No dia 27 de agosto completaram-se 26 anos de morte de Lupicinio Rodrigues, mas as duas apresentações de Ospa Interpreta Lupi, no Sábado, dia 26, à noite, mostraram que o poeta da Ilhota está com seu imortalidade garantida.
Foram duas lotações esgotadas, público de pé cantando Felicidade, algumas boa surpresas sobre o palco e a confirmação de que, houvesse mais tempo de ensaios e alguma revisão nos arranjos, estaríamos frente a um espetáculo perfeito.
Os concertos de sábado e mais uma apresentação fechada ontem fornecerão as bases instrumentais para o primeiro CD da série Memória Musical do Rio Grande do Sul, uma iniciativa da Sedac. As vozes serão colocadas em estúdio. O disco deve ser lançado até o final do ano.
A primeira música foi uma Judiaria, no bom sentido. A Ospa e o ótimo arranjo de Carlos Garófali apostaram nos metais para evidenciar os arroubos emocionais que caracterizam a maioria das composições de Lupi. Angela Diel veio depois, sem conseguir desvencilhar-se dos liames da impostação e da disciplina de cantora lírica ao interpretar Nervos de Aço. Adolfo Almeida Jr. tentou experimentar na dinâmica e na percussão da orquestra em Esses Moços, voz de Zé Caradípia, mas a grande surpresa viria em seguida.
O irmão de Rubens Santos, Sérgio Dias, trouxe mais do que uma música inédita de Lupi e Santos para o palco. Ao cantar Nitéia, uma letra ingênua e até simplória numa melodia apenas regular, ele reviveu a voz e a presença do Rubens Santos de há 20 anos, como observou o cantor Leonardo. Sérgio esteve à vontade, mostrando absoluto domínio para transitar entre graves e agudos. Lúcia Helena encontrou dificuldades em Maria Rosa. O andamento estava lento, pesado, travando a interpretação. Outra expectativa da noite também não se realizou completamente. Ao menos na apresentação das 19h, a versão instrumental solada e arranjada por Pedro Figueiredo para Cadeira Vazia parecia reverente demais com o original, sem grandes experimentações. A originalidade como arranjador Pedrinho mostrou na música seguinte, Foi Assim..., cantada por Gelson Oliveira. Eram caixa e vibrafone a serviço do Lupicinio dramático, num arranjo colorido e cambiante, surpreendente, embora aparentemente num tom alto demais para Gelson.
Ospa Interpreta Lupicinio mostrou também que um dos principais problemas ao se arranjar músicas populares para uma sinfônica, especialmente quando se trata de sambas-canção, é como conciliar a percussão com o resto da orquestra. Pedrinho conseguiu em Foi Assim..., e Garófali bisou em Ela Disse-me Assim. Zilah Machado exibiu seu timbre talhado para a dor-de-cotovelo, sua habilidade em alterar o tempo e subordinar o acompanhamento a sua emoção. Sérgio Dias, cantando Apreço, outra parceria desconhecida entre Rubens Santos e Lupicinio, levantou o público com seus agudos.
Leonardo também emocionou a platéia ao entrar pilchado para cantar Amargo. O arranjo de Daniel Wolf, abrindo mão da percussão, foi brilhante ao criar dois andamentos a uma das poucas incursões de Lupicinio na seara nativista. E não deixa de ser interessante que Lupicinio, mesmo de bombacha, se mantém fiel ao seus velhos temas: Amargo canta as amarguras de um peão traído por sua chinoca e pelo melhor amigo. Felicidade fechou o espetáculo provando que é uma séria candidata ao título de A Música do Rio Grande, com o público de pé, cantando, batendo palmas, balançando o corpo com a regência do maestro Túlio Belardi. Todos dando razão a Lupicinio: a música faz as pessoas voarem.
RENATO MENDONÇA - Zero Hora
P.S. A OSPA é a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre