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Cancelada a temporada de "Obrigado, Cartola!" no João Caetano

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Por Eugênia Rodrigues
Publicada em 2 de Junho de 2004 
Estado: RJ 
Assunto: Teatro

Anunciamos aqui na Agenda a temporada de seis semanas que o espetáculo "Obrigado, Cartola!", sucesso no CCBB, faria no Teatro João Caetano. Acontece que as apresentações foram canceladas. Abaixo, o texto enviado pela produção.

"A reestréia do musical "Obrigado, Cartola!", de Sandra Louzada, prevista para o dia 31 de maio de 2004, segunda-feira, no Teatro João Caetano, foi cancelada, uma vez que a produção do espetáculo não conseguiu o tão esperado "de acordo" da família do compositor.
Fechou-se um acordo verbal entre a produção e a família, representada pela advogada Dra. Eni Moreira, e aguardava-se o prazo pedido pela mesma para a redação final do contrato. No dia limite para a assinatura, a advogada pediu o dobro do valor acordado. O novo valor equivalia a 100% do patrocínio para a temporada no Rio de Janeiro, mais 15% da bilheteria, o que inviabilizou a retomada do espetáculo.
A produção lamenta não poder realizar esta temporada, bem como uma outra, mais curta, em São Paulo. Estava confirmado na pauta e patrocínio do CCBB de São Paulo para que "Obrigado, Cartola!" chegasse ao público paulistano no período de 22 de julho a 29 de agosto.
Sem o espetáculo perdemos todos nós. A obra de Cartola, que merece ser divulgada com máxima urgência. Quarenta profissionais que vivem de seu trabalho, entre artistas técnicos e equipe de apoio. O Teatro João Caetano, casa onde tradicionalmente se celebra a música brasileira. Quatro futuros atores, que vinham da comunidade da Mangueira, e fizeram sua estréia no espetáculo que homenageava um dos patronos da Estação Primeira de Mangueira.
Por todas as lições que o mestre nos deu em sua música e sua arte, só temos a agradecer.
Que os versos do mestre ecoem e falem de nossa tristeza.

"Preste atenção,
O mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó"

Obrigado, Cartola!"

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Comentários dos leitores

Tive a oportunidade de assistir "Obrigado Cartola", logo na estréia em janeiro.
Diferentemente de muitos.
Voltei no finalzinho da temporada, em março.
Diferentemente de muitos.
Acompanhei ansiosa as negociações para a reestréia.
Diferentemente de muitos.
Mas, igualmente a muitos outros, esperava poder rever o espetáculo, novamente no Rio, agora num teatro maior e mais conhecido do público, palco do festejado "Seis e meia", que brindou os cariocas, durante muito tempo, com muita música boa.
Lugar mais que apropriado para Cartola.
Justa homenagem a um grande compositor popular.
Excelente chance de trabalho para um grupo grande de atores, músicos e toda gente que fez o espetáculo acontecer durante três meses, com casa cheia todos os dias.
Pena! Que pena!
Cartola, na peça, ajuda Paulinho da Viola dando um dinheirinho para adiantar na passagem de ônibus de volta para casa.
Como era generoso, deve estar muito chateado. Mais ainda, pois é com gente da família.
Celina Boga
3 de Junho de 2004 #

O GRANDE, ENORME Cartola, com certeza não referendaria essa ignomínia contra sua música e a Musica Popular Brasileira!

Rubinho Jaime.
Rubens Gonzaga Jaime
4 de Junho de 2004 #

Fui com alguns alunos da Escola de Música da AMC no penúltimo dia e saímos de lá deslumbrados. A obra de Cartola já conhecíamos mas a sensibilidade com que foi encenada nos deixou fascinados. Soubemos que haveria uma nova temporada e isto causou um enorme rebuliço em nossa Escola. É claro que todos queriam assistir.
Gente, isto é história. É pura história brasileira! Não nos neguem também esta fatia!
Lena de Souza
AMC da Baixada Fluminense
4 de Junho de 2004 #

Cartola não deixou descendentes. As pessoas que se declaram como sua "família", são meros parentes de D.Zica, sua companheira durante anos, mas com quem não teve filhos. Talvez seja esta a justificativa para a atitude mercantilista desses herdeiros, nem um pouco preocupados com a obra do mestre, mas com sua conta bancária.

