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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 21 de Setembro de 2000 
Assunto: TV e Rádio

O festival de música da Globo acabou e teve várias unanimidades. A principal é que ninguém gostou do resultado. Êta musiquinha chinfrim aquela "Tudo Bem, meu Bem". Nos debates em nossa lista de discussão, surgiram várias teorias para explicar a decisão do júri. Estou fazendo uma pesquisa para eleger a melhor delas.

Ajude a explicar o resultado do festival da Globo. Vote aqui!
Apresentamos a teoria da justificação, a teoria do Cacareco, a teoria do nem fede nem cheira, a teoria do falem mal de mim, a teoria da mediocrização televisiva e outras teorias diversas. Visite a página de pesquisa para ler a respeito.

Em vez de ficar repetindo aqui tudo que você já leu em todo lugar, destaco dois pontos que não foram discutidos e influíram bastante na qualidade das músicas apresentadas. Primeiro foi a terrível qualidade do som de todo o festival. Gravei tudo em meu vídeo estereo, ouvi com o vídeo ligado no aparelho de som e era sempre terrível. Relatos de pessoas presentes afirmam que no Credicard Hall foi ainda pior. Bastava ter alguma coisa diferente, como um violão de 7 cordas ou um tambor de crioula, para este ficar completamente inaudível. A pseudo-super-produção da Globo não conseguiu dar qualidade técnica ao mais importante do festival, a música. Conclusão? João Gilberto tinha razão!!!

Outra coisa era o contrato draconiano que os músicos precisavam assinar para participar. Tinham que abrir mão de imensos direitos sobre suas criações. Isto deixou de fora muito músico profissional bom que não quis se submeter. Talvez até tenha sido o motivo de alguns não terem apresentado suas melhores músicas.

Por fim afirmo que somando receita e despesa, gostei bastante do Festival. Foi uma boa chance de ver músicos que tenho discos e que nunca tinha visto a cara (Monica Salmaso, Tati, Ná Ozetti, Wisnik, ...), ou que nunca apareceram em horário nobre da TV (Mário Sève, Zé Renato, Rodrigo Lessa, Carol Saboya, Moacyr Luz, ...). O melhor é a discussão que o festival fomenta. Nunca será possível que todos concordem com as músicas escolhidas (ainda bem!), sempre gera um bom papo furado em mesas de botequim e listas de discussão. Se o pessoal da Globo tiver cérebro, verá que isto repercute muito mais do que apenas a pontuação do Ibope.

Noto que minha boa impressão também se deve a apenas ter visto programas pré-gravados. Não tive que aturar nenhuma entrevista da trinca de repórteres "Isso aqui tá uma loucura!" idiotas da Globo. A estupidez dos repórteres foi outra unanimidade. Viva o botão de adiantar do vídeo!

Dois artigos interessantes sobre o festival. A Folha publicou os pontos que as ganhadoras obtiveram e como foi a escolha em uma reportagem. O que mostra que a música ganhadora ganhou basicamente notas 4 e 5. Argh!!! Isto vai de encontro a algumas das teorias que apresentamos. Outro artigo interessante é o do jurado Mauro Dias.

A unanimidade final foi, sem dúvida, a respeito do momento mais divertido do festival.

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Comentários dos leitores

Só discordo de duas coisas nesse excelente texto.

A primeira é que, somando receita e despesa, achei esse Festival uma coisa triste sob inúmeros aspectos. Não vou aqui repetir minha "teoria" a respeito da palhaçada do resultado, eis que já foi até submetida a votação popular : - ). Foi triste ver o descaso com a qualidade do som. Foi triste conhecer músicas que não foram nem incluídas entre as 48 e que dão de dez em “Tudo mal, sem sal” ( e ponho a mão no fogo como o Mauro Dias, longe da parafernalha global, ouvindo no aparelho de som da sua casa, longe de disputa, tomando seu uisquezinho numa boa, concordaria comigo; ou então seria o “esqueçam o que eu escrevi II - a revanche” ). Foi triste ouvir Jorge Aragão “homenageando” ( eufemismo para bajulando ) a “patroa” toda-poderosa e esquecendo de D. Ivone Lara. Foram tristíssimas as declarações do tal do Solano Ribeiro sobre a “pobreza da produção musical brasileira atual”. Ou ele vive em outro planeta, ou acha que todo mundo é otário. Ou não ouviu o último disco do Zé Renato. Ou o da Dorina. Ou o do Nilson Chaves. Ou o da Monica Salmaso. Ou ele nunca ouviu falar do CPC-UMES? Brincadeira...

