Publicado por AntonioEmanuel Guerreiro de Faria Júnior
em 19/08/2001 às 19h27
»Versão para impressão
| O artigo aborda as relações popular/erudito, a questão da fusão entre estilos e a adoção de uma terceira corrente que já se descortina no panorama musical |
Mainstream, ou corrente principal ao pé da letra em inglês, é termo oriundo da geografia, que designa, de forma afastada de sua etimologia, uma forma de pensamento dominante em voga. Já o estilo é algo perfeitamente identificável, com características delimitadas e reconhecidas. No latim tardio stilus designava um instrumento de ponta afiada usado para escrever, geralmente sobre cera, começou a significar também uma maneira de se expressar de maneira ferina. Mas só em 1728 (segundo o Oxford English Dictionary ) o termo é usado na música .
Na área das artes e mais especialmente na da música, de longe a área na qual as definições de termos são ainda bastante imprecisas, é que as coisas se complicam. Mais ainda quando se resolve encarar, frente a frente, a questão da música clássica e da música popular. O termo música erudita, ao invés de Musica Clássica, foi proposto no Brasil por Mário de Andrade para a música elaborada de importação européia. Isto compreende a música clássica de Beethoven, Haydn, Mozart, ou a música romântica de Chopin, Schumann ou Liszt, a de um Debussy, Ravel, Stravinsky, Cage, Villa-Lobos, independentemente dos estilos articulados por cada autor.
A divisão entre Música Popular e Música Erudita ou Clássica ou de Concerto estratifica uma classificação por gêneros ao invés de uma divisão estilística. Não se afirma que exista um estilo popular ou estilo erudito, pois estilos denominam vertentes detentoras de características delimitadas e de feição própria. Mas esta divisão se revela um pouco frágil nos dias atuais, pois os dois gêneros apresentam alguns pontos de contato. Um deles se revela com maior clareza na música popular, pois é na figura do solista, seja ele cantor ou instrumentista que repousa a maior responsabilidade na comunicação das idéias, geralmente centradas na linha melódica.
. A figura do solista popular, permite uma comparação com a figura do concertista erudito - cunhada por Paganini e Franz Liszt - voltado para os heroísmos e a superação de problemas técnicos do instrumento. Mas graças ao progresso das linguagens musicais, os solistas de música popular da atualidade podem enfrentar dificuldades técnicas semelhantes às enfrentadas por concertistas eruditos e este é um fator de contiguidade entre os dois gêneros.
Em publicação recente, Ingrid Monson aborda a questão da interatividade entre solistas e seção rítmica como uma das características do jazz que, dando destaque às improvisações do solista ( em geral , instrumentista de sopro), relega a seção rítmica à posição de fornecedora de background para exibições de virtuosismo. Este modelo foi absorvido, em virtude da hegemonia cultural americana, pela maioria das musicas populares da atualidade. Neste caso a figura do concertista erudito, foi aqui assimilada pela figura do solista- improvisador na música popular instrumental. Esta hegemonia determinou uma eliminação das possibilidades fornecidas pelo estilo concertante no gênero erudito, que sempre previu um diálogo permanente entre solista, ou grupo de solistas e a orquestra, tendo evoluído para os diálogos forjados pelo contraponto nas sinfonias orquestrais. E isto fez toda a diferença na categorização dos gêneros.
Mergulhando um pouco mais fundo nas fronteiras que vão além das categorias, é possível constatar no panorama atual da música popular, que as fusões de estilos nacionais, já são uma realidade. A world-music integra fronteiras musicais e empunha, meio sem-querer, a bandeira da globalização através do fusion, ou mistura de estilos culturais: uma salada etnomusicológica. Já está presente no Brasil em fusões supranacionais, que para desespero dos puristas incluem o samba-raggae, rock-forró e quantas hifenizações puderem ser feitas; some-se à isto as misturas feitas além-mar pelo Ketama, Mano Negra e outros, em um panorama rico e vasto.
As formas de expressão parecem se modificar com rapidez maior do que a velocidade do planeta. Se as fusões entre grandes firmas tem garantido a sobrevivência de alguns negócios, as fusões, pelo menos em arte, sempre garantiram novas formas de expressão. O melhor exemplo disso é o contraponto de Bach que apresenta, com clareza, elementos da fusão do velho estilo polifônico do Renascimento com o estilo homofônico do Barroco. Adicione-se à isto o toque pessoal e intransferível do compositor: as fusões resultaram em uma nova maneira de fazer música, um novo estilo.
Difícil confundir Bach com Haendel. No entanto a música de Bach, foi produto de fusões como o foram a música de Haydn, Chopin, Wagner, Ravel, Gershwin, o Jazz, a Bossa Nova, o Folclore e literalmente tudo o que nos cerca. Compare-se o trio de acordeon, triângulo e zabumba executando o xote nordestino, com um conjunto típico português em um almoço (barulhento) de domingo na Casa das Beiras: a influência ibérica transparece na fusão feita por nordestinos, de elementos portugueses com o sertão. Influências sempre resultaram em aquisições, e estas sempre foram recebidas por artistas de todas as épocas, resultando na fusão de elementos novos com os já existentes.
Novas fronteiras, além das conhecidas podem ser ampliadas com fusões de elementos aparentemente diferenciados, como entre o popular e o “erudito”. Manifestações como estas já apareceram com nitidez na desconhecida música popular de Guerra-Peixe, e em peças isoladas de Cláudio Santoro; este último, de facetas populares pouquíssimo conhecidas. Ambos tentaram, mas creio que não o bastante, uma terceira corrente da qual Radamés Gnatalli foi sem dúvida um pioneiro audaz.
Por concerto pode ser entendido não o Concerto enquanto forma musical ou tipo de evento, mas também o estilo concertante, diálogo entre solista e tutti orquestral presente no barroco e que se fundiu no sinfonismo dos autores clássicos e românticos. E não se confunda sinfonismo com Sinfonia. O sinfonismo compreende a técnica do diálogo entre as partes ; oriunda da polifonia, aplicada aos timbres diferenciados de um conjunto orquestral. A adoção de um sinfonismo na música popular, pode muito bem substituir a hegemonia do solista em relação à seção rítmica. Por outro lado, o desenvolvimento temático não precisa ficar restrito apenas às Sonatas e Sinfonias. A técnica do desenvolvimento é usada com a maior desenvoltura nas músicas para filmes e, a grosso modo, o público mal se dá conta quando o compositor usa a técnica do letmotif Wagneriano na construção da trama musical, vinculada aos personagens e situações psicológicas ditadas pelo roteiro. O recurso do desenvolvimento é um recurso diferente da técnica da variação pela variação, dissociada de qualquer conteúdo temático, empregada nos “improvisos” do jazz ( e sabe Deus com que clichês “recorta-cola”são feitos) contra uma seção rítmica. Estes dados permitem que se possa estabelecer um novo tipo de fusão : a fusão do suíngue característico das manifestações populares juntamente com novas concepções acordais já existentes na MPB, com as técnicas específicas da música de concerto, sem prejuízo da comunicação. Existe pois a possibilidade de que a música seja apenas música, sem fronteiras delimitadoras, e com horizontes consideravelmente ampliados, permitindo o aparecimento de novos estilos e formas de expressão dentro de uma terceira corrente.
Antonio Guerreiro de Faria é compositor, arranjador, produtor, instrumentista, professor de Harmonia da Uni- Rio, e Mestre em Música Brasileira .
.
<
|
>
|