J. Carlos
Guapimirim - RJ
jcarlos
5 de Junho de 2004 #

Ele que era a pessoa mais envolvida com o ganho do que produziu foi quem menos viu de fato a "cor" da grana... a cultura brasileira só tem a perder... Uma pena!!
Cláudio Paula
5 de Junho de 2004 #

Até dá para entender, pois infelizmente em época de crise as pessoas entituladas Herdeiras do Mestre talvez acabam apelando somente para o lado financeiro e infelizmente não se preocupam com a obra e nem se quer pensam numa forma de evidenciar cada vez mais o nome de
" Cartola ". Para nós que somos fãs da música popular brasileira e especificamente do samba, dos versos e da riqueza musical que " Cartola " escreveu ficamos esquecidos. Não é a tôa que nas rádios continuam tocando as mesmas porcarias bancadas pelas grandes gravadoras e aos mais jovens, talvez não tenham o direito de ouvir e sentir os versos do Sr. Angenor de Oliveira.

Lamentável Srs. Herdeiros . . .

Marquinoh's VB
Marcos Ferreira / Zezé Vital
7 de Junho de 2004 #

Um artigo publicado no dia 7/6 no Jornal O Globo, apresenta mais detalhes dessa briga:

Briga que fere a memória do mestre Cartola

João Pimentel

As belas melodias e as letras inspiradas do mangueirense Angenor de Oliveira, o Cartola, não combinam com a polêmica do adiamento da reestréia do espetáculo “Obrigado Cartola”, que esta semana iniciaria temporada no João Caetano. Segundo as produtoras Marta Nóbrega, Julia Rabello e Laura Castro, a herdeira dos direitos autorais do compositor, Nilcemar Nogueira, neta de Dona Zica, teria delegado poderes a uma advogada que pediu R$ 30 mil para a reestréia da peça no Rio e em São Paulo. A poucos dias da estréia, a mesma advogada teria pedido o dobro do valor. Nilcemar se defende, dizendo que o primeiro contrato tinha erros como a exclusividade do uso da imagem de Cartola por um tempo determinado, que o pagamento de 5% da bilheteria só foi efetuado agora, para viabilizar a reestréia.

— Em nenhum momento eu me preocupei com dinheiro. Só que tínhamos um contrato que não foi cumprido. A peça seria no João Caetano e ganharíamos sobre a bilheteria. Quando fecharam com o CCBB, elas fizeram um cálculo, aprovado por mim, mas não me pagaram. Só agora, porque elas queriam reestrear a peça, fizeram o pagamento. Mas não renovamos o contrato — diz Nilcemar. — Até que eu vi um anúncio do espetáculo e me senti pressionada, desrespeitada. Por isso não deixei a peça acontecer.

Laura Castro tem outra versão para a história:

— Quando fizemos o primeiro contrato, nem sabíamos se conseguiríamos realizar a peça. Quando o pessoal do João Caetano demonstrou interesse, não tínhamos a verba suficiente — conta Laura. — A uma semana da estréia recebi um telefonema da secretária da advogada querendo marcar um encontro para o dia seguinte, caso contrário, revogaria o contrato. E mais, disse para uma de nós ir sozinha. Quando cheguei lá, ela disse que se eu não pagasse R$ 30 mil não haveria estréia.

Nilcemar nega ter pedido mais dinheiro

Laura diz que saiu chorando da reunião e que era impossível pagar aquele valor. As três, então, procuraram um advogado, que disse não haver hipótese de o tal contrato ser revogado pela família de Cartola.

— Dissemos para a Nilcemar que estava em cima da hora, mas que faríamos um novo contrato. Ela esteve na estréia e adorou. Sempre teve um contato muito próximo com a peça. Quando a temporada acabou, recebemos uma carta dizendo que a família não se interessava pela continuidade da peça — conta Laura.

