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Roda de seresta lembra cinqüenta anos da morte de Francisco Alves

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Por Fernando José Szegeri
Publicada em 23 de Setembro de 2002 
Estado: SP 
Assunto: Shows e Rodas

Uma das figuras mais importantes da música brasileira no século passado, o cantor e compositor Francisco Alves, o Rei da Voz, morreu num trágico acidente de carro na Via Dutra em 27 de setembro de 1952. Seu funeral ainda hoje é tido como um dos mais concorridos da história, perdendo apenas para o de Getúlio Vargas, levando dezenas de milhares de pessoas às ruas do Rio de Janeiro em que ele nasceu e reinou.

Mito de prestígio pessoal e popularidade, era figura dotada de extraordinário carisma pessoal, como atestam muitas pessoas que o conheceram. Como cantor, sua voz possante e de timbre incomum registrou 983 fonogramas em 78 r.p.m. - não tendo vivido até a era do LP - estimando-se que tenha vendido cerca de 5 milhões de discos, um número impressionante para o mercado da época. Como compositor, foi acusado de somente "comprar" parcerias (fato desmentido por alguns estudiosos de sua vida e obra) e impor unilateralmente suas condições de trabalho a autores menos favorecidos por ele gravados, como Cartola, Ismael Silva, Noel Rosa.

Mas talvez sua maior importância resida talvez no papel de aglutinador, de incentivador, de descobridor de novos talentos. Sem nunca ter tido receio de "subir o morro", no sentido literal e figurado, além dos compositores acima citados projetou outros autores populares negros dos estratos sociais desfavorecidos, como Sinhô, Heitor dos Prazeres, Nilton Bastos a dupla Alcebíades Barcellos e Armando Marçal entre muitos outros. Seu "amor à arte" foi sempre proporcional ao seu invejável faro comercial para lançar compositores e obras que rapidamente caíam no gosto popular. Mas nunca hesitou em incentivar jovens talentos, mesmo que pudessem significar concorrência, como no caso de Orlando Silva, que viria a tornar-se talvez o único a ameaçar seu absoluto reinado.

Francisco Alves sempre demonstrou aguda percepção dos processos de transformação da música, da cultura e de sua cidade, que vivenciou ao longo de seus mais de trinta anos de carreira, resultando num domínio assombroso dos dois principais meios de comunicação da época: o disco e o rádio. É emblemática, por exemplo, a mudança de sua maneira de interpretar desde seus primeiros registros, ainda no tempo das gravações mecânicas (que susbistiram até meados de 1927), onde se exigia grande potência de voz, até as mais próximas à sua morte, onde os processos mais avançados de captação elétrica puderam revelar toda a delicadeza de seu timbre incomum aveludado. Maior exemplo disto é o registro do clássico "Serra da Boa Esperança", uma das obras primas de Lamartine Babo, gravada dias antes da morte do Rei da Voz, numa das mais belas gravações da história da música popular brasileira.

Cinqüenta anos passados, a figura de Chico Alves é hoje desconhecida da grande maioria do povo brasileiro. Se não é sua prerrogativa o esquecimento artístico num país sabidamente desprovido de memória e culturalmente colonizado, o fato de não ter vivido até a era de hegemonia da televisão acentuou a sensação de dissipação de sua voz e sua figura no imaginário coletivo.

Não é assim, entretanto para um grupo de amantes e cultores das serestas, sambas e canções da chamada "època de ouro". Remanescentes do que no início da década passada foi em São Paulo o "Clube da Seresta" - na época com estatuto, eleição e presidente como manda o figurino - esses músicos, cantores ou simples admiradores resolveram aproveitar a data para se reencontrarem e darem novo impulso a um movimento de valorização das letras e melodias que se incorporaram ao vasto patrimônio musical nacional, algumas como grandes clássicos cantados por todas as gerações, outras só sobrevivendo na memória dos aficcionados.

A idéia é que a partir desse encontro, nesta quarta-feira, dia 25/09, possa-se ressuscitar as antigas rodas de seresta e garantir um espaço permanente em que a música brasileira da "época de ouro" possa ser executada e ouvida. Vive-se particularmente em São Paulo um momento muito bom para gêneros genuinamente brasileiros como o samba e o choro, com muitas rodas acontecendo pela cidade. Mas os seresteiros ainda sentem-se um tanto desabrigados. Assim como o choro, a seresta não se define propriamente como um gênero musical, mas sobretudo como uma maneira de tocar e interpretar todo um repertório de sambas, canções, valsas, fox-trotes etc.

