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Carnaval 2000 em Sampa por Chico Aguiar

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Por Fernando José Szegeri
Publicada em 21 de Março de 2000 
Assunto: Carnaval

Passada a euforia dos dias de Carnaval, desfiles, resultados, revistas, programas televisivos, voltemos ao velho e bom samba. Sim, porque aquilo que nos chega via TV nesses dias, “made in” Rio, Salvador ou São Paulo, parece cada vez mais longe da boa arte popular que no ano inteiro vivemos, e que é capaz de nos tocar com sua pujança, força, beleza e originalidade.

Não sei se esse ano a dose foi mais cavalar, mas muita gente boa andou exprimindo esse mesmo sentimento. Lembro, especialmente, de textos de Nei Lopes e Aldir Blanc, ambos na revista “Bundas”. Entre o pessoal do “metier” aqui em Sampa também circulou um belo texto do Chico Aguiar, um dos grandes conhecedores das coisas do samba nestas plagas, que ora compartilhamos com os leitores da Agenda. Clicando logo abaixo, no link para ver os comentários desta notícia, você pode lê-lo na íntegra. Aproveite que o canal é democrático e deixe também a sua impressão registrada.

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Comentários dos leitores

CARNAVAL 2000 ou “A Retirada
da Laguna”

Chico Aguiar


De sociólogo, médico e louco todos temos um pouco, então toca a escrever sobre o desfile das escolas de samba .

Que o Carnaval das escolas já se descolou há muito do que há de mais autêntico nas comunidades afrobrasileiras , é coisa que uma porção de gente boa ( Candeia , Elton Medeiros ) vêm dizendo há 30 anos. O termo “escola de samba” , na verdade , se presta de imediato a equívocos . Ismael Silva explicava que a Deixa Falar recebeu esse nome por uma espécie de brincadeira e desafio aos demais grupos carnavalescos , já que no Estácio ficava a Escola Normal, de onde vinham , portanto, os professores. O fato é que não é preciso ser um observador muito fino para perceber que no desfile das tais escolas , praticamente ninguém mais samba .

Carnaval : vai-se ao desfile com a expectativa gerada por decantadíssimos lugares comuns de encontrar algo muito sensual , e também lúdico. Mas em vez de sensualidade, vê-se uma competição, a do corpo mais perfeito. Fogueira de Vaidades , diametralmente oposta à brincadeira gratuita dos “blocos de sujo”. Pergunto agora : e aquela história da troca de lugares, aquele negócio de, no Carnaval, o Senhor virar escravo e vice versa , algo por aí ? Será que o humilde tem mais vez nestes poucos dias do ano ? Eu responderia que sim , mas apenas no sentido em que só mesmo nesse período pode vestir a máscara e a fantasia de “otoridade”. O portão é guardado por brucutus , componentes das escolas que não ficam devendo nada em truculência à PM . O portão é indispensável também para “criar valor” . Afinal , quanto mais complicado de obter , o privilégio de participar da festa , mais caro e valorizado fica . Agora , um olhar para o público que fica de fora: são os mesmos de sempre - negros e pobres (“Não me leve a mal mas muito luxo pode atrapalhar”) .

Este ano , percebi , contudo , um aspecto novo : na arrancada da concentração , observando a agitação de puxadores e diretores logo antes da escola entrar na avenida , o que vi foi fúria. Os fogos, estourando logo atrás de nós eram metáfora de explosão e energia. Daquelas coisas que só vendo ; era preciso estar ali junto . Se minha percepção e intuição não estivessem me traindo, a associação primeira e inevitável era com um avanço de bandeirantes , ou, para ficar mais perto , com a sanha de progresso e trabalho consideradas características de S. Paulo e que seriam justamente as que o tornariam o famoso “túmulo do samba”. Já vou dizendo , aliás , que não me parece que o desfile carioca seja muito diferente nesse aspecto ; acho que estão também “paulistizados” , o que não chega a ser surpresa . S. Paulo dá , afinal , o tom e a cara ao Brasil moderno.

A pergunta que se impunha então era: o que se pretendia com aquilo, o que estava de fato em jogo , o que se buscava??? Vencer uma competição , seria a resposta mais óbvia; talvez por isto, as comemorações de vitória após as apurações se pareçam tanto com as das vitórias futebolísticas. De qualquer modo , todos pareciam reagir ao comando de uma mesma lógica , que positivamente não era a da brincadeira . Podendo olhar de perto a “charpente” , o mecanismo de relojoaria daquilo que parece de longe uma manifestação eufórica , entendi ( e para isso basta desfilar um ano ou dois ) o quanto de paixão , violência , e sobretudo de energia se requer para fazer acontecer aquela curta encenação (70 minutos). Bem, talvez se possa entender desse modo : o Carnaval continua sendo um dos poucos caminhos que o sambista pobre , negro na maioria, tem para “chegar lá”. Afinal , embora posta numa espécie de altar , acima da massa comum , lá está a cobiçada “Feiticeira” e diversos outros aviões cujo convívio é habitualmente privilégio de quem tem no mínimo um helicóptero . Porém, por maior que fosse a semelhança com a competição “capitalista”, ali se lutava para obter simulacros , e não bens de verdade ; ao final , as vedetes voltam aos braços dos maridos industriais e os almejados primeiros lugares não ajudam ninguém a tirar o pé da lama . Mas ainda acho que o que se vê ali é em certa medida reflexo direto , retrato da sociedade e não seu negativo ou inverso como se supõe que deva ser o Carnaval. O folião, por exemplo, é massa de manobra para atingir esse objetivo que me intrigou. Ele é atraído pela isca-engodo do “samba”, da alegria , do prestígio ( para os mais realistas ), mas lá se defronta com os feitores-diretores de harmonia , e só falta ser chicoteado (aí sim , podia se dar a “vingança da senzala” , mas os “da cor” tomam porrada do mesmo jeito , o negro sendo algoz e vítima na salada brasileira , tema politicamente incorretíssimo). Todo um grupo tocado `a força para realizar o projeto , do qual tem uma vaguíssima idéia, de um quadro dirigente. Qualquer semelhança com a história do Brasil é mera coincidência. Outra associação possível: a Retirada da Laguna, onde os oficiais chicoteavam os que tentavam parar para socorrer caídos e feridos gritando : “Para frente, para frente!!!”.