— Não está em lugar nenhum que eu pedi mais dinheiro para a peça poder estrear. Mas o meu compromisso é com a memória de minha avó e de meu avô e desde o começo essas moças se mostraram inexperientes e pouco profissionais. Duas semanas antes da estréia elas queriam demitir a autora do texto, Sandra Louzada, e eu não deixei, até porque não se faz um texto em 15 dias — rebate Nilcemar.

Segundo Laura, elas entraram em contato com a advogada com os números do borderô do CCBB e com o cheque para pagar o combinado. Foi quando surgiram as propostas para prorrogar a temporada.

— Chegamos a um acordo em que pagaríamos R$ 10 mil pela primeira temporada, tirando dinheiro do nosso bolso, e que, como tínhamos conseguido mais uma verba, daríamos os R$ 30 mil que elas queriam, ou seja, metade do nosso orçamento. Pagamos os R$ 10 mil e pedimos empréstimos para adiantar a produção enquanto o dinheiro não saía. Quando pedimos uma autorização esta semana, já que o contrato nunca ficava pronto, a advogada disse que, como eram Rio e São Paulo, queriam R$ 60 mil. Desfizemos tudo e estamos devendo R$ 30 mil.
Christiane de Assis Pacheco
8 de Junho de 2004 #

Também não acredito que as produtoras patricinhas da peça, se preocupem com a alma musical deixada por Cartola. Na verdade tam~´em usam do nome do projeto, da escritora e dos atores para se promoverem. Não acredito mesmo que o problema foi só com a herdeira do Cartola. Afinal, quem foram essas produtoras antes da peça Obrigado Cartola?
cassius
8 de Junho de 2004 #

Tenho Cartola como um dos maiores nome da poesia singela brasileira. Vi a peça três vezes.

Esta história da neta está muito mal contada, que ainda tem a audácia de dizer que nunca pensou no dinheiro, como disse ao Globo.

E a quantidade de pessoas envolvidas que ficaram sem trabalho? Se há produtores que insistem em correr os riscos de montar uma produção como esta, primorosa, é um absurdo que este tipo de coisa aconteça.
Priscilla
8 de Junho de 2004 #

Tenho Cartola como um dos maiores nome da poesia singela brasileira. Vi a peça três vezes.

Esta história da neta está muito mal contada, que ainda tem a audácia de dizer que nunca pensou no dinheiro, como disse ao Globo.

E a quantidade de pessoas envolvidas que ficaram sem trabalho? Se há produtores que insistem em correr os riscos de montar uma produção como esta, primorosa, é um absurdo que este tipo de coisa aconteça.
Priscilla
8 de Junho de 2004 #

Caro Cassius,

Pelo visto vc só confia em quem tem experiência e uma carreira construída durante anos...

Novos artistas, produtores, diretores não têm credibilidade para vc? É impossível gente nova fazer "coisa boa"???

Diga, sineceramente. Acho que vc andou se rasgando de inveja com o sucesso dessa turma. E está feliz com esse fato lamentável, não é mesmo?

Por favor, que tom é esse? Por que tantos rótulos? Por que precisa saber do passado das meninas?

Parece que vc não aceita bem novas idéias ou nem faz questão de conhecê-las. Vive num mundo de PREconceito e teme mudanças! Cuidado! Vc pode ser atropelado pelo mundo!
Camila Prado de Albuquerque
8 de Junho de 2004 #

Acho lamentavel perceber como existem pessoas invejosas no mundo. AS tres, pelo pouco que posso perceber, sao jovens batalhadoras, que tiveram a sorte e a competencia de conseguir montar um espetaculo desta grandeza em seu primeiro trabalho como produtoras. Infelizmente tiveram o azar de se deparar com pessoas mal intencionadas, como essa herdeira e sobretudo como essa advogada, que com certeza foi quem armou esse circo, convencendo sua cliente de "seus direitos".
Lamentavel.
Meninas, vcs sao o maximo! Nao se abalem.
Ana Luiza
8 de Junho de 2004 #

Cassius,

Você está por fora. A peça "Obrigado, Cartola!" só existiu porque nasceu da cabeça das produtoras-genitoras da peça. São atrizes iniciantes e nunca haviam feito qualquer produção de qualquer gênero, por menor que ela fosse. Não acredito que patricinhas pudessem, além de conceber a grande idéia, dar conta de um projeto tão grande. Mas elas mostraram com a temporada de sucesso no CCBB do Rio que estão plenamente capacitadas para isso. Infelizmente esbarraram num grande problema para qualquer produtor: a ganância dos chamados "herdeiros por profissão".