A imbecilidade do trio de repórteres ( perdoem-me os verdadeiros ) não é um detalhe, não. Faz parte dessa massificação da estupidez, da superficialidade e da babaquice. É a outra face da moeda dos Faustões, Gugus e Ratinhos, com suas aberrações anatômicas, verbais, musicais. A figura do Serginho Groissman é a imagem absolutamente triste e patética da lógica que campeia por esse metier: um cara que fazia um programa inteligente, sacado, bem produzido pela TV Cultura e depois foi pro SBT mais ou menos na mesma linha, mas já com aquela esteticazinha mequetrefe. O cara vai pra G. ganhar os tubos e aceita ficar completamente encostado, até que arranjam uma boquinha pra ele apresentar o festival, onde fica visivelmente fora de sintonia e, pior, com cara de “desculpa gente, não era pra eu estar aqui”. Juro pra vocês que não conseguia olhar pra ele sem que me viessem aquelas imagens de filme de ficção científica: os alienígenas seqüestram o capitão da nave e o devolvem uma massaroca sem cérebro, um vegetal inanimado, só pra mostrar “o que a gente faz com quem nos ousa desafiar”. Triste.

A segunda coisinha, é que o episódio com o Eduardo Goldemberg, que presenciei in loco, não foi o momento mais divertido do festival, não. Teria sido se se limitasse à sua petulância engajada e bem-humorada. Mas a cena de sua expulsão, cercado de dez ou doze bruta-montes que queriam levá-lo para a “salinha”, aos gritos de “O Talma quer ele fora” e “prende esse f.d.p.”, foi uma das coisas mais estarrecedoras que assisti na minha vida. Se não fosse a presença de várias testemunhas, entre as quais duas que se identificaram como advogados ( eu entre elas ), talvez tivesse acontecido algo pior, ante o estado de espírito dos macacos do Sr. Talma. Senti ali na pele, face a face, a truculência do braço armado desse império construído à base do servilhismo ao que de pior já existiu neste país, que não se satisfaz em utilizar todas as forças de seu monopólio para difamar, manipular, corromper. Esse grande leviatã não admite nem por exatos dois segundos que o nome de seu inimigo mortal ( somente porque ousa contestar sua onipotência e hegemonia ) seja pronunciado. Uma estocada tão leve, tão bem-humorada, tão “moleque”, no melhor estilo carioca, causa dor insuportável ao monstro que, de repente, precisa tomar consciência de que não pode controlar tudo.

Dois foram os grandes vencedores desse triste espetáculo: João Gilberto ( o lugar realmente é uma merda ) e Leonel Brizola ( a G. realmente é uma merda ).
Fernando José Szegeri
21 de Setembro de 2000 #

A Globo é um lixo, e a população que assiste é mais ainda...
Fodam-se todos que controlam essa bosta de emissora...
Sou mais o Silvio Santos, pelo menos o SBT fica em São Paulo...
Luiz Gustavo Briguet
22 de Setembro de 2000 #

