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O "Samba é minha Nobreza" em CD duplo

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 20 de Junho de 2002 
Assunto: CDs

O show O Samba é minha nobreza está há dois meses em cartaz no Cine Odeon no Centro do Rio. Patrocinado pela BR, tem roteiro de Hermínio Bello de Carvalho e direção musical de Paulão Sete Cordas. Está sendo um grande sucesso. O repertório primoroso, os ótimos músicos e o preço camarada dos ingressos (só R$2) estão levando as pessoas a fazer verdadeiros campeonatos para ver quem assiste mais vezes. Se você ainda não assistiu, corra que dia 28 sai de cartaz. Depois há algumas chances de ir a outros estados, como São Paulo e Brasília, mas o que eu quero mesmo é poder assistí-lo tomando uma cerveja de noite num palco na Lapa, que sentadinho ao meio dia no cinema é sobriedade demais para se curtir um samba.

Agora está saindo pela gravadora Biscoito Fino o CD duplo que foi gravado antes da estréia, mas após a concepção do espetáculo. Assim as músicas estão organizadas em blocos e emendadas umas nas outras, como se fosse uma apresentação ao vivo. A vantagem é que couberam bem mais músicas do que a ligeira hora e meia de show permite.

Sei que vai soar repetitivo para nossos leitores mais fiéis, mas não tem jeito de fugir da afirmação: o grande destaque do disco é Roberto Silva. O homem está cantando muito! Aos oitenta e dois anos está com todos os graves e agudos no lugar, cantando com bossa e beleza. Quando canta "Você está sumindo" (Geraldo Pereira/ Jorge de Casto) não dá para ficar parado, quando entoa maciamente os primeiros versos de "Preconceito" (Wilson Batista/ Marino Pinto) é para se ficar todo arrepiado. E não sou só eu quem digo. O show está em cartaz desde o dia 3 de abril, são cinco apresentações por semana, desde o primeiro dia, não houve uma única apresentação, nem mesmo uma, esteja cheio ou esteja vazio, que o Roberto Silva não tenha saído do palco aplaudido de pé pelo público. É impressionante.

Um dos grandes méritos do disco é fotografar o ambiente musical da Lapa de hoje. Mariana Bernardes, Pedrinho Miranda, Teresa Cristina, Pedro Aragão, Pedro Paulo e Bernardo Dantas são alguns dos jovens músicos que estão redescobrindo um repertório há muito esquecido, uma nova geração cansada do lixo radiofônico e buscando as raízes música brasileira. Teresa Cristina ainda mostra seu lado compositora na música "Candeeiro". Aliás, esta é a grande diferença do disco para o show, Teresa resolveu se afastar e foi substituída por Nilze Carvalho. Após ver o show meia dúzia de vezes e ouvir o disco outras tantas, se tivesse que escolher não teria dúvida: ficaria com as dúas:-). Elas competem em brilho. O disco mostra momentos que fazem sucesso na noite da Lapa, como os duetos de Teresa e Pedrinho no divertido "Calo de Estimação" (Zé da Zilda/ José Tadeu) e em "Se eu Pudesse" (Zé da Zilda/ Germano Augusto), a precisa voz de Mariana em "Tens de Compreender" (Nássara), Pedrinho cantando as deliciosamente machistas "Dinheiro não Há" (Alvarenga) e "Se esta Mulher Fosse minha" (autor desconhecido) sempre causando frisson no público feminino, e Pedro Paulo em dueto com Pedrinho cantando o genial sincopado de Geraldo Pereira em "Chegou a Bonitona" (parceria com José Batista).

E o disco tem mais. Ainda conta com a voz de pastora branca de Cristina Buarque; Paulão Sete Cordas e o percussionista Esguleba além de arrebentarem em seus instrumentos, registram pela primeira vez sua voz em disco; o bandolim e cavaquinho de Pedro Aragão; o violão de Bernardo Dantas sai do grupo Semente para o disco; e a experiência do trombone de Roberto Marques, da percussão de Trambique e dos sopros de Marcelo Bernardes. Os arranjos sóbrios trazem a marca do talento habitual de Paulão, emendando suavemente as músicas, intervenções precisas dos instrumentos e a recuperação de timbres esquecidos usando para percussão objetos como prato e faca, balde, lata, caixa de fósforo, frigideira, garrafa etc.