Falta de educação sua chamá-las de patricinhas sem nunca tê-las visto mais gordas. Presta a atenção, rapaz!
Lucas Porto
9 de Junho de 2004 #

Em teatro não existe trabalho individual. Obrigado, Cartola! existiu pelo esforço de uma equipe que superou dificuldades, enormes, em nome do amor ao espetáculo. Todos os que compuseram a ficha técnica do espetáculo e músicos e atores que estiveram em cena foram os criadores dessa homenagem a mestre Cartola. Sem o esforço enorme de cada um dos envolvidos a peça não existiria. Sem o apoio irrestrito do Centro Cultural do Banco do Brasil não teria sido possível, todos os que estávamos dentro do processo sabemos disso. Louve-se, portanto, o empenho de todos os envolvidos. O aborto da reestréia no Teatro João Caetano não pode ser creditado a uma só pessoa. Entendo que foi resultado de uma soma de erros que todos nós, conscientemente ou não, deixamos que acontecessem. Obrigado, Cartola! não morreu. Está apenas, acredito, cumprindo o mesmo caminho de quem a inspirou. Certamente em breve renascerá das cinzas e brilhará em palcos do Brasil inteiro para, passada a turbulência, continuar a louvar a história do homem que nos faz sentir orgulho de ser quem e o que somos.
Sandra Louzada
9 de Junho de 2004 #

resposta a Camila Prado de albuquerque:

Nem de um lado, nem de outro. Posso até ser ''atropelado pelo mundo''como você disse, mas naum uso o nome de ninguém. Sei que a crítica foi pesada, mas não é com essas ameaças que eu mudei minha opinião.Adoro a a peça, os atores, mas continuo achando que foi produzida pelas pessoas erradas. Nada pessoal pq não conheço ninguém da produção,mas profissionalmente, ficou muita coisa no ar. Vou andar agora pela faixa de pedestres né Camila.
Até.
cassius
10 de Junho de 2004 #

Não conheço as pessoas participantes da peça "Obrigado, Cartola", assim como não conheço a "neta" do senhor Angenor. Mas conheci Cartola da maneira mais efetiva que alguém pode empregar para conhecer um artista: mergulhando em sua obra,ficando com os olhos cheios de lágrimas ao ouvir qualquer um de seus maravilhosos versos,embriagando-me com suas melodias. Cartola era humilde, simples,libriano até a raiz dos cabelos(o que significa não dar a mínima bola para dinheiro). Portanto, quem quiser que se "suje" por causa de grana, porque o velho não daria a menor importância a isso. Aliás, se eu tivesse o privilégio de ser neta de Cartola,mesmo que neta "torta", teria o maior prazer em pagar a quem quisesse divulgar seu nome e sua obra pelo Brasil inteiro (até porque eu também sou libriana e acho que dinheiro não tá com nada!). Faço minha parte, colocando os discos dele com o som bem alto (pelo menos que passa pela minha casa, "corre e olha o céu", procurando entre as nuvens aquele maravilhoso sorriso de criança que eu tive , um dia, o prazer de ter em resposta ao meu cumprimento" a bênção, Cartola !".
Solange de Araujo Apolinario
23 de Junho de 2004 #

O texto abaixo é de Vicente Maiolino, diretor da peça "Obrigado, Cartola!"

REFLEXÃO RETARDATÁRIA SOBRE O "ENTERRO" PRECOCE DO MUSICAL "OBRIGADO, CARTOLA!"

