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Bloco Saideira do Méier prepara escolha de samba

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 5 de Janeiro de 2001 
Estado: RJ 
Assunto: Carnaval

O bloco Saideira organiza para este domingo (7) mais um encontro com samba preparativo para o Carnaval, será no boteco Favo de Mel (em frente ao Sindicato do Chopp no Méier) das 17h às 22h. As inscrições estão abertas e o tema é o legendário bloco Chave de Ouro do Méier. A iniciativa do bloco surgiu a partir da revolta de moradores ao ver apenas funk nas ruas suburbanas. Nos comentários desta notícia estou colocando textos que os organizadores enviaram falando de como surgiu a idéia do bloco e de como era o Chave de Ouro.

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Comentários dos leitores


I) Bloco Carnavalesco Saideira do Méier

Antes de pensarmos em fundar um bloco de
carnaval, sentíamos um certo vazio cultural no
Méier e regiões vizinhas. Falamos
principalmente de cultura popular e de samba,
visto que somos apreciadores do gênero e
sempre o procuramos em outros bairros do
subúrbio, do centro e da zona sul, sempre
lamentando a sua ausência no bairro, apesar de
escolas de samba tradicionais, como a Lins
Imperial, serem próximas.
Cabe uma diferenciação do que é samba do
ritmo massificado e popularizado nos meios de
comunicação como pagode. Estamos falando de
um ritmo tradicional e carioca por excelência, a
que todos têm se referido como samba de raiz e
que entendemos ser o partido alto e os
belíssimos sambas de décadas passadas
resgatado em boas rodas.
Somado a esse sentimento de resgate de
uma tradição, temos a indignação ao
percebermos que o carnaval do Méier abriu
espaço para o baile funk (no carnaval passado,
sob certo patrocínio de um certo vereador em
reeleição), justamente na área conhecida como
Chave de Ouro, que foi no passado palco de um
dos blocos mais curiosos e tem nas
proximidades uma das escolas mais antigas da
cidade, o Arranco do Engenho de Dentro. A rua
Borja Reis no último carnaval não parecia uma
rua do subúrbio carioca.
Como amantes do samba e das tradições
populares, como amantes dessa cidade e de seu
carnaval, resolvemos dar início ao BC Saideira.
Aqueles que quiserem somar sua vontade de
samba, carnaval e cultura aos nossos ideais,
sintam-se bem-vindos para colaborar e ajudar a
pôr mais um bloco na rua.

II) Bloco da Quarta-Feira de Cinzas da Chave de
Ouro:

" Conta-se que no bairro do Engenho de
Dentro, na quarta-feira de cinzas, um grupo de
rapazes, liderados por Wilson Macaco, resolveu
pregar uma peça no cinema que tinha o mesmo
nome do referido bairro. Foram ao morro e
pegaram dezenas de pardais no visgo,
colocaram-nos em sacos e caixas de sapatos e
quando a porta lateral do cinema se abriu ao
final de uma das sessões, invadiram o espaço
sem serem notados. Então, no meio da sessão
cinematográfica eles soltaram os pássaros,
causando enorme pânico entre os assistentes. O
gerente do cinema não permitiu que ninguém
saísse, chamou a polícia, criou-se a encrenca e
a rapaziada ficou deveras aborrecida com o fato,
jurando vingança. No ano seguinte, também
na quarta-feira de cinzas, foram tirar a forra, mas
o gerente, já precavido, havia chamado a polícia
e ocorreu outra confusão. Revoltados os rapazes
passaram a depredar a entrada do cinema
atirando pedras, fazendo ameaças. Com a
polícia no encalço, eles se posicionavam bem à
distância e ficavam sambando para desafiar os
policiais que viviam que nem tontos tentando
prendê-los.
Gostando da brincadeira, pelos anos
seguintes eles passavam um certo "livro de
ouro" (um caderno onde anotavam as doações
em dinheiro arrecadadas no comércio local para
ajudar a brincadeira carnavalesca). Aqueles
comerciantes que não colaborassem tinham
suas portas apedrejadas. E lá vinha a polícia de
novo. E tome cacetada, gás lacrimogêneo e
amigos e familiares juntando-se em torno dos
camburões para conferirem se havia algum
conhecido ou parente entre os presos.
Até que houve um acordo com o chefe de
polícia e os "organizadores" do bloco, numa
quarta-feira de cinzas, quando selou-se a "paz"
da seguinte forma: não haveria mais corre-corre
e nem perseguições por parte da polícia que
passaria a acompanhar o bloco para protegê-lo
(ou vigiá-lo?). Mas o delegado, sobre o coreto,
após fechado o trato contra a vontade do povo,
recebeu uma tremenda vaia dos que queriam
continuar na "ilegalidade"."
(Lula
Dias)


Sobre o BC Chave de Ouro é importante
lembrar que hoje é uma lenda para os
moradores do bairro. Passado mais ou menos
duas décadas ainda se fala no bloco que para
muitos era coisa de estudantes comunistas e
subversivos ou gente que queria desafiar a
Igreja e continuar o carnaval em um dia santo.
Vale também ressaltar a coragem em se
provocar a polícia em qualquer época,
principalmente nos anos da ditadura militar.
A agitação provocada pelo Chave de Ouro
nos remete ao entrudo, brincadeira reprimida
pela elite governante no início do século XX. No
Rio de Janeiro, desde o século XVIII, a
brincadeira do entrudo consistia em, nos dias do
carnaval, atirar limões de cheiro em transeuntes
distraídos. Os limões de cheiro eram pequenas
frutas de cera cheias de água que quando
atiradas encharcavam suas vítimas, provocando
muitas confusões. Essa prática era tida como
selvagem e vulgar e foi banida para que o
carnaval carioca se elitizasse e nada viesse a
dever ao carnaval europeu com bailes de
máscaras e muita pompa, de preferência com o
povão se contentando em apenas assistir aos
desfiles dos ricos, tendo suas práticas sempre
proibidas ou vigiadas, o que nos faz retomar aos
motivos de inaugurarmos um bloco para o
primeiro carnaval do século XXI, que tem por
objetivo a vontade de brincar o carnaval de rua
como todo bom carioca (e suburbano) sabe
brincar!
Passado um século ainda temos muito o que
resistir e preservar em termos de cultura popular
na cidade.

Quebre a direita e mude a esquerda! Vá para o
Saideira!

Saideira: - Cor: vermelho.
- Carnaval 2001: Homenagem ao
Chave de Ouro.
Contatos: sbfara@mobinet.com.br / 289 39 24 -
Sandra Fará
241 43 50 - Mariângela Carvalho /
625 1010 - Fátima Lyrio
Paulo Eduardo Neves
5 de Janeiro de 2001 #

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