No espírito das velhas rodas do Clube da Seresta, vários seresteiros darão o seu recado, na maioria figuras carimbadas dos eventos de samba, choro e música brasileira em geral pela cidade. A roda será conduzida por alguns craques do pedaço: Giba toca seu poderoso violão de 7 cordas e faz a direção musical; Cidão 7 Cordas estará dando seu recado no cavaco; no pandeiro, o grande Zequinha, por anos pandeirista do regional do Evandro, que muitos conhecem dos inúmeros programas "Ensaio" e MPB-Especial da década de 70; na flauta, o paraense Yuri Guedelha, diretamente das maravilhosas rodas do Bar do Gilson, em Belém, agora abrilhantando o metiê da música paulistana. Ciceroneando os vários "dós de peito" amadores da cidade, lembrando principalmente as canções que foram sucesso na voz Francisco Alves, como "A Voz do Violão" (Francisco Alves/Horácio Campos), "Serra da Boa Esperança" (Lamartine Babo), "Esses Moços" (Lupicínio Rodrigues) e "Malandrinha" (Freire Jr.), entre tantas outras, estará este que ora vos escreve.

O evento marcará a reinauguração do endereço que já abrigou o antigo Café Paris, reduto da música popular brasileira desde a década de 70, hoje rebatizado de "Sem Destino" e conduzido pela batuta do Tião, que já tocou casas como o "Sem Saída" e o "Villa Viroo". Do ramo, sem dúvida, além de seresteiro de carteirinha.


Serviço

"Chico Alves: meio século de saudade"

"Sem Destino" (antigo Café Paris) - Av. Waldemar Ferreira, 55 - Butantã. Fone: 3811-9729. Quarta-feira, 25/09/2002, 21h00. Cuvert Artístico: R$ 5,00

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Comentários dos leitores

não há comentário que reviva Francisco Alves. O revivemos a cada dia, a cada desencanto, a cada perda de réstias do sentimentalismo. Pois é aí que sentimos a saudade e a impotência de não fazer voltar o maior tempo entre os homens, onde as grandes invenções não haviam ainda deturpado o sentido de tempo, de ninho, de vida. Para os que compartilham da mesma dor, ainda nos resta a voz e todas as cordas de tempero de uma seresta.
fabioeit@uol.com.br
24 de Setembro de 2002 #

Belo texto, Fernando! Como sempre, "show de bola", você conseguiu trazer para os que não conheceram um pouquinho do que foi o grande "Chico Viola" Parabéns! Axé!!!
Sonia Palhares Marinho
24 de Setembro de 2002 #

Uma lágrima para Chico Alves, o maior cantor que este Brasil Ja conheceu. Muitos compositores/ sambistas so se tornaram conhecidos através da Sua Voz. Grande parceria Ismael Silva/ Nilton Bastos/ Chico Alves. Ele merece todas as homenagens neste dia 27. No seu tempo o Brasil inteiro parava para ouvir sua voz através da Radio Nacional e outras. Tenho a felicidade de possuir o Minha Vida com o seu autógrafo.

"Boa noite amor meu grande amor
contigou eu sonharei"

"EU TENHO UM COMPANHEIRO INSEPARÁVEL"

DAMATA
Joao da Mata Costa
24 de Setembro de 2002 #

Parabéns, querido Fernando, pela iniciativa e belo evento.
beijos
Roberta Cunha Valente
27 de Setembro de 2002 #

É com lágrimas nos olhos que através deste magnífico trabalho relembro o CHICO VIOLA, O REI DA VOZ.
Pudera deus um dia iluminar os nossos governantes a resgatar a memória de artistas, compositores e cantores do nosso cancioneiro popular.Acho até que deveria ser obrigado em escolas,jornais televisões(EM HORÁRIO NOBRE E NAS TVS DE MAIORES AUDIÊNCIAS)contar as vidas e histórias desses grandes brasileiros. Lamentavelmente, a mídia não age dessa maneira.
"VELHO CHICO, TU RECORDAS O VIOLÃO CUJAS AS CORDAS A MÃO DE DEUS REBENTOU..
PORQUE FALTA AO SAMBA AGORA, NA LÁGRIMA QUE O SAMBA CHORA, A VOZ QUE ACHAMA APAGOU..." escreveu David Nasser em homenagem ao grande cantor, hoje totalmente esquecido.
"´TÚ SÓ TU MADEIRA FRIA SENTIRÁS TODA A AGONIA DO SILÊNCIO DO CANTOR..."
Viva Francisco Alves!
Deus te abençôe caro Fernando! Muito obrigado!
Gilberto Nascimento
27 de Setembro de 2002 #

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