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Projeto Puxando Conversa

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Catoni, Delcio Carvalho e Walter Alfaiate no Puxando Conversa
Veja as fotos
O PUXANDO CONVERSA ESTA VOLTANDO...

O PUXANDO CONVERSA é um projeto de memória da cultura popular que atua no registro e divulgação das histórias do samba e do cotidiano popular, contada por seus cronistas oficiais: os compositores.

O projeto aconteceu, em sua forma atual, de 1998 a 2000, e volta terça-feira 13 de abril de 2004. Gravamos em vídeo a obra, a maneira de compor, a relação com os parceiros e com a vida, tentando encontrar nestes relatos, não apenas as músicas produzidas por pedreiros, biscateiros, ambulantes, policiais, pintores, enfim, anônimos, mas também suas táticas de praticantes (Certeau) e os conhecimentos produzidos em espaços/tempos cotidianos, trançando uma rede de memórias coletivas.

Vídeo editado, lançamento em telão, num local público onde além do(s) homenageado(s), comparecem seus parceiros, amigos, familiares e o público. Nesta ocasião, o vídeo-tape se completa com o que acontece ao vivo, que simultaneamente vai ao telão. Forma-se uma roda-se samba multimídia.

O Puxando Conversa é um projeto da Imagem na Ação - Núcleo de Desenvolvimento de Projetos de Comunicação e Cidadania, que é uma associação civil sem fins econômicos, filantrópica e independente, criada em 1999 a partir do encontro de produtores culturais, profissionais oriundos de projetos de comunicação popular e de movimentos sociais, educadores, psicólogos, jornalistas e outros trabalhadores, unidos pelo interesse em desenvolver trabalhos através da tecnologia audiovisual que contribuam para a democratização do uso das mídias – eletrônicas e digitais - em ações que estimulem novas formas de relacionamento com as diferenças em nossa sociedade.

O dia 13 de abril de 2004 será o re-lançamento do Puxando Conversa, retratando vida e obra do compositor Monarco.

As exibições de vídeo / rodas de samba do Puxando Conversa acontecerão nos jardins do Museu da República, em frente ao Museu de Folclore, sempre na 2ª terça-feira de cada mês, a partir das 18:30 h. A entrada é franca.


O PROJETO PUXANDO CONVERSA: UM TERREIRO MULTIMÍDIA.[1]

Valter Filé[2]

O inicio do Puxando Conversa acontece na TV Maxambomba[3]. Gravávamos um programa sobre o bairro de Mesquita. Dentre seus moradores estava Romildo, um pernambucano cheio de cantigas, que, segundo um amigo e parceiro, havia contrabandeado do nordeste os ritmos – o coco, a embolada, o baião, o frevo - que se encontraram com o samba carioca. Gravamos em vídeo[4], quatro horas de pérolas. Romildo, um militar reformado da marinha, apenas reconhecido no mundo do samba. Esse ilustre “desconhecido” tinha dezenas de músicas gravadas e entre os importantes interpretes, ele se orgulhava de ter levado, pela primeira vez na historia da música popular brasileira, uma mulher ao topo das vendas no Brasil. Era Clara Nunes com sua música “Contos de areia[5]”. Uma semana após as nossas gravações em vídeo, Romildo falece, aos 47 anos de idade. Era o ano de 1990.

Romildo nos impressionou de tal forma que fomos gravando outros compositores sem saber bem o que fazer com o material. O projeto só tomou a forma atual em 1998, quando começamos a lançar os vídeos em rodas de samba mediadas pela linguagem audiovisual.

A escolha dos compositores a serem gravados saía sempre das conversas tidas com outros compositores. Íamos trançando uma rede de memórias coletivas.

O segundo momento, o do lançamento do vídeo, acontecia com a presença do(s) homenageado(s), amantes do samba, curiosos e de outros compositores que vinham prestigiar o(s) amigo(s) e parceiro(s). Depois do vídeo lançado, formava-se uma “roda de samba multimídia” onde homenageado(s) e seus convidados mostravam aos presentes suas obras, que, muitas vezes, eram creditadas a grandes nomes da música popular, sobrando para aqueles “operários”, os compositores, o anonimato. Este momento também era gravado e exibido simultaneamente em um telão.

Marcos Alvito (2000)[6], amigo, pesquisador e freqüentador do “Puxando Conversa”, descreve assim uma das apresentações que homenageava Romildo:

"Na tela, o parceiro querido de muitos ali presentes, o lendário boêmio que conhecia e era conhecido em cada botequim da Baixada, o craque que jogava nas onze: samba, forró, coco, embolada, capoeira... O homem cheio de cantigas na preciosa definição de Filé. Vídeo, que vídeo nada, aquilo era uma aparição, um sonho sonhado de novo. O samba no terreiro multimídia, a memória despertada re-vivendo o saudoso Romildo, fecundando uma nova parceria, não mais no pé-sujo da Praça Mauá (o aeroporto da Baixada), mas no espaço da troca virtual, olho no olho mais uma vez. Tradição e pós-modernidade, por que não? Depois a roda dos bambas, quem sabe sabe e não tem medo de boca de ferro nem de super-VHS. Uma homenagem, um tributo? E além, muito, além disso, também: sinais de fumaça pro parceiro do andar de cima, um ritual de celebração da vida, afirmando a eternidade pela memória (p.43)".