O Festival da Globo retrata o quanto somos manipulados, no que ser refere a música e gosto musical. O nível de muitas composições me deixou bastante entristecida. Das músicas que ficaram para a final, a que foi premiada com o terceiro lugar , me sensibilizou bastante . Uma espécie de cateretê, o que prova que a força das raizes populares ainda existe e não dá prá esconder, apesar de toda manipulação,de que somos vítimas por parte das gravadoras. Aliás, acredito que essa foi a tônica do resultado, dado o fato de um grande empresário de gravadora ser jurado. Não tenho nada contra rock. Gosto até demais. Mas o que foi premiado, francamente.Estava muito longe da qualidade dos rocks do Cazuza. Atualmente , tenho ouvido rocks , do conjunto Angra ( um grupo de brasileiros que faz sucesso no Japão, na França , e que mistura música erudita com rock.E música brasileira com rock. Mas quem tanto os conhece dos brasileiros? Aliás, o grupo está se reorganizando. O vocalista e o baterista saíram. Não aceitaram o jogo das gravadoras, em detrimento de perderem qualidade de criação).
Uma coisa eu digo. O Festival da Globo, a mim, particularmente, serviu prá baixar minhas exigências comigo mesma, em relação a compor. Vou considerar muito mais a questão de musicar minhas poesias (letras) e acho que como compositora e cantora deduzi, que tenho muito mais qualidade, do que eu supunha.Festival da Globo , sinônimo de estímulo ao aumento da nossa auto - estima , quer nos estimulando a compor, ou a mudar de canal !!!!
MARIA CECILIA LEITE MASSARI
22 de Setembro de 2000 #

Festival da Música Brasileira??? Podemos mudar o nome para Maracutaia da Música Brasileira, o que acham??!! Tudo estava indo muito bem até a Som Livre resolver lançar no mercado um cantorzinho que eu nem sei o nome( nem sei se ele é cantor também...) nessa área tão mal aproveitada em nosso país.
Tanta gente que está há anos batalhando para obter sucesso nacional (Rafael Altério, Kléber Albuquerque, Lula Barbosa, Mônica Salmaso, Fernando Chuí...) e uma música louca recebe o prêmio e, ainda por cima, por unanimidade???
Onde é que vamos parar??????

LAMENTÁVEL!
Ana Cristina Rossi
22 de Setembro de 2000 #

Tudo bem, meu bem???
Para entender o que de fato aconteceu no Festival da Globo, é preciso, inicialmente formular e reponder algumas perguntas:
1- O Festival estava a servico da grande indústria fonográfica?
R. NÃO PARECIA ESTAR.
2- O Festival revelou "novos talentos"?
R. CREIO QUE NÃO.
3- O Festival foi um fenômeno de massas?
R. NÃO!!!
4- O Festival retratou o que de melhor se faz na música brasileira atualmente?
R. ÓBVIO QUE NÃO!
5- O Festival prestigiou algum gênero musical em detrimento de outros?
R. NÃO (embora todos achemos que os jurados adoram um rockinho vagabundo).
O que foi este Festival então? O retrato vivo do nosso país!
Um país sem cara, sem caráter (não confundir com mau-caratismo, é só a ausencia de), uma cultura sem direcionamento, sem personalidade. Por isso assistimos, estupefatos, dois rocks de péssima qualidade como primeiro e segundo colocados.
Em conversa com Fernando Faro, um dos jurados, este me disse que o Sr. Solano conseguiu organizar um festival "sem filosofia". É isso!
Me desculpe o Sr. Mauro Dias, mas não me lembro de ver nenhum jurado vir a público para explicar porque as músicas Ponteio, Disparada ou a Banda ganharam antigos festivais. Não foi preciso!







Mário Alexandre Mammana
22 de Setembro de 2000 #

Sou suspeito para comentar o festival do Globo. Minha música não chegou entre as (48). Meus amigos que assistiram o festival, e já tinham ouvido minha canção não se conformaram.
Eu diria, aliás, enviei um email p/ a Globo nos mesmos termos:
Que pena! Que saudades dos verdadeiros festivais: Sem apresentador gago e sem entrevistas POBRES na platéia.
Que ridículo!!!!

