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"Viagem dos Sons" reúne músicas de ex-colônias portuguesas

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 24 de Dezembro de 1999 
Assunto: CDs

"Viagem dos Sons" é uma coleção de 12 CDs reunindo músicas de países que foram colonizados pelos portugueses. Entre eles estão Goa, Sri Lanka, Macau, Timor Leste, Moçambique, São Tomé, Cabo Verde e Brasil. Deve ser bacana para perceber as semelhanças entre as músicas destes países. As músicas têm várias semelhanças. O cavaquinho, por exemplo, tem similares no Timor e no Havaí, chamados respectivamente de Kroncong e Ukelele. O disco com música do Brasil é dedicado ao Cavalo Marinho paraibano.

Infelizmente o preço é salgado para padrões brasileiros, US$150. A coleção pode ser comprada a partir do site da gravadora, ou com o músico Marcos Souza (marcossouza@alternex.com.br) que está divulgando-o no Brasil. Para quem quiser mais informações, estou colocando como comentário desta notícia um logo texto do Marcos falando da coleção e que foi publicado na revista Música Brasileira.

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Comentários dos leitores

A VIAGEM DOS SONS


De Cabo Verde ao Brasil, a raiz que se espalhou!

Tive a honra de receber uma coleção de CDs em mãos e conhecer um "Marcus
Pereira" português. Marcus Pereira foi um dos maiores pesquisadores
brasileiros, lançou uma coleção com o melhor da música brasileira,
imortalizando-a. Marcus descobriu e gravou grandes nomes, Cartola,
Quinteto Armorial, música do norte, sul, centro-oeste... José Moças,
português, morou anos em Macau, radialista, produtor de uma caixa que
revela uma parte da história cultural mundial. A Viagem dos Sons. Um
caixa luxuosa com doze CDs, cada CD de um país, marcados para sempre pelas
influências portuguesas.
"Falar de sons em viagem é, evidentemente, definir comportamentos
associados à música e que de algum modo marcam os itinerários construídos
pelas pessoas. As viagens protagonizadas pelos portugueses a partir do
séc. XV se aventuram na procura de outros mares e de outras terras, levaram
e trouxeram marcas de som, cor e de sabor, ingredientes cujo o papel de
mediador afectivo em muito contribuiu para quebrar distâncias e revelar
afinidades culturais..." Estas entre outras são as palavras de abertura
dos CDs. Logo após vem o histórico político e cultural de cada país em um
livreto, com versão português e inglês. É só abrir a caixa e viajar pelos
sons.
Do Brasil foi gravado o Cavalo Marinho da Paraíba. O repertório do Cavalo
Marinho pode apresentar três termos: o aboio, forma de cantar estrófica e
sem acompanhamento instrumental usada pelos vaqueiros para tanger o gado;
canto ou toada, e dança. Enquanto a forma e a função específicas do aboio
são mais imediatamente compreensíveis pela importância do boi no
desenvolvimento da apresentação, denominado brinquedo, a distinção entre
canto e dança é mais sutil, uma vez que as partes dos cantos em ritmo
binário são dançadas, enquanto várias danças se executam sobre trechos
musicais cantados. Os cantos, ou apresentam personagens, ou revelam nos
seus textos momentos importantes da trama, enquanto as danças, enfatizam
uma dada coreografia como, por exemplo, o entrelaçamento de arcos
ornamentados por fitas ou determinados tipos de sapateado. A rabeca é um
importante instrumento neste gênero, assim como o triângulo e pandeiro.
Cabo Verde é um arquipélago formado por dez ilhas e alguns ilhéus
localizados ao largo do Senegal, na costa ocidental africana. Desabitado,
foi descoberto em 1460. Sua colonização teve como finalidade estabelecer
bases de assistência à navegação pelo atlântico e promover culturas
agrícolas valorizadas na Europa, como a cana de açúcar. Para os
cabo-verdianos a música é uma presença fundamental, além de despertar um
sentimento de ligação com sua terra, com seus problemas e com sua vida. O
CD de Cabo Verde já começa com um digno violão, os graves como nosso sete
cordas fazendo a introdução de uma coladeira, gênero vocal e instrumental
de dança, derivado da morna. As letras das coladeiras são em alguns casos
satíricas, como a primeira faixa, Cornologia, é isso mesmo! Uma história de
traição amorosa cantada com ironia: "...Puseste-me os cornos na minha
ausência, foste ingênuo, pensaste tu, só me resta aceitar, a ingratidão que
me destinaste"... Esta é a tradução, pois a música é cantada em crioulo.
O grupo Luar, toca na terceira música, Chitada de Fome, uma coladeira
instrumental. Violões, cavaquinhos e solo de cavaquinho eletrificado,
parece um chorinho com percussão mais africana. Até a molecagem dos
chorões, como as paradinhas, eles fazem. Como o grupo, a maior parte dos
músicos em Cabo Verde não são profissionais, embora represente para eles
uma considerável fonte de renda. Por outro lado, a preservação do
patrimônio musical cabo-verdiano é também um dos objetivos deste grupo.
Como no interior do Brasil, que tradições sobrevivem ao tempo por teimosia
de músicos, porque se dependessem de uma política de patrimônio cultural
brasileiro, não existiria mais nota sobre nota tradicional.
O músico Chico Serra traz uma morna, gênero musical mais difundido no
exterior, representada pela diva dos pés descalços, Cesaria Evora. O tempo
da morna é das características mais importantes. balanceado, lento, num
compasso quaternário em que o tempo está organizado em ciclos de quatro,
dos quais o primeiro e o quarto são acentuados. O piano impecável de Chico
Serra nos faz remeter a uma melodia de valsa, na música Escuta-me de Antero
Simas. A mazurca Recordação de António Filipe Costa é tocada pelo
octogenário Nhô Kzi. Seu violino é uma rabeca que nos leva ao interior do
Brasil, mais precisamente em Minas Gerais, Montes Claros, onde um homem
chamado Zé Côco do Riachão, tocava, fabricava rabeca e compunha músicas
lindíssimas. Claro! São as mesmas influências, danças de salão européias
misturadas com ritmos africanos. Entre valsas, canções, funanás, batuques,
ritmos e raízes, aparece um violão bonito e seguro de Vasco Martins. Em sua
valsa, retrata até no nome exatamente as referências de elementos e
sonoridades de Cabo Verde, Brasil e Portugal. Situações Triangulares. Cabo
Verde, sua música, seu povo, amadurecimento de uma cultura!
Nos outros CDs estão Goa, Sri Lanka, Macau, Timor, Moçambique, S. Tomé,
Sumatra, Malaca, e num CD só as comunidades costeiras Damão, Diu, Cochim e
Korlai. Uma caixa que nos revela através de um instrumento imortal, a
música, todos os segredos históricos marcados por navegadores de um país
pequenino da Europa, que nos faz se sentir em casa quando visitado,
Portugal. Esta viagem sonora não tem fim, para ter o passaporte é simples.
Peça pela internet: marcossouza@alternex.com.br, Visite o
site.
Em fase de preparação, a Tradisom está preparando uma nova caixa que será
integralmente dedicada ao Brasil, com 6 CDs, todos de ritmos brasileiros,
pesquisados por Samuel Araújo do Centro de Pesquisas Folclóricas da UFRJ e
produzidos por José Moças.

Texto de Marcos Souza


Paulo Eduardo Neves
24 de Dezembro de 1999 #

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