Publicado por JULIO CESAR FERNANDES VILA NOVA
em 12/01/2007 às 00h22
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| Os dois gêneros de Frevo que admitem a palavra cantada (Frevo-de-Bloco e Frevo-Canção) constituem rico material para a compreensão da identidade cultural do pernambucano e da evolução sociocultural do país, ao longo de um século de história. |
Letras do Frevo
No passo das comemorações pelo centenário de surgimento da palavra Frevo na imprensa (9 de fevereiro), são válidas iniciativas de análise que busquem a compreensão dos significados dessa música que “faz demais a gente se distinguir” (João Santiago, sabe lá o que é isso). Já reconhecida sua altíssima qualidade, pela riqueza rítmica, harmônica e melódica, ressaltamos também a importância de suas letras.
À parte o Frevo-de-rua, instrumental, vibrante, contagiante, nascido da confluência de outros gêneros, como a polca e o maxixe, evoluindo pelos dobrados das bandas militares dos fins do século XIX e atravessando as ondas de revigoramento criativo até os nossos dias, nos sopros geniais de um Edson Rodrigues ou de um Spok (mestre e discípulo), tratamos aqui das duas vertentes do Frevo que admitem a palavra cantada, ou seja, o Frevo-de-Bloco e o Frevo-Canção, para buscar entender, afinal, o que dizem suas letras.
O Frevo-de-Bloco
O Frevo-de-Bloco é a música das agremiações tradicionalmente denominadas “Blocos Carnavalescos Mistos”, cujo aparecimento no cenário do carnaval pernambucano registra um interessante dado sociológico: o início da efetiva participação da mulher (sobretudo da classe média) na folia de rua do Recife.
A tendência atual, porém, é a de se adotar a denominação “Blocos Carnavalescos Líricos”, que foi inscrita pela primeira vez num flabelo (o abre-alas do bloco) pelo Cordas e Retalhos, conforme assinalamos em Bloco Lírico, artigo publicado na imprensa em 24/02/2001. Sobre os blocos, já afirmou Leonardo Dantas que é onde está “a melhor parte da poesia do carnaval pernambucano” (1998:32).
Resultado de influências como as manifestações natalinas do Pastoril e dos Ranchos de Reis, além da música dos saraus e serenatas promovidos pelas famílias dos bairros de São José, Santo Antônio e Boa Vista, em princípios do século XX, o Frevo-de-Bloco configurou-se como música de caráter sentimental, profundamente lírico. Daí a pertinência do nome assumido pelos blocos, bem a propósito de uma necessária releitura desse gênero que é freqüentemente tomado como monocórdio, baseado apenas no tema da saudade, como via de regra é abordado na imprensa.
Uma discussão interessante sobre a importância da saudade e a recorrência do tema saudosismo no Frevo-de-Bloco é apresentada por Amílcar Bezerra e Lucas Victor, no excelente Evoluções! Histórias de bloco e de Saudade (2006). Eles analisam os significados que a saudade assume ao longo da evolução do Frevo-de-Bloco, chegando à conclusão de que “saudade, carnaval e identidade são inseparáveis” (2006:102). Isso nos parece muito importante para a compreensão de que os blocos líricos e o Frevo-de-Bloco são valiosos porque constituem traços marcantes de nossa identidade. O bloco não é apenas uma “manifestação propositadamente passadista” (Teles 2000:51), mas é um espaço de convivência humana marcado pela arte e pela defesa de uma tradição que se renova e se reconstrói a cada carnaval. Essa tradição, reinaugurada a partir dos anos 70 do século XX pelo Bloco da Saudade, ganha novas cores e novos nomes a cada ano.
De fato, uma olhada mais atenta às letras do Frevo-de-Bloco revela não apenas a saudade antecipada, pelo carnaval que vai acabar (sobretudo nas marchas-regresso, cantadas pelos blocos em sua despedida da folia); ou a saudade de uma época passada, como nos versos de Evocação nº 1 (Nelson Ferreira) ou Relembrando o Passado (João Santiago), ambas gravadas na segunda metade dos anos 50, quando grande parte dos blocos da primeira geração já havia desaparecido. Observa-se também a elaboração de um discurso pautado pela necessidade de enaltecer e exaltar valores. Verificamos então que o Frevo-de-Bloco cada vez mais tem se construído discursivamente como uma grande propaganda, tendo como objetos a cidade (Recife, Olinda e outras), o carnaval ou as próprias agremiações. Com base no discurso persuasivo, busca-se a adesão do ouvinte/leitor, através do emprego de substantivos, adjetivos e verbos que ressaltam qualidades. Os exemplos são muitos, e podem ser encontrados no repertório de quase todos os blocos:
“O Cordas e Retalhos é assim /(...)/
reúne foliões, espalha alegria/
evoluindo com graça e harmonia”
(de Airton, Leila e Eliane Chaves)
“Vitória-Régia (...)/
És o poema, o tema e a lira /
E a flor que inspira nosso carnaval”
(Romero Amorim e Getúlio Cavalcanti)
“Em plena folia querida /
Rebeldes é o bloco que não tem rival”
(Edgard Moraes)
“Vem conhecer o que é harmonia nesta canção /
O Inocentes apresenta um lindo panorama de folião”
(Luiz de França)
“Recife, cidade do Frevo,
De blocos afamados e maracatus,
Cidade que a todos encanta
Tu és a Veneza do meu Brasil”
(José Moraes)
O tempo empregado é o presente, e muitos exemplos caracterizam a função conativa (ou apelativa) da linguagem, quando a ação verbal é orientada ao destinatário na forma de uma exortação, chamamento ou evocação:
“Vem, vem, vem folião
vem que o Recife te espera”
(José Moraes)
“Não deixem Batutas morrer”
(Álvaro Alvim)
“Acorda que chegou a hora /
vamos cair na folia”
(João Santiago).