Vagner Osmar Boneto
22 de Setembro de 2000 #

O resultado do festival da Globo foi uma forma descarada de se tentar ressuscitar o Rock Tupiniquim. Até aí nada contra, eu gosto de Rock mas Tudo Bem Meu Bem é muito fraca! Se era pra dar Rock, tinha que ser Tianastácia.
O crime foi deixar O Canto das Águas, isso sim uma autêntica MPB em terceiro!Fora as outras músicas da final que naum levaram nada!
Concluindo: 1)Se querem ressuscitar o Rock, que a Globo promova um Festival de Rock para novas bandas.
2)Rock não é MPB.
3)Mário Séve e Rodrigo Lessa naum tocaram Chôro!Se inscrevessem um Chôro, chegariam à fase final?
4) Se o Rock nacional se é o que foi mostrado, que continue morto!
5) O contrato era um horror mesmo!Naum escrevi nenhuma música minha por causa dele.
Sérgio Fernandes
23 de Setembro de 2000 #

Tive a oportunidade de me inscrever neste Festival com uma composição minha com parceria de L. J. Borges. Lí o regulamento, e o que muito me agradou e fez eu acreditar na honestidade deste evento, foi o fato de que os autores não poderiam digitar seus nomes no CDR que iria ser julgado, para que os jurados não fossem influenciados por grandes nomes da MPB. Era permitido apenas constar o nome da obra musical. Em outras palavras, um conhecido autor como, por exemplo, um Chico Buarque, estaria concorrendo na pré seleção, com as mesmas chances minhas e os demais inscritos.
Foram quase 24.000 inscritos. Então eu pergunto a vcs que estão lendo este comentário: DESTES QUASE 24.000, QUAL A PROBABILIDADE DE UM CHICO CESAR, OU UM WALTER FRANCO, ENTRE OUTROS JÁ VETERANOS QUE FORAM CLASSIFICADOS, SEREM JULGADOS E ESCOLHIDOS, SENDO QUE OS JURADOS NÃO "SABIAM" DE QUEM ERA A MÚSICA?
A resposta, amigos leitores, deixo para cada um analisar e responder.
Aleh Ferreira
23 de Setembro de 2000 #

Caros amigos

Nada teria a acrescentar a estes comentários tão lúcidos, a não ser uma pequena observação:
Vocês realmente achavam que um festival como este iria lançar ou realçar verdadeiros talentos da música?? Muita ingenuidade esperar isto de uma TV Globo... Se a emissora realmente quisesse fazer deste evento um acontecimento com repercussão, não o jogaria para as onze da noite de um sábado, pra começar.

É isso. Abraço a todos, por favor esquentem a discussão que tá bem interessante!
Érico San Juan
23 de Setembro de 2000 #

Há algo além da simples mediocrizacao da TV brasileira: no caso global temos que recorrer a um palavrão que muito bem explica sua programação - estultização. Ou melhor traduzindo - bobalização. Mas bobalização de quem? talvez alguém me pergunte. Respondo - do povo brasileiro.Tratar este povo com que há de pior e mais estulto em termo de televisao é provar ou que o povo é digno desta ou que realmente a TV GLOBO é maestrina na manipulação de massas(leia-se lavagem cerebral). Aceitar um festival onde nao se priorize o que a nossa arte popular tem de melhor, somente enfatizando os chamados caça-níqueis, onde a música é totalmente apelativa e desprovida totalmente da fineza artística é aceitar um hipopótamo na sala de estar. Espero que a REDE BOBO se abstenha de prosseguir com estes festivais.
WESLEY CAMPOS
24 de Setembro de 2000 #

Para mim esse Festivalzinho da Toda Poderosa ficou muito claro: continuamos cercados de imbecis por todos os lados. Sejam eles jornalistas, críticos de música, platéia, empresários, cantores e compositores. Com nobres exceções (Moacyr Luz, Ná OZetti, Mônica Salmaso, Zé Renato), não salvou ninguém. E, além do mais, este Festival começou errado: se é um Festival de Música Brasileira, o que é que as bandinhas de rock estavam fazendo lá? Nada contra, mas se cantar em português for o suficiente para classificar uma obra como MPB, então não sei mais o que é identidade musical. Não sei não, mas às vezes parece que eu é que sou louco! E dá-lhe Brizola!
Bruno Ribeiro dos Santos
25 de Setembro de 2000 #

