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Lançamento de livro sobre Noel Rosa e entrevista com a autora

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Por Julia Engler
Publicada em 4 de Maio de 2012 
Assunto: Livros

Noel Rosa compôs quase trezentas canções entre seus 20 e 26 anos. Apenas seis anos de produção foram suficientes para que o jovem sambista estabelecesse um novo paradigma na história da canção popular brasileira. Por isso, setenta e cinco anos depois de sua prematura morte, Noel continua sendo um fecundo objeto de estudo para pesquisadores interessados em compreender a música popular brasileira.

A pesquisadora e professora Mayra Pinto, lança Noel Rosa: O Humor na Canção (Ateliê Editorial/FAPESP) terça-feira, dia 8 de maio, das 18h30 às 21h30, na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, em São Paulo.

No livro, Mayra Pinto investiga o uso do humor na construção de um olhar crítico sobre uma sociedade desigual que passava por um período de profundas transformações, principalmente no que se refere à identidade nacional.

Em entrevista dada à Agenda Samba & Choro, a autora conta um pouco de suas descobertas pelo universo do Poeta da Vila.


Em seu livro, você fala do estabelecimento de um novo paradigma na música popular brasileira a partir da obra de Noel Rosa. Que novo paradigma é esse?

Mayra Pinto. Junto com compositores contemporâneos, Noel criou um formato de canção que permanece até hoje – um estribilho, várias estrofes, determinado tempo de duração, a estrutura musical do samba etc. Quanto à singularidade de sua obra, o paradigma propriamente dito foi criado pela voz que Noel imprimiu em suas composições. É basicamente a voz de um sujeito desprovido de força social, em todos os sentidos, porque é o sujeito do samba, o artista popular não valorizado que, com sua conduta boêmia, festiva, e, sobretudo, crítica no caso de Noel, confronta os valores dominantes ora de um modo debochado, satírico, ora de uma forma irônica, mais agressiva, com um tom menor de amargura. Essa voz não existia na canção antes de Noel.

Você observa que o humor funciona como disfarce nos sambas de Noel. Disfarce do quê?

Mayra Pinto. A ironia está em muitas canções, e não só na poesia da letra. Há ironia na interpretação, nos arranjos, no próprio fato de Noel ter gravado muitos de seus sambas com sua voz "pequena", que favorecia certos timbres mais sinuosos e ambíguos. Pra mim, na obra dele, a ironia tem a função de marcar essa ambiguidade, de possibilitá-la. O efeito é que em Noel o sujeito que se coloca em confronto – não só com os valores dominantes do trabalho, da moral, mas também do próprio universo do samba em várias canções – pode não ser alvo de sanções em consequência de sua atitude crítica, dado que seu tom é de "brincadeira", é o humor aí "disfarçando" a agressividade da crítica – entramos aqui na sua próxima pergunta. O humor funciona como disfarce porque historicamente é visto como um discurso "desvalorizado" – o exemplo dos bobos da corte, que podiam criticar inclusive o rei, é ótimo para ilustrar esse lugar secundário do discurso de humor na história; ao bobo era permitido dizer qualquer coisa, até mesmo a verdade mais dura, porque afinal ele era só um "bobo", isto é, "ninguém" com voz de poder real na sociedade. O humor só passa a ser valorizado na arte, e só na arte até agora, no século XX. Valorizado como? Como um discurso que também dá conta de arquitetar reflexões profundas – lembre-se das vanguardas europeias que foram em boa medida inspiradoras do nosso modernismo, atravessado pelas categorias do humor. Nesse sentido, Noel estava em sintonia com o que de mais moderno estava sendo produzido no sofisticado mundo da cultura erudita nacional e internacional.

De que forma se constrói nessa época a poética própria do samba? Como Noel participa desse processo?

Mayra Pinto. A poética do samba é construída por todos os grandes contemporâneos de Noel: os sambistas do Estácio – com Ismael Silva à frente -, com os compositores e cantores brancos como Francisco Alves, Braguinha, Mário Reis, Lamartine Babo, dentre tantos outros. Há uma confluência incrível de influências vindas das mais diversas fontes para consagrar essa poética tal como existe até hoje. Por exemplo, segundo depoimento de Ismael Silva, o ritmo do samba criado pelo grupo do Estácio, menos sincopado que o anterior – feito por Sinhô, João da Baiana e outros – foi consequência da necessidade de permitir dançar e ao mesmo tempo andar nas ruas durante o carnaval. Noel participa intensamente contribuindo para construir essa poética, bem como para cristalizá-la, sobretudo, no que concerne à articulação das linguagens: o tom coloquial das letras/interpretação, marca da época, é manejado por Noel com tremenda segurança na articulação com a melodia.