Trata-se aqui de suscitar uma nova leitura sobre esse gênero musical às vezes estigmatizado como algo exclusivo de foliões mais velhos, uma visão distorcida e até preconceituosa, que reproduz o etarismo (preconceito contra pessoas de idade avançada). A respeito do lirismo que identifica os blocos e sua música, já se afirmou, inclusive, por absurdo que pareça, que ele seria o “culpado” por uma suposta estagnação do Frevo, tal como se publicou a propósito da crítica a um dos CDs da série Recife Frevoé, lançado pela Prefeitura do Recife em 1999:
“Ouvindo a parte dos compositores novos (depois de um concurso promovido pela PCR), dá pra arriscar mais um motivo que explica a falta de inovação do frevo. Os novos frevistas herdaram o lirismo dos antigos.” (Diário de Pernambuco, 20/01/1999) [grifo nosso]
Esse discurso adotado pela imprensa revela o desconhecimento sobre a dinâmica que tem caracterizado a evolução do Frevo-de-Bloco, sobretudo a partir dos anos 90 do século XX, quando o Recife e outras cidades vêem surgir um grande número de agremiações, várias delas registrando sua produção musical (em muitos casos bastante inovadora) em CD e protagonizando momentos de celebração em diversos eventos durante o carnaval e ao longo do ano inteiro.
O Frevo-Canção
O Frevo-Canção é originalmente marcado por um importante dado sócio-histórico, que é a sua vinculação às primeiras agremiações carnavalescas do Recife. De um lado os clubes de alegorias e críticas, formados pela elite; e de outro, os clubes pedestres, formados por pessoas pobres oriundas de diferentes categorias de trabalhadores (Lenhadores, Caiadores, Vassourinhas, das Pás, etc.). Segundo a pesquisadora Rita de Cássia Araújo (1996), essas agremiações ajudavam a reproduzir no carnaval as divisões sociais da cidade, já a partir da década de 1870:
“A cidade dividida em segmentos e grupos étnicos e sociais distintos, portadores de interesses e visões de mundo próprios – e muitas vezes antagônicos, embora houvesse momentos e pontos de identificação e consenso – de práticas e expressões culturais específicas, era múltipla e mutante, assim como o carnaval” (1996:210)
Inicialmente conhecido como marcha pernambucana, é somente a partir dos anos 30 do século passado que se registram as subdivisões do frevo, sendo o Frevo-Canção escolhido por cantores consagrados nacionalmente para gravação, a exemplo de Francisco Alves, Mário Reis, Carlos Galhardo, Araci de Almeida, além de Expedito e Claudionor Germano.
Sobre as letras do Frevo-Canção, constatamos em sua feição narrativa e descritiva uma característica típica de um gênero literário muitas vezes considerado de menor grandeza, mas de reconhecida importância no panorama de nossas letras: a crônica. Geralmente definida como registro de fatos e impressões quotidianas, e historicamente vinculada ao jornal como seu veículo de propagação, a crônica é tida como gênero mais acessível aos leitores, se comparada a outros gêneros da esfera jornalística ou da própria Literatura. Segundo Massaud Moisés, é uma “expressão literária híbrida, ou múltipla [...] lugar geográfico entre a poesia (lírica) e o conto”.
É bem verdade que, além do discurso romântico, lírico-amoroso que permeia a obra de um Capiba, por exemplo, há inúmeros exemplos de canções que se revelam mesmo como breves relatos da vida sócio-política e cultural brasileira. As letras do Frevo-Canção se revelam, assim, campo fértil para a análise lingüística no âmbito dos estudos sobre a mudança social, de seus versos emergindo também relações de poder e dominação, objeto de estudo da instigante área da Análise Crítica do Discurso. Exemplos famosos são “O Teu Cabelo Não Nega” (Irmãos Valença), que reproduz sem muita sutileza o discurso racista (“mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero teu amor”) ou ainda o frevo “Nem com uma Flor” (Capiba), que aborda o grave problema da violência contra a mulher, de uma atualidade infeliz.