Não perdi meu tempo vendo o festival da Globo. Não podia dar certo. O melhor festival de música pela televisão foi o realizado pelo falecido Flávio Cavalcanti, lá pelos anos 62, 63. Saiu em disco; eu tinha, mas me afanaram! Quem tem? O primeiro colocado - imaginem - foi Ary Barroso, com uma música chamada "Canção em tom maior". Não lembro quem foi o segundo colocado, mas entre os cinco primeiros, além do Ary, estavam: Lamartine Babo, com a música "Ressurreição dos velhos carnavais". É preciso redescobrir esse disco e preparar um CD, gente!
Quem tem esse disco? Dependendo do preço, eu compro. Cartas para mim.
Ronaldo.
P.S.: O festival da Globo não me pegou! Quem assistiu e não gostou, das duas uma: ou não conhece a Globo ou doente do pé!
Ronaldo Conde Aguiar
25 de Setembro de 2000 #

Recebi autorização para divulgar um texto do músico Cláudio Jorge. Nesta notícia falo um pouco a respeito dele. Só para você ter uma idéia, ele é parceiro do Cartola, Nei Lopes e João Nogueira. No texto Cláudio explica os motivos que o levaram a não participar do Festival da Globo. Aproveite-o:

POR QUE NÃO ME INSCREVI NO FESTIVAL?
(Cláudio Jorge)


Volta e meia um ou outro amigo meu, daqueles da infância, que ficariam orgulhosos de me ver aparecendo na televisão, me pergunta se eu mandei música pro festival. Eu digo que não. Meu amigo estranha, se decepciona e eu tenho que dar uma desculpa rápida que quase nunca convence ninguém. Aí pensei cá com meus acordes: "Cláudio Jorge, Porque você não se inscreveu no festival?". O que vou falar aqui é estritamente pessoal, não tendo nada a ver com os meus amigos que participaram do evento. Cada caso é um caso.

Até Domingo, dois de setembro de 2000, dia da terceira eliminatória, quando a valsa que a Clarice cantou não foi para a final, a minha resposta era que eu já me sinto num tempo cronológico e de carreira onde não tenho mais o menor saco pra ser julgado por alguma coisa, seja lá o que for. Se eu cheguei vivo, feliz da vida aos meus cinqüenta, com o meu jeito, o meu estilo, os meus limites, com o meu pensamento político e visão social, a minha estética e opções musicais, com os meus prazeres escolhidos e definidos, com o carinho daqueles que me interessam e com a árdua tarefa de conseguir perdoar ou esquecer aqueles que me sacanearam, participar de competições é coisa que não cabe mais na minha vida. Não incluo aí, é claro, as disputas de sinuca com Marçalzinho, Maurício Carrilho, Copacabana, Paulinho Pinheiro e Arismar do Espírito Santo, entre outros parceiros.

Infelizmente é duro constatar que há trinta anos atrás, quando comecei a tocar e pensar sobre o Brasil, numa esquina lá do Cachambi(1), que os nossos inimigos eram os mesmos de agora e os nossos problemas são os mesmos dos nossos pais e por isso, no fundo, não concorri ao festival da Globo porque senti uma péssima sensação de que poderia estar mais uma vez sendo usado pelo famoso "sistema". Explico:

Há anos um bando de gente, artistas(2) de nível internacional, premiados, gente de muita competência cultural, vêm lutando por um espaço na mídia para trabalhar e sustentar suas famílias decentemente as custas do que sabem fazer: Arte. Isso a maioria ainda não conseguiu.

Há anos o sistema vem empurrando em nossos ouvidos adentro uma dieta musical balanceada, pra dançar mesmo, em todos os sentidos, rica em pobreza estética e conteúdo cultural que possibilita emagrecer cada vez mais o nosso universo de prazer e cultura. O prazer e a alegria sem controle incomodam (olha o que fizeram com o carnaval), não é mesmo?