Você diz que o olhar crítico do poeta só se desarma diante do universo do samba. O que esse universo representa na obra do Noel?

Mayra Pinto. O universo do samba representa o lugar em que o artista popular pode ser, pode se expressar, pode refletir sobre o mundo e, sobretudo, pode ser reconhecido em sua originalidade. Veja o refrão do lindo samba "O X do problema", gravado por Araci de Almeida: "Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá/E felicidade maior neste mundo não há./Já fui convidada/Para ser estrela de nosso cinema/Ser estrela é bem fácil/Sair do Estácio é que é/O X do problema". É o reconhecimento de sua trajetória como sambista que importa; e o bacana é que Noel, contrariamente à maioria de suas canções, cria um eu lírico feminino pra falar dessa adesão incondicional ao samba. Por que ele enaltece isso? Um dos motivos, dentre tantos, é porque, à época, o universo da cultura popular era desvalorizado socialmente, era visto pelas elites como um lugar desprestigiado; mais ainda o universo do samba, "coisa de gentinha", como está registrado no excelente Noel Rosa: uma biografia, de Máximo e Didier. Então, coerente com sua voz de confronto, marca discursiva de sua obra, Noel elege o universo do samba como um lugar só de positividade.

Na sua opinião, qual o principal legado deixado pela obra de Noel Rosa?

Mayra Pinto. A obra do Noel é uma matriz de onde parte uma linhagem na nossa canção popular urbana. E uma matriz genial porque imprimiu, desde o começo da produção da canção, uma sofisticação discursiva que só podia se manter depois dele em um tom maior – vide todos os brilhantes compositores brasileiros que vieram depois de Noel e, certamente, foram inspirados e influenciados por sua obra.

Noite de autógrafos com a aultora
Dia 08 de maio, terça-feira, das 18h30 às 21h30
Livraria da Vila (piso superior)
Rua Fradique Coutinho, 915 - Pinheiros - São Paulo/SP

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Comentários dos leitores

“…uma matriz genial porque imprimiu, desde o começo da produção da canção, uma sofisticação discursiva que só podia se manter depois dele em um tom maior…”

Tive o privilegio de conhecer a obra da Mayra, antes da sua publicação. Se trata de um livro que ajuda bastante a compreender aonde radica esse mistério, essa magia e a proximidade com a poesia da lírica brasileira reconhecida mundialmente.

Quando escutamos compositores da época, inclusive posteriores a Noel, as composições refletem de uma ou de outra forma a realidade cultural brasileira que foi e segue sendo contraditória. A gente escuta a Noel e se da de que se trata de um gênio, mas o livro da Mayra, permite entender a transcendência desse compositor como poucos da música popular no mundo inteiro. Especialmente se consideramos a graça, a ligeireza, o humor e a beleza das melodias. São tão simples como belas e contundentes. São imagens que se enlaçam em melodias que você não esquece.

Não é comparação, mas não posso deixar de pensar no que seriam as melodias de Noel se ele houvesse chegado a idade de Ary Barroso. Será que ele não teria sido admirado e reconhecido por Mario de Andrade como um símbolo do que ele pregoava?

Recomendo muito o livro da Mayra que nos permite compreender melhor um dos maiores fundamentos do “universo do samba”.
Camilo Albornoz
7 de Maio de 2012 #

Lindas palavras, Camilo. E totalmente pertinentes.

Obrigada pelo comentário.
Julia Engler
7 de Maio de 2012 #

Parabéns a autora,

Qualquer iniciativa que divulgue Noel Rosa já é louvável de aplausos.. Conhecer a vida e obra deste poeta popular mais que um caminhão de cursos superiores.
Leonardo Francisco
8 de Maio de 2012 #

De fato Noel não tem comparação, é assim como Pixinguinha e Jacob, unicos. Pela respostas das perguntas ja da pra se ter uma ideia do excelente trabalho feito. Parabens a autora. Gostaria e adquirir o livro, e se alguém puder colocar algum ponto de venda pena net, melhor ainda.

Ah! apenas para anotar, o livro da Marcia Taborda - Violão e Identidade Nacional, ja premia Noel em varias citações e considerações.

Abraços a todos e obrigado.

Baya
João Batista de Almeida
8 de Maio de 2012 #

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