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Reportagem sobre coleção de discos do primórdio do choro

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 23 de Abril de 2002 
Assunto: Sítios pela Internet

O jornal O Globo publicou uma reportagem sobre o lançamento de 15 CDs com choros compostos no início do século. Os choros foram resultado de pesquisas de Mauricio Carrilho, que também capitaneou o hercúleo esforço de gravação dos CDs. Para você já ficar babando, estou publicando como comentário desta notícia o encarte de um dos discos, o "Choro Carioca", grupo onde Pixinguinha estreiou sua carreira profissional aos 14 anos.

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Comentários dos leitores

Choro Carioca e Grupo Carioca



Este CD apresenta as primeiras gravações de dois conjuntos cujos integrantes se tornaram grandes mestres do choro. No conjunto Choro Carioca o flautista Pixinguinha faz sua estréia fonográfica aos 14 anos, ao lado do mestre Irineu de Almeida (bombardino e oficleide), do paulista Bonfiglio de Oliveira (pistom), acompanhado de três irmãos: Leo, Otávio (violões) e Henrique Viana (cavaquinho). No Grupo Carioca, o trombonista Candinho Silva é acompanhado por Nelson Alves (cavaquinho) e pelo primeiro violonista de 7 cordas da história da música popular brasileira: Arthur de Souza Nascimento, mais conhecido como Tute.

O contraponto (melodia de acompanhamento que dialoga com a melodia principal), uma das principais características da linguagem do choro, é o grande destaque das gravações do conjunto Choro Carioca, revelado tanto na composição como na execução de seus integrantes.

Irineu de Almeida (1873-1916), professor de Pixinguinha, tocava bombardino, trombone e oficleide (instrumento de chaves com corpo cônico, similar ao saxofone e com bocal similar ao de um trombone, muito popular na época mas hoje praticamente extinto). Formou-se nos cursos de harmonia, contraponto e fuga do Conservatório Imperial de Música e dominava com maestria a arte do contraponto.

A influência da arte de Irineu de Almeida foi decisiva na obra de Pixinguinha. Isso se torna flagrante quando ouvimos o diálogo constante entre o oficleide e a flauta nas execuções das polcas Massada, de Lulu Cavaquinho, Daynéia, Nininha e Albertina, todas de autoria de Irineu, que nos remetem automaticamente às interpretações de Pixinguinha e Benedito Lacerda feitas trinta anos mais tarde. Nas duas últimas encontramos o efeito "pergunta e resposta" amplamente utilizado na obra de Pixinguinha em músicas clássicas como Sofres Porque Queres, Ainda Me Recordo e Ele e Eu. Este efeito ocorre quando a linha melódica dos baixos (no jargão do choro conhecido como "baixaria") é incorporada à música.

As polcas de autoria de Pixinguinha, Carne Assada e Não Tem Nome, contam com a participação do pistonista de Guaratinguetá Bonfiglio de Oliveira (1894-1940), que revela grande categoria ao dividir os contrapontos com Irineu de Almeida. Na apresentação de suas composições - a polca Guará e a valsa Rosecler - Bonfiglio, ainda em início de carreira, demonstra total domínio de seu instrumento, em execuções primorosas com afinação e fraseados perfeitos. As intervenções de Pixinguinha na flauta comprovam a assimilação dos ensinamentos de seu mestre e o despontar de seu talento.

Cândido Pereira da Silva (1879-1960), o popular Candinho Trombone, é o solista do Grupo Carioca. Um dos mais inspirados compositores da segunda geração do choro, sua obra abrange mais de 230 composições, das quais pouquíssimas foram editadas. Nesta seleção estão incluídas duas músicas de sua autoria: a polca O Brandão no Choro, dedicada ao violonista e bandolinista Luiz Brandão, e o schottisch Helena.

Candinho iniciou suas atividades como músico na Banda da Fábrica de Tecidos Confiança, em Vila Isabel, e na Banda da Polícia Militar, chegando a contramestre. Mais tarde atuou como primeiro trombonista da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Candinho era também um grande copista, e registrou incansavelmente, com a mesma precisão que caracteriza suas músicas, não só as suas composições como também as de diversos compositores. É o caso das polcas Não Sei, de José Pereira da Silveira, flautista da primeira geração do choro, e Saudações, de Octavio Dias Moreno. A partitura desta música, encontrada em três versões de manuscritos feitos por Candinho, com exatamente as mesmas notas e a mesma divisão rítmica, foi gravada neste período pela Banda dos Caçadores, dirigida pelo compositor carioca José Januário da Silva. A mesma banda gravou outra música do repertório do Grupo Carioca: a valsa Casa Brancato, do violonista canhoto Américo Jacomino. A polca Saudações, de Moreno, recebeu em 1957 nova gravação de Jacob do Bandolim no LP Choros Evocativos (RCA Victor). No mesmo ano Jacob recebeu de Candinho a doação de seu precioso arquivo musical, que hoje faz parte do acervo do Museu da Imagem e do Som.

O cavaquinista Nelson Alves (1895-1960) e Tute (1886-1951) formam a dupla de acompanhadores de Candinho. Ambos atuaram em diversos conjuntos instrumentais das primeiras décadas do século XX, como Grupo Chiquinha Gonzaga, O Passos no Choro, Grupo Pixinguinha, entre outros. Nelson Alves destacou-se como integrante do conjunto Oito Batutas e como compositor de choros ritmados e modulantes que tornaram-se clássicos do gênero como Mistura e Manda e Serpentina, celebrizados por Pixinguinha e Benedito Lacerda. A linda melodia da valsa Recordações de Carmem, interpretada pelo Grupo Carioca, revela o lado lírico de sua composição.

O violonista Tute, autor da valsa Sonhos de Nair, atuou na orquestra do Cine-Teatro Rio Branco regida por Paulino Sacramento e na Banda do Corpo de Bombeiros regida por Anacleto de Medeiros tocando bombo e prato. Com seu estilo seguro e criativo, destacou-se como um dos melhores violonistas de seu tempo, inovando na forma de execução baseada no contraponto. Seu principal sucessor é o violonista Dino 7 Cordas. Sabemos, através do livro O choro, de Alexandre Gonçalves Pinto, que Tute também foi excelente bandolinista: "Bem poucos chorões, haverá, que não conheça o bom Tuti, violão e bandolim sublime! No acompanhamento é de admirar, em qualquer dos dois instrumentos. No sólo? nem se falla! Deixa apreciadores bambos das pernas tal a maneira do manejo nesses dois instrumentos".



[Anna Paes]
Paulo Eduardo Neves
23 de Abril de 2002 #

Ficamos felizes em saber do trabalho de resgate a memoria dos compositores do choro em 15 CDs de compositores do inicio do seculo passado. Mauricio Carrilho e equipe da Acari records estao de parabens pela iniciativa de preservacao da memoria, divulgacao e promocao de nossas raizes musicais para as novas geracoes de musicos e publico em geral. Vale a pena viajar "no tempo" para conhecer as origens de nosso choro atraves desse trabalho, que deve estar uma beleza, com a producao impecavel de Mauricio Carrilho.
"Sucesso!!!"

Jorge Cardoso
bandolim
Jorge Cardoso
23 de Abril de 2002 #

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