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Café Brasil 2 traz Época de Ouro e renomados músicos (sorteio!)

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Por Paulo Eduardo Neves
Publicada em 15 de Novembro de 2002 
Assunto: CDs

Grande notícia para os fãs de choro, o Época de Ouro, o mais antigo regional de choro em atividade, está lançando o CD "Café Brasil 2". Ano passado uma gravadora alemã encomendou um disco de choro para a Warner Music e o resultado foi o primeiro Café Brasil. Para surpresa da gravadora, foi um tremendo sucesso de vendas no Brasil e no exterior, com centenas de milhares de cópias vendidas. Sabemos que eles já têm outros discos semi-prontos, esperamos agora que o grupo mantenha o ritmo de um disco por ano.

O primeiro Café Brasil, na verdade, não era apenas apenas do Época. O conjunto era apenas o nome mais presente e várias faixas foram tiradas de um disco que estava engavetado há vários anos. Neste disco "engavetado" o Época tocava com os intérpretes com quem andou gravando nos tempos que o choro estava sem qualquer mídia. Algumas pessoas estão dizendo que a gravadora impôs as participações especiais para o disco se tornar mais "comercial". Não é verdade. São apenas nomes das mais diferentes matizes da música brasileira reconhecendo a importância do conjunto Época de Ouro. A única queixa que se pode fazer é que alguns dos intérpretes não se afinaram tão bem com a música do Época e que alguns dos filé-mingnons (como o Paulinho da Viola) foram direto para o primeiro Café Brasil. Participam do disco: Nó em Pingo D'Água, Ivan Lins, Arlindo Cruz & Sombrinha, Elba Ramalho, Sivuca, Lobão, Moska, Cristóvão Bastos, Zeca Pagodinho, Ney Matogrosso, Beth Carvalho e Moraes Moreira.

Este é definitivamente um disco do Época de Ouro e essa é sua maior qualidade. O melhor do disco são as músicas inéditas. Veja nos comentários o repertório completo junto com um texto de Sérgio Cabral comentando as músicas. Quatro belas composições vêm de um dos maiores músicos do mundo, o homem que "inventou" seu instrumento e formou uma escola de como tocá-lo, Dino Sete Cordas. O fenomenal Jorginho do Pandeiro, o maior pandeirista do choro, também apresenta duas músicas de sua lavra, além de ter sido o produtor do disco. Completam o grupo o magistral violão de César Farias, Ronaldo do Bandolim, Toni Sete Cordas e Jorge Filho no cavaquinho.

Quando os intérpretes entram em sintonia com o Época de Ouro, acontecem os momentos mágicos do disco. O maior deles é a interpretação de Beth Carvalho. Ela não só está cantando como nunca, como parece que Dino fez a música especialmente para seu caloroso timbre de voz. A música ainda tem um belíssimo solo de Ronaldo sobre as baixarias do sete cordas e até -- algo que nunca ouvi! -- o próprio Dino cantando. No final Dino ainda diz "Obrigada querida Beth, você também é goiabada cascão". A explicação da frase é que quando Beth gravou e tornou em sucesso a música Goiabada Cascão de Wilson Moreira e Nei Lopes, falava na introdução: "Um dia, o Sérgio Cabral falou que o Dino do violão era goiabada cascão em caixa, coisa assim muito rara. Então, pra nós agora, tudo que é coisa rara, difícil de achar e boa, virou goiabada cascão."

Outros responsáveis por grandes momentos são Zeca Pagodinho, Ney Matogrosso e as faixas instrumentais com o arcodeonista Sivuca e a com o pianista Cristóvão Bastos. Uma coisa divertida é ver o grupo, por excelência o mais tradicional conjunto de choro, tocando com tanta gente diferente, dos rock/pop Moska e Lobão ao quase experimental Nó em Pingo D'Água. Hoje em dia quando qualquer um que faz um trabalho um pouquinho diferente vem com um discurso de "renovação" do choro e de paladino contra a caretice, os veteranos do Época de Ouro mostram que isto é apenas papo furado de marqueting. O choro sobrevive até hoje pois sempre esteve aberto para as mais diversas influências, absorvendo-as e digerindo-as.