É um padrão Xuxa(3) estabelecido na música brasileira tocada no rádio, que deixou do lado de fora da festa o direito do povo escolher o que quer comprar e ouvir. "Agora todo mundo com a mãozinha pra cima" e por aí vai. A música(4) ficou aonde"

Um sintoma rápido: As televisões e rádios brasileiras deixaram de ter músicos contratados para atuarem nas suas produções musicais. Ora, se não precisa de músico é porque não tem mais música.

De que eu falava mesmo, heim?. Ah! sim, o festival da Globo.

Pois é, há anos as televisões brasileiras devem aos nossos artistas um espaço semanal onde possam ser exibidas suas produções democraticamente, livre das ingerências do jabá(5), dos concursos ou das visões distorcidas da cultura que as tvs têm, que impossibilitaram existir no Brasil, até hoje, um programa decente sobre Samba(6).

Ter um programa de música popular semanalmente, sem a obrigatoriedade da competição entre músicos, no meu entender é uma questão de cidadania, já que a TV é uma concessão do Estado, dirigido por um governo eleito pelo povo brasileiro. Logo, nossos artistas, junto com toda a população, são os donos do sinal da TV Globo e por isso têm o direito a usufruir do poder por ela conquistado.

Enfim, não concorri a este festival porque senti que ele interessa muito mais à televisão do que a mim. A mim já não interessa viver a ansiedade de disputar uma vaga, e ser premiado pra cair na arena dos leões junto com meus parceiros de batalha, enquanto os diretores de TV escolhem o melhor ângulo do meu desejo por um espaço na telinha para mostrá-lo pro país inteiro. Música não é "No limite". Não pode haver limites para a criação. Música não é Novela da Oito, onde a beleza do rosto e o corpo modelado da academia são hoje o principal.

Já pra televisão o festival é ótimo. São os patrocinadores, a possibilidade de um grande evento, é uma mini série da música em quatro capítulos e aí a TV Globo nos prestou um grande serviço ao provar que é possível fazer um grande programa de música ao vivo na televisão. Este foi um do melhores programas dos últimos anos, enquanto mostra dos vários estilos que coabitam o mundo real musical do Brasil, o inverso da monocultura musical que nos obrigam a consumir. Sertanejo, Pagode, Axé, Brega e etc., um de cada vez, de tempos em tempos.

Agora, como festival, não atingiu aos nossos interesses, porque a palavra festival implica numa seleção do melhor, e decididamente, com raras exceções, as músicas concorrentes não refletem o melhor da produção nacional.

Resumindo: A música que formou minha geração e que era tocada no rádio, foi criada, entre outros, por compositores que tiveram nos festivais um trampolim para suas carreiras: Chico Buarque, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Caetano e Gil, Milton Nascimento, Ivan Lins, Roberto Carlos e tantos outros. O que é que aconteceu? Esgotaram-se os talentos no Brasil? Não. Acho que o festival da Globo foi o retrato da nossa realidade: As conseqüências devastadoras da infantilidade musical das últimas décadas aliadas à ausência de muitos compositores que, como eu, não se inscreveram, desconfiados com os objetivos da dona do plim-plim.

(1) Cachambi é um bairro que fica perto do Méier, não confundir com Catumbi, bairro que fica longe do Méier.

(2) Artistas são pessoas que antigamente se dedicavam a arte de criar obras que de alguma forma ajudavam o ser humano a evoluir os seus sentidos, base cultural, e experiências de prazer, provocando e perseguindo a originalidade. Não confundir com artistas que são aqueles que só querem aparecer e ganhar muito dinheiro, pagam mal seus contratados e se rendem as normas e clichês da indústria do sucesso onde nada se cria e tudo se copia.

(3) Xuxa não é a atriz nem o campeão de natação, é a mãe da Xaxa. A Xuxa pode pagar todas as suas dívidas se você conseguir colocar doze galinhas dentro de um galinheiro, se você colocar onze, dançou, vai sair de lá chorando dizendo "eu sou um merda mesmo".