Ainda sobre este lançamento, um jornal[7] de Nova Iguaçu traz uma manchete muito interessante e que sintetizou algumas emoções de parceiros do compositor falecido: “Puxando Conversa traz Romildo de volta”. Dizia das possibilidades de memória estar viva, presente entre os presentes.

Quantos compositores, quantas pessoas que se juntaram para testemunhar: Catoni (1998)[8], com um registro vocal impressionante, mantendo vivos elementos da cultura negra, como o agradecimento aos sintomas de estar vivo e de que “deve haver alguém impulsionando tudo” por isso ele nos lembrava que era preciso agradecer, nos dizia: já que dormimos dentro da noite, por que pela manhã não agradecemos, por ter usado uma noite? A historia de Noca da Portela[9] e seus parceiros que, quando vão ao banco receber o dinheiro do primeiro sucesso que fazem, um deles pede para colocar todo o dinheiro numa sacola e vai embora para casa de ônibus. Quando perguntado porque não deixara o dinheiro no banco ele responde: e eu sei lá se eles não vão me roubar! E Norival Reis (1998)[10] que foi um dos primeiros técnicos de som do Rio de Janeiro, no tempo que os discos eram gravados em cera de carnaúba. Conhecido por seu espírito moleque e irreverente, ele nos conta que certa vez um cantor, muito ruim, segundo ele, havia pagado para gravar um disco e lá pelas tantas pergunta a Norival o que estava achando: olha meu querido, está mais ou menos – responde Norival –

“É, se fosse um Francisco Alves, um Ary Barroso que são seus amigos, você diria que está ótima, agora, como não tenho fama você diz que esta mais ou menos”. E Norival arremata: “Não meu querido, se fosse um destes meus amigos que você citou eu diria que está uma merda, mas como não o conheço digo que está mais ou menos”.

E poderíamos chamar para a roda muitos outros, como Luiz Grande[11], um ex-motorista de táxi e sua originalíssima maneira de compor de dividir os versos evidenciando de forma magistral a síncopa, naquilo que ela exige da presença do corpo, que faz parte do samba, já que o samba não se conforma em ser apenas cantado, tem que ser vivido com o corpo todo. Se a síncopa é a batida que falta, ou seja, “a ausência no compasso de marcação de um tempo (fraco) que, no entanto repercute noutro mais forte” como diz Sodré (1998)[12] e continua afirmando que ela, a sincopa,

"atua incitando o ouvinte a preencher o tempo vazio com a marcação corporal – palmas, meneios, balanços, dança. É o corpo que também falta – no apelo da sincopa. Sua força magnética, compulsiva mesmo, vem do impulso (provocado pelo vazio rítmico) de se completar a ausência do tempo com a dinâmica do movimento no espaço“ (op.cit, p.11).

Assim, as coisas que transitam no samba, não são apenas da ordem da racionalidade, ou pelo menos, de uma racionalidade já consagrada como alguma coisa relacionada aos meios científicos. Às vezes, entender o samba, se o consideramos apenas como um estilo musical ou a partir dos sucessos da industria fonográfica e dos desfiles das escolas de samba é reduzi-lo a um produto da indústria cultural. Ele nos fala de uma cultura negra que preza o acolhimento, a corporalidade, a oralidade, o olho-no-olho. Ele nos remete ao comando de Èsù[13], o verdadeiro dono do corpo, da comunicação e princípio do movimento. Aí, como diz a letra de um samba de exaltação à Mangueira, temos que considerar que “a vida não é só isso que se vê”.

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Notas:

[1] O presente artigo é um resumo do trabalho Puxando Conversa: Samba, memória e redes de conhecimentos num terreiro multimídia, FILÉ, Valter. Publicado em: www.rizoma.ufsc.br/ semint/trabalhos%204/Jos%E9%20Valter%20Pereira%20_%20Valter%20Fil%E9_UERJ.doc

[2] Coordenador do Projeto Puxando conversa; valterfile@yahoo.com.br

[3] A TV Maxambomba foi uma tv de rua que atuava na Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro;

[4] Cheio de Cantigas – Romildo. Produção TV Maxambomba, realização Cecip, RJ, 1998;

[5] Romildo e Toninho Nascimento;

[6] Alvito, Marcos. Puxando Conversa. In: FILÉ, Valter. Batuques, fragmentações e fluxos. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2000:113/128;

[7] Correio da Lavoura p. 3 de 18/24 de abril de 1998.

[8] Puxando conversa: Um preto velho chamado Catoni, com Catoni. Produção TV Maxambomba, realização Cecip, RJ, 1998;

[9] Puxando conversa: Nas veredas do samba, com Noca da Portela e Toninho Nascimento. Produção vídeo, 1998;

[10] Puxando conversa: Muitos enredos, várias alegorias, com Dedé da Portela e Norival Reis. Produção TV Maxambomba, realização Cecip, RJ, 1998;

[11] Puxando conversa: Histórias – fios desencapados, com Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz. Produção TV Maxambomba, realização Cecip, RJ, 1998;

[12] SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998;

[13] Exu como é comumente conhecido;

Veja as fotos desta exposição.


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