Ao contrário do primeiro disco, que tinha um preço absurdo, este volume 2 está na faixa de preço normal dos atuais lançamentos (isto é, caro). Há uma versão "luxo" e uma simples. Recomendo a simples que é mais barata. As duas trazem exatamente as mesmas informações, a luxo apenas tem algumas fotos a mais dos integrantes, resultando em um encarte mais grosso, e aquela caixinha de papelão em volta que impede que o disco caiba nos porta-CDs.

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Comentários dos leitores

Repertório

Canta Brasil (Alcir Pires Vermelho e David Nasser) - Nó em Pingo D´Água
Cegos de Luz (Ivan Lins e Aldir Blanc) - Ivan Lins
Santo Forte (Dino e Pelado da Mangueira) - Arlindo Cruz & Sombrinha
Nova Ilusão (Claudionor Cruz e Pedro Caetano) - Elba Ramalho
Dino Pintando o Sete (Sivuca e Glória Gadelha) - Sivuca
Chorando no Campo (Lobão e Bernardo Vilhena) - Lobão
Uma farra na Ilha (Jorginho do Pandeiro e Cristóvão Bastos) ? Cristóvão Bastos
Insensatez (Dino e Augusto Mesquita) - Moska
Bom Jesus (Dino e Jorge Rocha) - Zeca Pagodinho
Ana Carolina (Jorginho do Pandeiro e Paulo César Pinheiro) - Ney Matogrosso
Aperto de Mão (Dino, Jaime Florence e Augusto Mesquita) - Beth Carvalho
O Bandolim do Jacob (Moraes Moreira) - Moraes Moreira
Desafinado (Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça) - Época de Ouro

Texto de Sérgio Cabral:

Café Brasil 2 é mais uma troca de abraços do conjunto Época de Ouro com alguns dos mais ilustres integrantes da grande família que forma a música popular brasileira. E é, sem dúvida, mais uma demonstração de que o choro coloca-se acima do tempo e da moda. Aqui estão gerações diferentes e diversos estilos, todos ao abrigo do mais antigo e importante conjunto de choro do Brasil (quase dizia que é o mais antigo conjunto de choro do mundo, o que seria verdadeiro, até porque se trata de um grupo internacional, como demonstrou o primeiro Café do Brasil, que vendeu mais de 70 mil exemplares em todo o mundo, além das 40 mil vendidas no Brasil).

Eis as músicas do disco:
Canta Brasil (Alcir Pires Vermelho e David Nasser) ? A primeira troca de abraço une os veteranos do Época de Ouro (dois octagenários entre eles: Dino, 84 anos, e César Faria, 82) e os jovens do magnífico conjunto Nó em Pinto D'Água., num clássico do chamado samba-exaltação.

Cegos de luz (Ivan Lins e Aldir Blanc) ? Cristóvão Bastos fez o arranjo desse belo samba, mas o piano que acompanha Ivan Lins na abertura da música é do próprio Ivan. Depois, entra o Época de Ouro conferindo à faixa um pouco do sabor do choro e um pouco dos chamados conjuntos regionais.

Santo forte (Dino e Pelado) ? Arlindo Cruz e Sombrinha são os intérpretes da parceria de um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos com um legítimo compositor de escola de samba, o saudoso Pelado da Mangueira. Nesta faixa, Dino (o grande personagem do CD) homenageou Sombrinha, cedendo-lhe o seu próprio instrumento, a pedido dele. E, honra seja feita, Sombrinha honrou o violão do mestre.

Nova ilusão (Claudionor Cruz e Pedro Caetano) ? Foi a própria Elba Ramalho que escolheu este clássico da música popular brasileira, que nasceu de um pedido do cantor Sílvio Caldas, interessado num samba do estilo de Da cor do pecado, de Bororó. Pedro Caetano criou uma nova letra para a música de Da cor do pecado, enquanto Claudionor providenciou uma música para a letra escrita por Bororó.