(4) Música é aquele negócio que antigamente era formado por três elementos: melodia, ritmo e harmonia.

(5) Jabá é a comissão que alguns radialista levam para tocar a mesma música várias vezes ao dia ou não tocar uma outra. O jabá se apresenta ora em forma de automóvel, ora em forma de viagens, ora em forma de horário comprado nas rádios. Não confundir com jabá que usado junto com o jirimum é a base de um prato típico do nordeste brasileiro.

(6) O Samba é um ritmo bem conhecido do povo brasileiro mas esnobado pela grande mídia que prefere o pagode. O pagode já foi nome de uma manifestação do Samba mas hoje em dia caracteriza a música que tem melodias de balada com acompanhamento de fundo de quintal.

(7) Poesia é aquele monte de palavra junta de que quando a gente ouve diz "Que lindo!". "Requebra a bundinha pra cá, requebra bundinha pra lá", é outra coisa que ao ouvirmos temos vontade de dizer a célebre frase do filósofo da Cidade Alta, Ovídio Brito. Ele sempre a usa com muita propriedade nessas ocasiões mas, infelizmente, aqui não podemos publicá-la.
Paulo Eduardo Neves
25 de Setembro de 2000 #

Na verdade, o que fica de consolo, após ler todos estes comentários e de ouvir outros mais, de muitos amigos e conhecidos, é saber que ainda tem muita, mas muita gente mesmo amando, apreciando e fazendo boa música brasileira e que a Globo ainda não descobriu isso.
Nós, por nosso lado, vamos continuar fazendo boa música e aplaudindo aqueles que também fazem.
Seremos uma minoria desprezível???
Mário Alexandre Mammana
26 de Setembro de 2000 #

Eis uma reportagem explicando como se chegou ao resultado.
Paulo Eduardo Neves
28 de Setembro de 2000 #

Nenhuma teoria conspiratoria.
O resultado do Festival é apenas a dura retomada de algo que não tivemos durante algumas decadas.

Como votar e o exercicio da democracia: está nos custando uns quinze anos para reaprender (lembrem-se que escolhemos um Collor e um FHC).

No caso da MPB ainda falta, por ex. voltarmos a ter os pequenos festivais que haviam em faculdades, colegios e etc. E haviam dezenas.

Não sou um cara paciente, mas neste caso não vejo outro jeito.

Os indicadores estão visiveis com a brutal queda de vendagem do axe-bunda e do sertanojo.

Emilio

Emilio
10 de Outubro de 2000 #

O festival esteve fraco. Apenas a segunda eliminatória foi acima da média. Diante disso, não fiquei tão indignado com o resultado. Afinal, uma canção Jovem Guarda conseguiu vencer um festival 35 anos depois. É uma homenagem ao Roberto Carlos. Qualquer outro resultado faria descontente a assistência. Então, por que não uma canção que teria dado hojeriza nos revolucionários conservadores em terno e gravata do Partidão tr6Es décadas antes. Viva Roberto! Viva a Antropofagia Cultural!
Wellington Wella
10 de Outubro de 2000 #

O festival esteve fraco. Apenas a segunda eliminatória foi acima da média. Diante disso, não fiquei tão indignado com o resultado. Afinal, uma canção Jovem Guarda conseguiu vencer um festival 35 anos depois. É uma homenagem ao Roberto Carlos. Qualquer outro resultado faria descontente a assistência. Então, por que não uma canção que teria dado hojeriza nos revolucionários conservadores em terno e gravata do Partidão tr6Es décadas antes. Viva Roberto! Viva a Antropofagia Cultural!
Wellington Wella
10 de Outubro de 2000 #

Achei o festival tão ruim que sequer consigo fazer algum comentario .Nada prestou(musica,a plateia,o palco), e o poir foi ter que aguentar o reporter "FALA GAROTO" dizendo que o festival estava emocionante.
Juro que senti pena dos pobres mortais que não tinham lugar para sair no sabado nem tv por assinatura, tendo que assitir esta replica do festival da canção
Ana Carolina
24 de Outubro de 2000 #

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