O encarte segue o belo padrão gráfico da gravadora Biscoito Fino de embalagens de papelão, só que neste caso pode ser chamado de "bonitinho mas ordinário". Pode-se gostar ou não de algumas opções estéticas do disco, como o fato de as músicas serem emendadas, mas não há dúvida que seu grande defeito é o design, que elimina informações importantes do encarte. Veja só, cada faixa do CD contém várias músicas, cada uma delas interpretada por um ou mais intérpretes, o encarte traz o nome dos cantores e as faixas em que participam. Uma das virtudes deste projeto é mostrar ao grande público as caras novas de artistas que estão surgindo, só que, para quem nunca os ouviu, identificar quem canta o quê deveria valer uma pós-graduação em matemática combinatória. Para piorar, o encarte vem com as fotos de todos os músicos, mas sem indicar quem é quem. Um ponto a favor é que vem uma pequena biografia de cada um dos participantes. Mas não se desespere, não será preciso sair correndo procurando seu antigo professor de matemática. Leitor da Agenda do Samba & Choro não morre pagão. Nosso leitor Carlos Mauro, vocalista do grupo Tio Samba, se dedicou a identificar cada um dos músicos e enviou para a nossa lista de discussão as informações completas. E para conhecer o rosto de cada um veja esta foto de todos do show e separada esta de Teresa Cristina.

Para comprar. Vou dar três dicas de como comprar o disco. Uma é comprar direto da Biscoito Fino, via nosso sítio. Neste caso ganhamos uma comissão da venda. Outra opção é comprar da gravadora Kuarup, que tem a vantagem de aceitar cartão de crédito, mas se você seguir exatamente o link nós também ganhamos uma comissão, mas menor. E tem a melhor, mas só serve para os moradores do Rio, que é ir ao boteco Bip Bip, que está vendendo a cota de discos que os artistas ganharam. Neste caso a gente não ganha nada, mas os artistas ganham muito mais, além disto, de cada disco vendido R$5 vão para ajudar o tratamento da grande violonista Rosinha de Valença.

Se você já conhece o disco, não deixe de dar sua opinião a respeito nos comentários desta notícia.

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Comentários dos leitores

Amigos,

Alguém tem as letras dos sambas em condições de disponibilizar no site? Acho que esta foi mais uma falha grave do encarte.

O cd está realmente excelente, um trabalho de qualidade primorosa em um ano abençoado para o samba, por contar ainda com as perólas de Argemiro e Seu Jair.

Um abraço
Wallace Roberto Santos de Farias
20 de Junho de 2002 #

Realmente seria muito difícil colocar todas as letras no encarte, pois tendo vários pout-pouri o encarte que já é grande se tornaria uma bíblia dentro do cd.
Forte abraço
rafael maia de sa freire
21 de Junho de 2002 #

Gostei muito inclusive do formato Pout-pourri do disco. Acho que essa é a melhor forma de se fazer um trabalho temático abrangente, seu objetivo. Claro que deve haver uma uma "conexão" suave entre as músicas de cada faixa e isto foi muito bem feito.
Que beleza a voz de Mariana Bernardes. Roberto Silva, então, não precisa nem dizer. Que repertório, que maravilha.
Herminio Bello de Carvalho (creio) cita no encarte o termo resistência. Um viva, pois, à resitência.

ps: espero que o espetáculo venha fazer uma temporada em São Paulo

ABS
Guilherme Donnabella
23 de Junho de 2002 #

Pedrinho Miranda é um talento só. é uma coisa incrível seu carisma a o vivo. Se fosse compositor pra mim ele tem tudo pra ser o novo Chico Buarque.
Rafael Paulillo
24 de Junho de 2002 #

