Durante cerca de três meses, os compositores Paquito e J.
Velloso deixaram-se embevecer por uma iluminada batida numa
caixa de fósforos. As mãos que mostravam uma habilidade incomum
ajudaram os dois a tirar da memória do protagonista daquele
pocket show canções que estavam perdidas na década de 70 e as
levassem para o disco "Diplomacia" (EMI), que chega hoje às
lojas. Morto no começo do ano passado de câncer, pobre, aos 72
anos, o baiano Oscar da Penha, o compositor Batatinha, não
conseguiu mais que palmas esparsas em vida.
- Lembro-me que eu tinha paixão por samba em tom menor e isso e
ele fazia muito bem - conta Maria Bethânia, que, em 1965,
gravou em seu primeiro disco as músicas "Diplomacia" e "Só eu
sei". Bethânia gravaria mais tarde "Toalha da saudade",
"Imitação" e "Hora da razão".
No CD-tributo, a voz de Batatinha está ao lado das de nomes
como Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e
Jussara Silveira. Com os sambistas baianos Riachão, Walmir
Lima, Nelson Rufino e Edil Pacheco, Batatinha dividiu os vocais
em "De revólver, não!".
- A intenção é dar a ele o lugar que sempre mereceu na MPB -
diz Paquito, que selecionou 70 músicas para gravar 16. - Quando
iniciamos o projeto, Batatinha foi internado e voltou muito
debilitado. Depois de uma razoável melhora, conseguimos gravar.
Batatinha tinha uma popularidade restrita a Salvador. Suas
letras combinavam tristeza e sobriedade, apesar de,
pessoalmente, demonstrar o contrário.
- Certa vez, ele nos contou que perdia os concursos de MPB dos
quais participava porque suas músicas eram tristes - lembra J.
Velloso.
Batatinha gravou apenas três LPs, todos fora de catálogo. Os
dois primeiros, independentes: "Samba da Bahia" (73), "Toalha
da saudade" (76) e "50 anos de samba" (94).