Há ainda a crônica de costumes, como em Menina de Hoje:
“Menina de hoje não quer fantasia
só vai à escola pra fazer folia [...]
de calça comprida, cigarro e boné
já fez seu programa, vou dizer o que é
dar o braço ao seu playboy, entrar no Lunik
ir lá detrás da lua fazer piquenique”
(Manuel Gilberto):
versos que registram hábitos femininos considerados avançados para a época, final dos anos 50, no contexto da corrida espacial, da Guerra Fria e da invasão cultural norte-americana, tudo isso registrado na canção.
Em sua definição de canção popular, o lingüista e compositor Luiz Tatit assinala que “a canção sempre foi uma dimensão potencializada da fala”, ou seja, “cantar é também dizer algo, só que de um modo especial”. Reiterando seu valor de forma simbólica constitutiva de nossa identidade cultural, o frevo-canção incorpora a voz do povo traduzindo em melodias expressões como “É ruim!” (1958), “Qual é o pó?” (1959), “Mesmo que Queijo” (1962), “Olhe o Dedinho” (1963), “Quem morre de véspera é peru” (1973), entre outros títulos do compositor Sebastião Lopes (reverenciado por Getúlio Cavalcanti no frevo-de-bloco “O Bom Sebastião”), gravados pela extinta Rozemblit.
Nos anos 70, o frevo-canção aborda temas de alcance nacional, como o vestibular (“Passei no Vestibular”, de Gildo Branco) ou apenas local, como o fiasco da implosão de uma ponte no bairro da Torre, por uma empresa japonesa contratada para o serviço, acontecimento amplamente divulgado pela imprensa:
“Eu vi, você também, todo mundo viu
A bomba estourou, mas a ponte não caiu
e o engenheiro pela TV anunciava a implosão
e a galera na beira do rio
mandava o japonês pra ver a ponte que não caiu”
(Mário Griz).
É imensa a lista de canções que nos permitem afirmar o veio cronista dos compositores de Frevo-Canção, em sua abordagem de temas da vida brasileira ao longo de um século, chegando até os nossos dias a crítica contra as mazelas da corrupção (bem mais antigas que o frevo, diga-se), apontadas, por exemplo, no Bloco do Mensalão, do compositor potiguar Dozinho, lançada no carnaval 2006 com interpretação de Expedito Baracho:
“toma lá o seu, dá pra cá o meu
vamos rachar direito pra não haver confusão...”
(Dozinho)
Enfatizando a força enunciativa da canção, pelo que ele chama de gesto cancional, baseado nas nuances entoativas de compositores e intérpretes, Luiz Tatit lembra que o aprimoramento das técnicas de registro fonográfico permitiu o estabelecimento da canção como “uma outra forma de falar dos mesmos assuntos do dia-a-dia, com uma única diferença: as coisas ditas poderiam ser reditas quase do mesmo jeito e até conservadas para a posteridade” (2004:70), sendo registradas, então, ao longo do século XX, “a voz do malandro, a voz do romântico, a voz do traído, a voz do embevecido, a voz do folião” (2004:76)
Na verdade, não há nada de novo em observar-se na música popular a vida social, cultural e política do país. Desde a obra genial de Noel Rosa, abordando o quotidiano carioca das primeiras décadas do século XX, até o rap, que enfoca problemas sociais das grandes cidades, a partir da década de 90, a canção tem se constituído como poderoso propagador de idéias, valiosa fonte para o reconhecimento de nossa própria identidade. Talvez o que ainda falte seja um trabalho mais consistente sobre esse rico material, para o estudo da língua em ação, no discurso, considerado como prática social. Afinal, ao longo de um século a canção definiu seu status como área de significativa importância para a compreensão da sociedade e da cultura brasileiras e por isso merece ser estudada com mais atenção, seja no âmbito do ensino fundamental e médio, seja nas escolas de artes, letras e ciências sociais, em nossas universidades.
JULIO VILA NOVA
Autor de Panorama de folião: o carnaval de Pernambuco na voz dos blocos líricos (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2007)
Professor, Mestre em Lingüística pela UFPE
Presidente do Bloco Carnavalesco Lírico Cordas e Retalhos
juliovilanova@ig.com.br
cordaseretalhos@uol.com.br
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa (1996). Festas: máscaras do
tempo – entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife.
Recife, Fundação de Cultura Cidade do Recife.
BEZERRA, Amílcar e VICTOR, Lucas. (2006) Evoluções!
Histórias de bloco e de saudade. Recife, Bagaço.
SILVA, Leonardo Dantas (1998) Blocos Carnavalescos do
Recife- História Social. Recife, Fundarpe.
TATIT, Luiz. (2004). O século da canção. São Paulo, Ateliê
Editorial.
TELES, José (2000) Do Frevo ao Manguebeat. São Paulo, Editora 34.
VILA NOVA, Júlio. (2001) Bloco Lírico. Recife, Jornal do
Commercio, 24/02/2001.
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