Quem, como eu, está distante do Brasil curte de coração apertado e embargo na garganta um álbum tão lindo quanto este "O samba é minha nobreza" que ensina o Brasil aos brasileiros. A idéia de reunir no palco e no disco três gerações de cantores é simplesmente luminosa; é a mesma que, em 1965, esteve na origem do "Rosa de Ouro". Continuidade e renovação enfim conciliadas a serviço da formação de novas platéias. E o nome de Hermínio, produtor dos dois eventos, nunca será suficientemente louvado.
Uma pergunta à Biscoito Fino: como será feita a distribuição do disco no exterior? Paris, por exemplo, não pode ficar sem esse biscoito finíssimo...
Carlos Braga
28 de Junho de 2002 #

O CD está maravilhoso. A idéia é genial! Não há presente melhor. Todos de parabéns - um trabalho lindo, de dar orgulho! Um beijo especial pro Pedrinho Miranda que tem um carisma danado e um estilo próprio de cantar espetacular!
Renata Ervilha
4 de Julho de 2002 #

Ouvi semanas seguidas, todos os dias, várias vezes ao dia, os CDs. E continuam fora da estante, ao alcance de minhas mãos.
Emociona, traz lágrimas, arrepia a pele.
O roteiro me envolveu por completo, me senti lá, junto com eles. Eles: músicos, cantores, compositores, e outras tantas pessoas que nem sei, mas éramos todos amigos em meio a uma festa. Isso é mágica, magia, não sei o que é.
E é um trabalho didático! Muito didático. Ao se mover em harmonia livremente pelo tempo e pelas várias formas de manifestação do samba, revelam que ele é uma coisa só. E dentre outros ensinamentos, explica a quem se recuse a gostar de um determinado samba pelo que haja de ofensivo em sua letra a conceitos morais atuais, que ele é somente parte do tempero brasileiro: exibido, implicante e bricalhão.
No entanto, esse trabalho tem um defeito grave. Em seu encerramento nos deixa como criança, que não ainda cansada, é tirada de sua brincadeira.
Que todos envolvidos nesse projeto fiquem sabendo: vocês me têm feito chorar.
Sheila Franco.
15 de Julho de 2002 #

Caros " sambistas ",

O formato pout pourri é muito chato.
Fica uma maçaroca que não valoriza as musicas. Os pesquisadores tem que saber que são um grupo pequeno, com um gosto muito singular de desencavar musicas, mas musica é arte, assim fica um pouco didatico.
Outro ponto que acho importante é o fato dos cantores não serem sambistas.(com excessão de Roberto Silva) Precisamos descobrir os talentos do morro, das comunidades.
Acho interessante os jovens e coroas da zona sul cantando o samba e valorizando a cultura popular mas nao podemos esquecer que o antigo Rosa de Ouro revelou talentos dessa comunidades que com certeza tem uma renovação de sambistas que muitas vezes não tem conhecimentos e espaço no mercado elitista e fechado do samba "classe média" para trabalhar sua arte.

Parabéns pela iniciativa rara de colocar no palco a cultura negra com tanto requinte, mas ficou com cara de projeto encomendado sem aquele conteúdo do Rosa de Ouro que era uma construção lenta e profunda da época em que o Herminio realmente circulava pelas ruas a procura dos talentos das favelas.
Cosme Arruda
16 de Julho de 2002 #

Embora não goste muito do formato "pout-pourri" ainda assim gostei do resultado final do disco..., vale destacar a participação excelente da Mariana Bernardes, um verdadeiro achado como cantora de samba, as pérolas que foram desencavadas pelos pesquisadores que escolheram o repertório e a incrível vitalidade de Roberto Silva cantando como nunca aos 82 anos. A reclamar apenas a ausência das letras no encarte...Axé!!!
Sonia Palhares Marinho
18 de Julho de 2002 #