"Acabou-se a nossa festa. Esses atores, como eu te dissera, eram apenas espíritos, e se perderam na transparência do ar. Assim se dissolveu essa ilusão. Chegará o dia em que as torres coroadas de nuvens, os palácios resplandecentes, os templos solenes e mesmo o globo imenso, e tudo quanto lhe pertence, vão desaparecer sem deixar rastro, como se dissolveu esse espetáculo. Somos dessa matéria de que os sonhos são feitos. E nossa vida breve é circundada pelo sono" William Shakespeare / tradução de Geraldo Carneiro

Com cenário já redimensionado no palco do João Caetano, luz e som montados, programas rodando, convites prontos - aparentemente tudo corria muito bem. A alegria de estarmos ainda juntos sem nenhuma substituição e o ótimo rendimento dos ensaios dava-me a certeza de que o espetáculo iria ganhar a respiração certa em palco maior. Tudo lindo! "Obrigado, Cartola!" transformava-se, enfim, em ópera popular.

De repente o susto, a foice, a morte antecipada.

Passado o pasmo inicial, a perplexidade, a dor e a ressaca, é necessário uma reflexão maior sobre o acontecido, ou melhor, sobre a gravidade do acontecido. Só me lembro de fato semelhante (interdição da estréia de um espetáculo) nos anos de chumbo, quando "Calabar" de Chico Buarque foi interditado, também pouco antes da estréia, pela censura da ditadura militar, no mesmo Teatro João Caetano. Fora os abusos da ditadura, ato tão insensível e violento contra artistas e público me parece inédito na história do teatro brasileiro. O fato toma caráter ainda mais grave, principalmente, tendo-se em conta que a foice foi afiada, o golpe urdido e praticado por mentes e mãos aparentemente irmãs. Muito diferente do caso de "Calabar" quando o inimigo era explicitamente localizado fora, o conflito no "Obrigado, Cartola!" ganha forma de trama Shakesperiana, pois os agentes da tragédia, ainda que publicamente - e até para alguns de nós - parecerem indefinidos (Coisa desconfortável!), são de dentro da própria situação. Mudou o Brasil ou mudamos nós?

Quando começamos a montar um espetáculo, antes de tudo, é preciso bastante generosidade para no decorrer dos ensaios ir se criando, passo a passo, uma determinada atmosfera: cada espetáculo tem seu mundo particular, sua respiração e sua vida própria - sua linguagem - essa química é criada ali, no ensaio. E há que se ter muito cuidado com isso. É com esse micro universo que vamos pro palco. É com as sutilezas e o equilíbrio dos jogos estabelecidos entre todos que criamos o ilusionismo do teatro, para que ele toque, divirta e espelhe o público. Cumprimos nosso papel. Trabalhamos cinco meses para "Obrigado, Cartola!" chegar à cena. Foi um processo intenso - um trocar e tecer verdadeiras emoções para contar a história desse nosso sambista tão lírico. Éramos uma célula pulsante. O público sentiu e respondeu a isso.

Para que o jogo do Teatro aconteça é preciso que cada um esteja inteiro, pleno, potente, desempenhando seu exato papel. Se alguém atravessa, a engrenagem certamente vai emperrar. A engrenagem emperrou.

Uma peça pode vir a ser imortal somente enquanto literatura dramática; uma peça só se transforma em Teatro quando é encenada e, essa montagem única só existirá naquele momento específico em que estiver existindo. Os grandes a textos se mantêm e continuarão vivos porque nós que fazemos Teatro os encenamos. O Teatro é uma arte poderosa, porém perecível - que é construída de uma conjuntura de fatores artísticos e humanos que só se materializam em algum "momento" certo e específico, cumprindo ali seu ciclo de vida e morte - nós que vivemos o Teatro sabemos disso. Nem sempre o TEATRO acontece no teatro. Dessa vez estava acontecendo.

Esse "momento" do "Obrigado, Cartola!" foi cortado. A energia de sua célula vital, minada, ferida e sangrada. Não pode se brincar, nem manipular assim com o TEATRO! Fica no ar a pergunta: Quarenta artistas e técnicos desempregados? Isso é fato. Fato lastimável e ponto. Só que o buraco é muito mais embaixo - são quarenta "peitos vazios", como diria Cartola, estrangulados em pasmo, em inércia, em raiva, em dor. Fica no ar a bela fala de Flávio Bauraqui: "Dinheiro se negocia, energia não."

Venceu o Dragão. Viva São Jorge!

Vicente Maiolino / diretor de "Obrigado, Cartola!"
Paulo Eduardo Neves
25 de Junho de 2004 #

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