Elis e Elizeth): "Lapinha", "Aviso aos navegantes", "Vou deitar e rolar", "Refém da solidão", "Samba do perdão", "É de lei", uau!

ESTUDOS (1971): Para a Alemanha, Baden destrincha seu repertório ("Valsa sem nome", "Último porto") e inova ao solar sua "Baixo de pau" no baixo.

É DE LEI (1972): Gravado para a França (país onde morou e foi ídolo), Baden manda novidades como "Canto", "Sentimentos, se você pergunta nunca vai saber" e "Conversa comigo mesmo", viaja por gêneros ("Blues a volonté", "Petite valse") e relê pérolas como a autobiográfica "Violão vadio". Lindo.
João Carlos de Almeida
13 de Maio de 2003 #

Excelênte matéria. Sobretudo quando toca nas diferentes escolas do violão brasileiro, diferenciadas pelo pelas especifiidades da mão direita. Mudando um pouco. Saiu na Folha de SP uma matéria do jornalista Pedro A. Sanches (sempre preocupado com o rigor històórico- ainda bem!)sobre alguns problemas com datas na caixa do Baden.
Marcos A. da Silva
13 de Maio de 2003 #

Otima reportagem!Gstaria de lembrar que o filho do Baden, Marcel Powell dá um show no Dama da Noite toda quinta feira a partir das 19hs.
Vale a pena conferir, o garoto arrasa no violão.
Marciac D'Antonio
14 de Maio de 2003 #

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