Este é um disco OBRIGATÓRIO para quem gosta minimamente de Samba. Para os aficcionados, então, descobrir pérolas de nomes como Wilson Batista, João da Baiana, Manacéia e muitos outros, nem se fala: não dá pra tirar do toca-CDs. Os cantores são todos excelentes, desde um casal já com grande quilometragem no samba mas com pouquíssimo de sua obra encontrável em CD (Roberto Silva e Cristina Buarque), que são dois de meus cantores preferidos, até os novos nomes, que são todos cantores de primeira, desses que devem gravar logo, logo seus primeiros discos individuais. Falaram muito da Teresa Cristina, que realmente canta muito bem, mas a melhor cantora do disco, rivalizando com a Cristina, é pra mim Mariana Bernardes, voz de veludo, afinação ímpar. Os dois rapazes também cantam imensamente, o dueto-duelo entre os dois Pedros em Mulher de Malandro é divino. Ao contrário do que disseram outras pessoas, acho o formato de encadear diversas músicas numa faixa (que é bem diferente de pot-pourri) muito bem resolvido nesse disco. A faixa que abre com a Teresa Cristina cantarolando a introdução de Na Linha do Mar e que todos os cantores cantam diversas músicas até que apenas no final a mesma T.C. interpreta de fato a música de Paulinho da Viola é lindíssima. Além de nos apresentar pérolas esquecidas de mestres da nossa música, este trabalho nos revela relações antes impensáveis entre obras de compositores tão díspares quanto Lamartine Babo e Casquinha, por exemplo. Agradeço imensamente a Hermínio Bello de Carvalho por mais esse Biscoito Fino que ele nos proporcionou. Aliás, essa gravadora, em pouquíssimo tempo já me proporcionou pelo menos cinco discos inesquecíveis (Miúcha.Compositores; Memorial, com Zé Renato e Wagner Tiso; Áfrico, de Sérgio Santos; Sinfonia do Rio de Janeiro, de Francis Hime; e agora este O Samba é Minha Nobreza) consegue nos mostrar que com garra e coragem é possível produzir música de primeiríssima. Obrigado, Olívia Hime e Kati Almeida Braga.
Nivaldo Vieira de Andrade Junior
20 de Julho de 2002 #

Em nosso país, continuamos a lutar para ouvir nossa música autêntica desaparecida da mídia oficial. Em nosso país continuamos a lutar por nossa literatura, por nossa arte. Penso que em um país colonizado culturalmente como o nosso, eu saúdo com grande satisfação e alegria o show e o CD o samba é minha nobreza. O programa do show, é uma fabulosa aula de história e cultura social oferecida as escolas públicas do Rio de Janeiro. Continuamos dependendo ainda de uma política publica que apoie os artistas, a nossa história, nossa literatura, nossa raça enfim, um governo de brasileiros para brasileiros. É verdade que devemos recuperar nossas comunidades, mas penso que não seja algo tão simples. Como recuperar a elegência e delicadeza destes sambas tão singelos, se a poesia desapareceu da escola pública? Não vamos esquecer que Cartola amava Bilac, quem em nossas comunidades sabe quem ele é?
Um brinde ao CD, ao show e a todos que lutam por uma cultura autêntica, como esta fabulosa página que é o samba.choro!
Abraços
Rubão
Rubens Aparecido dos Santos
23 de Julho de 2002 #

o cd é absolutamente genial,dá uma nostalgia danada de um tempo que nao vivi.todos estao de parabéns,Roberto silva arrepia,Cristina Buarque cantando é um bálsamo,Paulao,a gurizada toda e especialmente o Hermínio,mentor dessa turma,que tantas coisas belas já realizou.quero mais,quero mais,fico esperando ansioso pelo trabalho solo de todos,Tereza,Mariana,Pedro Paulo,Pedro miranda e Cristina.Amo todos voces.muitíssimo obrigado á Biscoito fino
joao guilherme da silva júnior
25 de Julho de 2002 #

Engraçado, comprei o cd atraído pela sinopse dele no Mercado de Discos
da Agenda e não imaginava que se tratasse de lançamento tão recente...
Recebi a valiosa encomenda num dia e viajei de férias no outro com os
dois CDs na disqueteira do carro. Durante toda a viagem ouvi os dois
discos trocentas vezes. Eu e meus dois pirralhos que não são muito
chegados. No final da viagem os dois é que estavam se encarregando de dar
repeteco nas músicas, especialmente no Batuque na Cozinha. É dez, sem
dúvida.
Valtair A. de Almeida
30 de Julho de 2002 #

O cd é realmente uma obra prima. As músicas são excelentes e muito bem interpretadas.
Desde quando comprei o cd não consigo parar de ouvir.

Ps: Uma cervejinha é essencial para apreciar esses belos sambas.
Sidney do Prado Neto
12 de Agosto de 2003 #

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