Dino pintando o sete (Sivuca) ? Convidado para participar do Café Brasil II, Sivuca escreveu esse choro dedicado a Dino. E a homenagem não se limitou ao título da música. A composição de Sivuca oferece todas as condições para Dino brilhar executando aquelas baixarias que são a sua especialidade.

Chorando no campo (Lobão) ? Quem ouve essa música pela primeira vez pensa que Lobão compôs um choro. Mas a verdade é que tal choro é uma adaptação feita pelo próprio Época de Ouro para um dos clássicos do repertório de Lobão. O autor gostou tanto que fez questão de cantar.

Uma farra na Ilha (Jorginho e Cristóvão Bastos) ? Jorginho do Pandeiro é o autor da primeira parte. Quando o Época de Ouro e Cristóvão Bastos estiveram em Portugal, Cristóvão compôs a segunda e a terceira partes. Por isso, Jorginho queria que o choro se chamasse Um choro em Lisboa, mas ficou Uma farra na Ilha, em homenagem ao próprio Jorginho, morador da Ilha do Governador.

Insensatez (Dino e Augusto Mesquita) ? Música composta há muito anos (bem antes da xará bossa nova) e que é gravada pela primeira vez por esse magnífico cantor de sambas, que é Paulinho Moska.

Bom Jesus (Dino e Jorge Rocha) ? Na faixa anterior, um magnífico cantor de sambas. Nessa, o próprio samba: Zeca Pagodinho. É ele que canta mais uma obra de Horondino José da Silva, o nosso Dino Sete Cordas, o compositor embaciado pela genialidade do instrumentista.

Ana Carolina (Jorginho e Paulo César Pinheiro) ? Esta valsa nasceu de uma sugestão feita pela própria neta de Jorginho, Ana Carolina. O grande pandeirista e produtor deste disco não só caprichou nos mínimos detalhes da melodia como encomendou a letra a um dos maiores letristas brasileiros, Paulo César Pinheiro. O resultado é essa declaração de amor, que ficou ainda mais bonita pela interpretação de Ney Matogrosso.

Aperto de mão (Dino, Jaime Florence e Augusto Mesquita) ? É a música mais conhecida do compositor Dino. Seu parceiro na criação da melodia é o companheiro, desde o tempo do Regional de Benedito Lacerda, Jaime Florence, o Meira. A letra ficou por conta de Augusto Mesquita, o letrista predileto tanto de Dino quanto do próprio Meira. E, sendo uma música de sucesso, só poderia ser interpretada por quem há tantos anos só tem merecido o carinho e a admiração do povo brasileiro, a grande cantora Beth Carvalho. Dino homenageou-a devolvendo-lhe o epíteto de ?goiabada cascão em caixa? (uma raridade) e cantando pela primeira vez num disco. Por sinal, cantou muito bem.

O bandolim do Jacob (Moraes Moreira e Armandinho) ? Num disco do Época de Ouro, não poderia estar ausente o criador do conjunto, o imortal Jacob do Bandolim. Ei-lo na penúltima faixa, numa homenagem envolvendo um dos seus sucessores, Armandinho, e um dos nossos grandes compositores, Moraes Moreira, a quem coube a interpretação da música.

Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça) ? Assim como Jacob fez de Chega de saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) uma música de choro, o Época de Ouro fez o mesmo com outro ícone da bossa nova, o samba Desafinado. Nesta versão, o grande destaque, sem dúvida, é o show proporcionado por Jorginho com o seu pandeiro.

P. S. ? Este disco foi gravado em 2002, 50 anos depois de o violonista Dino ter feito do violão de sete cordas um dos mais nobres instrumentos da música popular brasileira. É certo que, antes dele, o instrumento foi muito tempo tocado por Artur de Souza Nascimento, o Tute. Mas o casamento definitivo ocorreu entre Dino e o violão de sete cordas, no ano de 1952.
Paulo Eduardo Neves
15 de Novembro de 2002 #

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