Agora , parece que competição já havia nos grandes desfiles do passado , e , no entanto, segundo os velhos , se sambava no pé , etc. O que teria mudado de fato ? Seria a imposição , ou mais que isto , o fascínio dos valores de fora (nesse sentido , o negro estaria ao mesmo tempo integradíssimo e enganadíssimo) , a miragem da ascensão e do prestígio ? Cartola , lembra em “Tempos Idos” que o samba “foi tocado pra Duquesa de Kent no Itamaraty”. E ele mesmo , por outro lado , repudiava os desfiles atuais , a cadência dos sambas de agora que os teria transformado em marchas militares . O insight e a sensibilidade desses caras !! De fato , existe no Brasil algo mais marcial e mais forte do que uma bateria de Escola de samba ? Aqui não temos essa tradição nas Forças armadas , como há no Chile, por exemplo , de pompa militar , e qualquer fanfarra do Exército sumiria diante duma Vai Vai , para ficar por aqui . E não só na marcialidade ; também no quesito dramaticidade os desfiles militares são amplamente superados pelas escolas de samba . Lembro-me , no Chile , do comentário de uma argentina quando passou por nosso grupo de excursão um caminhão cheio de soldados com as caras pintadas de preto : “Como les gusta a los milicos , eso del teatro !” Para completar a analogia há até o derramamento de sangue dos percussionistas que ferem as mãos nos instrumentos .

Na outra mão de direção , o que ganha o “branco” (no sentido do não sambista)? O que ganham , além dos cachês , Feiticeiras e que tais , além da ampla visibilidade na mídia que o desfile proporciona ? Aí vem a história do “samba no pé”. Isto virou uma espécie de passaporte obrigatório para atingir o status de brasilidade , no que ele possa ter de vantajoso e prestigioso . Na verdade , nenhuma samba realmente bem , como acredita , e , se se quisesse arrumar quem sabe fazê-lo de fato , não seriam as musas televisivas que estariam lá . Mas há cada vez menos gente que se dá conta disso , que tenha uma vaga idéia do que é sambar direito; hoje qualquer brasileiro que vai ao exterior , passa a mão num pandeiro , dá lá umas batidinhas e acredita piamente que é um autêntico sambista. Enquanto isto a Velha Guarda da Portela não participa mais das decisões na escola.

Fernando José Szegeri
23 de Março de 2000 #

EXCELENTE ARTIGO, SOBRETUDO NO QUE TANGE ÀS COMPARAÇÕES ENTRE OS CARNAVAIS DAS DUAS MAIORES CIDADES DO PAÍS. HOJE É TUDO IGUAL, PRINCIPALMENTE COM O VAIVÉM DE CARNAVALESCOS E PUXADORES MIGRANDO DAQUI PARA LÁ E VICE-VERSA. DE FATO NÃO HÁ DÚVIDA QUE O POVO CADA VEZ MAIS SE DISTANCIA DOS DESFILES DAS ESCOLAS DE SAMBA E NEM SE DÁ CONTA DISSO. O POVO TALVEZ AINDA PARTICIPE SOMENTE NAS CHAMADAS "ALAS DA COMUNIDADE", AONDE OS NEGROS PODEM SER ENCONTRADOS.
NA BAHIA É PIOR: OS QUE TÊM ABADÁ (EM GERAL, OS BRANCOS)DANÇAM PROTEGIDOS POR CORDAS (SERVIÇO QUASE SEMPRE A CARGO DOS NEGROS). COMO DISSE O JORNALISTA XEXÉU, ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO SÓ NÃO VAI QUEM NÃO TEM ABADÁ. AO POVO CABE ASSISTIR A PASSAGEM DAQUELA TURMA ALEGRE, TURISTAS DO BRASIL E DO EXTERIOR, SE DIVERTINDO COM TODA A SEGURANÇA. E O POVÃO, DEPOIS DE SE ESPREMER NA CALÇADA, AINDA VOLTA PRÁ CASA DIZENDO QUE O CARNAVAL ESTAVA MUITO BONITO. QUE CARNAVAL?
Adilson Fabiano da Silva
24 de Março de 2000 #

I was most impressed with my experience at the Carnaval in Sampa.
I would like to have a video of this event to take back to Canada so that my friends can see what Brazil has to offer in the way of unique ciltural events.
I am in Sao Paulo until March 28 so would be pleased if you could e-mail me any usefull information.
David Burton.
7 de Março de 2001 #

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